INÍCIO

21 abril 2020

A IMAGEM DA ORIGEM DA DESIGUALDADE


Razões da desigualdade



Indicadores apontam crescimento da pobreza e aumento da desigualdade e também que as piores condições são para pretos, pardos e mulheres



Razões da desigualdade foram artificialmente colocadas: sorte e acaso.


Na realidade, a desigualdade deveria ser buscada não nas ideias de Galton e no seu tabuleiro (placa ou jogo) que também é conhecido como "Quincunx" ou Galton´s board", e trata-se de um dispositivo inventado por Sir Francis Galton (em 1874) para demonstrar o Teorema do limite central. Que traduz a verdadeira aleatoriedade. Ele se baseava na distribuição normal que é aproximada à distribuição binomial. Segundo as próprias palavras de Galton: "quanto maior a multidão e maior a anarquia aparente, mais perfeita é sua variação. É a lei suprema da desrazão. Em qualquer lugar onde uma grande amostra de elementos caóticos seja colhida e escalonada segundo a sua magnitude, uma forma de regularidade insuspeitada e das mais belas prova ter estado latente todo o tempo. Os pontos mais altos da fileira escalonada formam uma curva harmoniosa de proporções invariáveis; e cada elemento, ao ser posicionado, encontra como que um nicho predeterminado, cuidadosamente adaptado para contê-lo". (Galton)

Mas essa não é a fonte da desigualdade que encontramos na sociedade humana. A origem da desigualdade pode ser encontrada em outro pensador do século XVIII Jean-Jacques Rousseau. Rousseau, escreveu tentando responder a uma questão acadêmica proposta pela Academia das Ciências, Artes e Belas Letras de Dijon: “qual é a origem da desigualdade entre os homens e se ela é autorizada pela lei natural?” A obra “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens” de 1755, procura descrever a gênese histórica da desigualdade social, realizando, antes, uma análise hipotética do ser humano no estado de natureza. Através desse estudo ele concluiu que a relação humana ideal é uma relação de igualdade e não de hierarquia e reconheceu na conversação entre pessoas iguais, e não na sabedoria de uma elite, a forma ideal para a tomada de decisões políticas. É o sistema econômico atual que produz a desigualdade. Ou seja, a desigualdade é uma construção social que existe como resultado de uma política que repetidamente produz indivíduos desiguais. A burguesia revolucionária e liberal do século XVII e XVIII criou a ideia de uma sociedade igualitária, o paraíso deslocado do céu para a terra, que seria construída com a negação da herança de sangue aristocrática, assim cada um por seus méritos pessoais usufruiria dos bens materiais e culturais da sociedade... 

Assim, Rousseau, concebeu a organização política do povo baseando-se na livre e efetiva participação de todos os integrantes da sociedade, fazendo disto um postulado de onde extraía que a lei somente poderia ser considerada legítima quando expressasse a vontade geral e a autoridade somente poderia ser tomada como válida quando fruto da escolha popular (LIMA, 2014).

O próprio Marx visualizava o socialismo como "a cada um segundo sua capacidade". Como podemos perceber hoje a promessa burguesa malogrou e a meritocracia passou a ser apenas um discurso ideológico para justificar a desigualdade como resultado de incompetência, quando sabemos que isso não é verdade. 

Todos sabemos o caminho para uma sociedade ideal, todavia o capital se opõe a esse objetivo. 
Sabemos que não é a sorte e não é o acaso a razão e a origem da desigualdade. A verdadeira origem é sistemática, e perversa; é a manutenção das classes mais humildes e dos trabalhadores num estado de desconhecimento que não possam lutar por seus direitos, e não possam formar seu filhos para que saiam da classe onde estão. A mobilidade, hoje sabemos, é de 9 (nove) gerações para que alguém que tenha nascido na classe C passe para a classe B. E tudo isso é produzido pelo capital que esta concentrado naqueles que tem o poder de eleger seus próprios representantes o que lhes garante a manutenção do "status quo". 
Os problemas da sociedade podem ser resolvidos pela própria sociedade, através de suas entidades políticas, através de cada um de seus membros, sendo possível se construir um Estado justo, equilibrado, democrático, com mulheres e homens conscientes de seus direitos e deveres, e com o firme propósito de superar, praticamente, todos os males sociais e construir um novo amanhã, com mais paz. (21/IV/2020)



Bibliografia

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens; Discurso sobre as ciências e as artes – Rousseau 2. Tradução de Lourdes Santos Machado. Introdção e notas de Paul Arbousse-Bastide e Lourival Gomes Machado. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os pensadores).

LIMA, Rômulo de Araújo. 10 lições sobre Rousseau. 3. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.







P.S.:
Meu orientador usava uma variante quando falava com seus orientados, ele dizia parafraseando Galton: quanto maior for a liberdade (a anarquia aparente), maior será a variância na criação (mais perfeita é sua variação).














20 abril 2020

IMAGEM DOS CONCEITOS









IMAGEM DE UM DIA NUBLADO








A IMAGEM DOS ELEITORES DO BOLSONARO

A IMAGEM DOS ELEITORES DO BOLSONARO
ou
O BRASIL SENDO EMPURRADO PARA O ABISMO 



A irracionalidade, a contradição e a irresponsabilidade são tão grandes nos bolsominions que colocam o Brasil e todo o seu povo na lata do lixo da história. Mas o Brasil não é isso. O Brasil é muito maior do que esses infames bosomínios ou bolsominions.

Quem são e de onde vêm os eleitores do Bolsonaro

O presidente foi eleito com 39% dos votos. E esses votos vieram predominantemente da classe média. O homem comum, "O cidadão de bem". A família tradicional brasileira, os remediados. 

A classe média somada a uma parte significante de “pobres”, (que ascenderam à classe média e agora já voltaram para a classe C novamente com o governo Bolsonaro), foram responsáveis pela condução à primeira cadeira do pais o atual governo. E claro com a anuência dos que votaram em branco, os que não votaram e dos que votaram em outros políticos.

Calculando a catástrofe

Vamos ao cálculo: dos 147,3 milhões de eleitores aptos a votar nas eleições de 2018, 57,8 milhões escolheram Bolsonaro (PSL), o que equivale a cerca de 39,2% da população.

O significa que o restante, ou seja, 89 milhões de cidadãos, (61,8% da população) não votaram nele. 61,8% NÃO votou nele.


Vamos olhar através de um corte populacional

1) A classe baixa (trabalhadores informais, desempregados, com educação básica, que é formada por famílias (com renda mensal inferior a R$ 5,7 mil), abriga 50,4 milhões de famílias, ou seja, 73% da população brasileira. É muito provável que destes, uma parte votou em Bolsonaro, mas quantos? 

2) Já a classe média, (com renda mensal entre R$ 5,7 mil e R$ 23,8 mil), é formada por 16,7 milhões de famílias, i.e., 24% da população brasileira, estes votaram no Bolsonaro em quase toda a sua totalidade.

2) A classe alta, ou os “ricos”, (que ganham acima de R$ 23,8 mil ao mês), e totalizam 1,84 milhão de famílias (ou 3% da população), estes também votaram no Bolsonaro, quase unanimemente.

Assim, temos: 
População brasileira:73%(títulos válidos)+24% (classe média)+3%(ricos)= 100%
Destes: 39,2% da população votou no Bolsonaro.

Ou seja, toda a classe média que equivale a 24%, mais os 3% de ricos o que totalizam 27%. 

De onde veio o restante para somar os 39,2% dos votos que o atual governo teve? 

Estes votos vieram muito provavelmente da classe C (pobres), assim temos que 12% dos pobres votaram nele. Muito provavelmente esses 12% são evangélicos, manipulados por seus pastores corruptos.

As "fake news", as mentiras, a campanha da mídia (principais TV, os jornais importantes de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, nos últimos 14 anos, massacrando o PT, e os sindicatos, alem de uma irracional e construída aversão de um suposto comunismo, e os pastores corruptos (povo sectarista), atingiram esses 39,2% da população. Muito triste! Esses sim são como ele: racistas, misóginos, sexistas, xenófobos, machista, homofóbicos, neofascistas.
 
Distribuição do eleitorado por religião

Essas pessoas oscilam hoje em torno de 30% se tanto, da população. São os pseudo pequeno burgueses que embarcaram nessa canoa furada, por estarem órfãos dos regimes autoritários passados, nos quais "mamavam" diuturnamente no estado e serviam a ele como seus capitães do mato, em troca de migalhas e prestígio. Se não se beneficiavam por serem serviçais da elite, então compartilhavam seus valores e seus ideias. 

São pessoas sobretudo da classe média, que exploram a força de trabalho dos trabalhadores pobres e se beneficiam da riqueza produzida pelos trabalhadores oprimidos. 
Esses grupelhos imbecilizados se juntaram, tornaram-se visíveis e empoderados por ferramentas de comunicação (whatsapp, telegram, viber, facebook, instagram etc.) que foram cooptados por "think tanks" internacionais, de extrema direita (alt right) e manipularam os votos de parte da população brasileira, como foi feito nos USA, na eleição do Trump. 

Por uma excrescência, chegou ao poder via fake news, ameaças de elites estatais (servidores públicos FFAA) e tutelados por pensamentos de um guru louco obscuro que nunca sequer chegou a terminar o ensino superior e se intitula filósofo e professor. 

Mas como grupo politico eles estão alinhados com o neoliberalismo anacrônico especialmente num mundo pós-pandemia.

Esse partido que agora sabemos ser de extrema direita, se aproveita da pandemia para em primeiro lugar exaltar um passado glorioso que nunca existiu, pois o que realmente existiu, e sabemos através da história, foram excessos do poder estatal para perseguir, capturar, prender, torturar e matar vozes contrárias ao regime. Perseguir jovens universitários e pessoas que discordavam da instauração de uma ditadura militar no pais. 
Pessoas que lutaram para defender a constituição e o estado de direito, desapareceram, foram alijados de seus empregos e para salvar a vida foram obrigados a se exilar fora do país. 

Perseguir e matar vozes dissonantes está longe de ser um passado glorioso. Está mais para um passado criminoso e genocida. 

Se aproveitam da pandemia para aprofundar a crise e retirar o estado da vida das pessoas. E isso é visto em todo lugar no Brasil. É um governo ilegítimo pois não tem nenhum plano, ideia ou medida para resolver um dos problemas crônicos brasileiros o desemprego.

Um mundo novo está se delineando em todo o planeta. E no Brasil corremos o risco de sermos os únicos, a seguir a cartilha do neoliberalismo excludente, concentrador de riqueza na mão de poucos e gerador de uma legião astronômica de despossuídos e desamparados.

A direta e a extrema direita não estão interessados em resolver nenhum problema social, uma vez que seu próprio ministro da economia governa e se dirige somente aos rentistas, aos banqueiros e aos donos do capital, ao invés de se voltar e dialogar com seu próprio povo, procurando soluções que melhorem a renda e a dignidade dos trabalhadores.
 
Esse grupelho de menos de 30% da população dá suporte sectariamente a um governo genocida declaradamente disposto ao extermínio em massa da população trabalhadora e dos mais idosos.
É um governo que aposta na barbárie para poder impor seu projeto de entrega do país para os donos do capital, para impor a retirada de direitos e para calar a mídia e liberdade de expressão.
Já vimos e temos provas de seu modo de ação nos últimos 16 meses, onde é TUDO para os banqueiros, para o capital, para os rentistas e para o trabalhador são migalhas, contaminação com o vírus e a morte.
 
Esses apoiadores pseudo pequenos burgueses, foram contaminados com o vírus da indiferença egoísta, desde há muito tempo. Por isso se identificam totalmente com o seu ídolo.
Somente uma alternativa democrática ao governo Bolsonaro pode salvar vidas. Não há outro caminho a não ser retirar esse governo que só privilegia os ricos, os banqueiros e os donos do capital.
Somente um governo que valorize o SUS (Sistema Único de Saúde), a estabilidade no emprego, um salário digno, a renda digna, um governo que promova a reconstrução da industria nacional, que privilegie a segurança alimentar, que promova a taxação das grandes fortunas, que tire o Brasil do grupo dos países considerados paraísos fiscais. 
Basta ver que os lucros dos cartões de créditos são bilionários, como em nenhum outro lugar do planeta.

Para que exista um futuro, este não poderá ser ditado pelo governo Bolsonaro, pois este governo é partidário do neoliberalismo privatista e da necropolítca. 
Só haverá futuro se a valorização da vida for o ideal fundamental e essencial em todos os discursos em em todos os sonhos.   


Após já ter se espalhado por cerca de 40 países, matado mais de 2.700 pessoas e infectado mais de 80 mil, o primeiro caso do novo coronavírus é confirmado no Brasil. Trata-se de um homem de 61 anos que viajou à Itália a trabalho. (26/02), Veremos uma catástrofe, seremos os campeões da morte? 

(Obrigado G.F pela revisão 20/IV/2020)






Bibliografia 


SOUZA, Jessé. A Elite do Atraso: Da Escravidão à Lava Jato, São Paulo: Editora Leya, 2017. 242p.

BOURDIEU, Pierre. A miséria do mundo. Petrópoles: Vozes, 2001.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Martin Claret, 2001.


Andrade, G. B., & de Freitas, J. S. (2017). A tolice da inteligência brasileira: ou como o país se deixa manipular pela elite. Estudos Internacionais: Revista De relações Internacionais Da PUC Minas, 4(2), 135-140.  Recuperado de http://periodicos.pucminas.br/index.php/estudosinternacionais/article/view/1333


http://lounge.obviousmag.org/artefacto_artefoto/2018/11/quem-elegeu-bolsonaro.html

https://www.dw.com/pt-br/bolsonaro-discursa-em-ato-pr%C3%B3-interven%C3%A7%C3%A3o-militar-em-bras%C3%ADlia/a-53182865

https://www.huffpostbrasil.com/2018/10/29/6-motivos-por-que-jair-bolsonaro-foi-eleito-presidente-do-brasil_a_23574470/?guccounter=1&guce_referrer=aHR0cHM6Ly93d3cuZ29vZ2xlLmNvbS8&guce_referrer_sig=AQAAAKwNYypjVdz1c329274MSFb44vKpDlho3CfxkRvDgkAK1xsiB88g7feN0RF6ROSgp_UHknU38ccdGdE3HCLpDJcPZ_5e4dhORJ5-LqAJgDsAEMxGrwScpWnGxYGVRBLqIBRKOaWSdoq_nRQKO_8114-FwkbC5ruHHrVxTyJQPhEy

https://avessoedireito.wordpress.com/2019/07/31/afinal-quem-elegeu-bolsonaro/

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/584304-o-voto-evangelico-garantiu-a-eleicao-de-jair-bolsonaro












A IMAGEM DO BRASIL OU O QUE SÃO OS BOLSOMINIOS

A IMAGEM DO BRASIL 
OU O QUE 
SÃO OS BOLSOMINIOS 










A seita que ameaça arrastar o Brasil 
para o abismo


O típico bolsonarista é como alguém que anda na contramão na autoestrada e ouve no rádio que há um motorista na contramão e depois grita: "A mídia mente! Não é um motorista, são milhares!"


A extensão da irracionalidade é aterrorizante e ameaça arrastar o Brasil para o abismo. Para a sua disseminação, há um motivo: o bolsonarismo. Esse nome se deve a um homem cujo livro favorito foi escrito por um torturador. Por conseguinte, o bolsonarismo tem correspondentes ideias para a sociedade: violentas, autoritárias, sem empatia, anti-intelectuais e pseudorreligiosas.

O bolsonarismo assumiu agora todas as características de uma seita cujos membros estão dispostos a seguir seu líder incondicionalmente, até a morte. Esse culto à morte está se tornando cada vez mais evidente nas manifestações dos bolsonaristas. Um caixão é carregado alegremente; no meio de uma pandemia, expõe-se a si mesmo e a outros ao perigo de um contágio e se grita: "A covid-19 pode vir. Estamos prontos para morrer pelo capitão."

Como em todos os cultos religiosos, as contradições são ignoradas. O bolsonarista sempre acha que sabe mais que os outros ‒ mesmo que os outros sejam o mundo inteiro. Ele não segue as estrelas da razão e do conhecimento que fizeram a humanidade avançar ao longo dos séculos (apesar dos inúmeros retrocessos). O norte na bússola do bolsonarista é a satisfação de seu ego insultado.

O bolsonarista odeia o conhecimento quando este contradiz sua visão de mundo. Ele é como um motorista que anda na contramão na autoestrada e ouve no rádio que há um motorista na contramão e depois grita: "A mídia mente! Não é um motorista, são milhares!"

Inicialmente, o bolsonarismo negou a existência da covid-19. Tratava-se de uma "fantasia" e uma "invenção da mídia". Então, a doença se tornou uma "gripezinha" que não poderia afetar "atletas".

Quando ficou claro que a covid-19 poderia muito bem fazer isso, seguiu-se o próximo passo na infalível lógica bolsonarista: cloroquina! Existe um remédio para a cura da covid-19, mas os poderes das trevas não permitem que ele seja usado.

Os mesmos bolsonaristas que há cinco minutos haviam negado a existência da covid-19 se tornaram, de repente, especialistas em curar a doença viral altamente complexa. Infelizmente, seus conhecimentos não podem ser aplicados. E por quê? Porque, segundo eles, os governadores e prefeitos do Brasil teriam concordado em implementar medidas de quarentena e introduzir o comunismo.

É típico: no momento que a situação não transcorre segundo a vontade deles, já que o Brasil é um Estado federalista, os bolsonaristas gritam: "Ditadura!" São como crianças que se jogam no chão gritando no supermercado para que suas mães comprem doces. Evidencia-se também a completa falta de princípios desse movimento. As mesmas pessoas que hoje alertam histericamente sobre uma ditadura defendiam ainda ontem uma ditadura, na qual seu herói disse uma vez ter sido um erro apenas torturar e não matar. O que essas pessoas querem agora?

O bolsonarismo segue uma lógica primitiva, criando sempre opostos simplistas. Isso inclui, por exemplo, achar que saúde e economia são contradições. Segundo essa lógica, os brasileiros deveriam preferir se expor ao risco de infecção para não cair na crise econômica. O bolsonarista parece não estar ciente dos custos econômicos (e sociais) de milhões de pessoas doentes e dezenas de milhares de mortes. Cálculos com mais de duas variáveis não são seu ponto forte.

O bolsonarista segue principalmente um impulso. Ele quer ser do contra e causar problemas. Ele sempre contradiz o que os adultos estão dizendo, neste caso: o resto do mundo. Ele fica satisfeito quando se opõe à maioria, vendo-se como um herói. E isso lhe dá a justificativa para agir como vítima.

Como todos os movimentos fanáticos, o instinto de autodestruição é inerente ao bolsonarismo. Assim como Hitler acreditava que a Alemanha merecia ser devastada se não conseguisse vencer a guerra, o bolsonarista gostaria de destruir tudo. Não há outra explicação para a sabotagem do presidente e de seus apoiadores contra as autoridades do setor de saúde pública.

Os bolsonaristas acusam a mídia e os governadores de torcer pela disseminação da covid-19. Na realidade, são o presidente e seus apoiadores que estão fazendo de tudo para provocar o desastre sanitário. 

Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para jornais na Alemanha, Suíça e Austria. Ele viaja frequentemente entre Alemanha, Brasil e outros países do continente americano. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.



Texto em seu sitio original









12 abril 2020

SOBRE A BREVIDADE DA VIDA (DE BREVITATE VITAE - SÊNECA)



DE BREVITATE VITAE

Sobre a brevidade da vida

Lucius Annaeus Seneca
Tradução: William Li





Seneca (Curduba ca. 4 aC  - Roma 65 dC) foi um dos mais célebres advogados, escritores e intelectuais do Império Romano. Conhecido também como Séneca (ou Sêneca), o Moço, o Filósofo, ou ainda, o Jovem. Sua obra literária e filosófica, tida como modelo do pensador estoico durante o Renascimento, inspirou o desenvolvimento da tragédia na dramaturgia europeia renascentista. 
Sêneca foi simultaneamente dramaturgo de sucesso, uma das pessoas mais ricas de Roma, estadista famoso e conselheiro do imperador. Sêneca teve que negociar, persuadir e planejar seu caminho pela vida. Ao invés de filosofar da segurança da cátedra de uma universidade, ele teve que lidar constantemente com pessoas não cooperativas e poderosas e enfrentar o desastre, o exílio, a saúde frágil e a condenação à morte. Sêneca correu riscos e teve grandes feitos. 

Oriundo de família ilustre, era o segundo filho de Hélvia e de Marco Aneu Sêneca (Séneca, o Velho). O irmão mais velho de Lúcio chamava-se Lúcio Júnio Gálio e era procônsul (administrador público) na Acaia, onde, em 53, se encontrou com o apóstolo cristão Paulo. Séneca, o Jovem, foi tio do poeta Lucano. 

Ainda criança com três anos, foi enviado a Roma para estudar oratória e filosofia. Com a saúde abalada pelo rigor dos estudos, passou uma temporada no Egito para se recuperar e regressou a Roma por volta do ano 31 dC. Nessa ocasião, iniciou carreira como orador e advogado e logo chegou ao senado. 



Sêneca (Museu Arqueológico Nacional de Nápoles)


Logo após a morte de Cláudio, ocorrida em 54, o escritor vingou-se com um escrito que foi considerado obra-prima das sátiras romanas, Apocolocyntosis divi Claudii ("Transformação em abóbora do divino Cláudio"). Nessa obra, Sêneca critica o autoritarismo do imperador e narra como ele é recusado pelos deuses. Seu irmão, Lúcio Júnio Gálio, também ridicularizou Cláudio, fazendo uma analogia com as pessoas executadas, que eram levadas ao Fórum Romano puxadas por ganchos: ele disse que Cláudio havia sido elevado aos céus puxado por um gancho.
Quando Nero, aos dezessete anos, tornou-se imperador, Sêneca continuou a seu lado, porém não mais como pedagogo e sim como seu principal conselheiro (ajudado por Afrânio Burro, prefeito do Pretório). Sêneca procurou orientar para uma política justa e humanitária. Se, durante os primeiros sete anos, o governo de Nero lembra o de Augusto, o mérito exclusivo é desses dois homens que, na realidade, governaram ao lado do jovem príncipe. A índole de Nero foi mitigada, corrigida, freada. Mais tarde, porém, a malvadez de Nero teve o predomínio. Sêneca, durante algum tempo, exerceu influência benéfica sobre o jovem, mas, aos poucos, foi forçado a adotar atitudes de complacência. Chegou mesmo a redigir uma carta ao senado na qual se alega que tentou justificar a execução de Agripina em 59. Sêneca sabia que a maior culpa por sua morte havia sido da própria Agripina, que pretendia imperar e que se tornara hostil por ambição, capricho e corrupção; sua raiva crescente só fez aumentar a vingança matricida de Nero, que não deu mais ouvidos às palavras severas de seus dois conselheiros. Sêneca foi, então, muito criticado pela fraca oposição à tirania e à acumulação de riquezas de Nero, incompatíveis com as concepções estoicas. Conforme concluiu o emérito professor Giulio Davide Leoni, o destino foi, em parte, malvado para com Sêneca, fazendo chegar até nós as acusações e perdendo as defesas. Da leitura atenta de suas páginas, do modo como aceitou e caminhou para a morte, como Sócrates, surge um juízo sincero que as reticências dos historiadores e estudiosos, muitas vezes, acabam por ofuscar.




DE BREVITATE VITAE


De Brevitate Vitae (frequentemente traduzido do latim ao português como Sobre a brevidade da vida) é um ensaio moral composto por Sêneca (Sêneca, o Jovem), um filósofo estoico da Roma antiga, a seu amigo (e possivelmente cunhado) Paulino. Neste escrito o filósofo levanta vários princípios estoicos sobre a natureza do tempo, como por exemplo, que os seres humanos despendem muito de seu tempo perseguindo objetivos sem valor ou sentido. Segundo suas palavras, a natureza concede o tempo necessário a cada indivíduo para que ele/ela possa realizar o que realmente é importante na vida, portanto exigindo que cada ser humano organize bem o seu tempo. 
“A vida, se você souber usá-la, é longa”. O estudo da filosofia geralmente é o melhor uso do tempo, segundo Sêneca. 

“Sobre a brevidade da vida” é a obra mais conhecida do filósofo e um dos textos mais conhecidos de toda a Antiguidade latina. Tratam-se de cartas dirigidas a Paulino (cuja identidade é controversa), nas quais Sêneca discorre sobre a natureza finita da vida humana. São desenvolvidos temas como aprendizagem, amizade, livros e a morte, e, no decorrer da obra vão sendo discutidas maneiras de prolongar a vida e livrá-la das futilidades que a perturbam sem enriquecê-la… Escritas há quase dois mil anos, estas cartas compõem uma leitura inspiradora para todos aqueles que queiram pensar sobre a plenitude da vida.


Sobre a brevidade da vida



(Observação: os números seguidos de traço e dois pontos correspondem a um capítulo, e os números entre parênteses, a versículos)



1 – 1: A maior parte dos mortais, Paulino, queixa-se da malevolência da Natureza, porque estamos destinados a um momento da eternidade, e, segundo eles, o espaço de tempo que nos foi dado corre tão veloz e rápido, de forma que, à exceção de muito poucos, a vida abandonaria a todos em meio aos preparativos mesmos para a vida. E não é somente a multidão e a turba insensata que se lamenta deste mal considerado universal: a mesma impressão provocou queixas também de homens ilustres. Daí o protesto do maior dos médicos: (2) “A vida é breve, longa, a arte.” Daí o litígio (de nenhuma forma apropriado a um homem sábio) que Aristóteles teve com a Natureza: “aos animais, ela concedeu tanto tempo de vida, que eles sobrevivem por cinco ou dez gerações; ao homem, nascido para tantos e tão grandes feitos, está estabelecido um limite muito (3) mais próximo.” Não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada, para a realização das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que ela já passou (4) por nós sem que tivéssemos percebido. O fato é o seguinte: não recebemos uma vida breve, mas a fazemos, nem somos dela carentes, mas esbanjadores. Tal como abundantes e régios recursos, quando caem nas mãos de um mau senhor, dissipam-se num momento, enquanto que, por pequenos que sejam, se são confiados a um bom guarda, crescem pelo uso, assim também nossa vida se estende por muito tempo, para aquele que sabe dela bem dispor.

2 – 1: Por que nos queixamos da Natureza? Ela mostrou-se benevolente: a vida, se souberes utilizá-la, é longa. Mas uma avareza insaciável apossa-se de, um de outro, uma laboriosa dedicação a atividades inúteis, um embriaga-se de vinho, outro entorpece-se na inatividade; a este, uma ambição sempre dependente das opiniões alheias o esgota, um incontido desejo de comerciar leva aquele a percorrer todas as terras e todos os mares, na esperança de lucro; a paixão pelos assuntos militares atormenta alguns, sempre preocupados com perigos alheios ou inquietos com seus próprios; há os que, por uma servidão voluntária, se desgastam numa ingrata solicitude a seus superiores; (2) a busca da beleza de um outro ou o cuidado com sua própria ocupa a muitos; a maioria, que não persegue nenhum objetivo fixo, é atirada a novos desígnios por uma vaga e inconstante leviandade, desgostando-se com isso; alguns não definiram para onde dirigir sua vida, e o destino surpreende-os esgotados e bocejantes, de tal forma que não duvido ser verdadeiro o que disse, à maneira de oráculo, o maior dos poetas: “Pequena é a parte da vida que (3) vivemos.” Pois todo o restante não é vida, mas tempo. Os vícios atacam-nos, e rodeiam-nos de todos os lados e não permitem que nos reergamos, nem que os olhos se voltem para discernir a verdade, mantendo-os submersos, pregados às paixões. Nunca é permitido às suas vítimas voltar a si: se por acaso acontecer de encontrarem alguma trégua, ainda assim, tal como no fundo do mar, no qual, mesmo após a tempestade, ainda há agitação, eles ainda assim são o joguete das paixões, e nenhum repouso (4) lhes é concedido. Pensas que falo daqueles cujos vícios são declarados? Vê aqueles cuja fortuna faz acorrer a multidão: são sufocados pelos seus bens. A quantos as riquezas não são um peso! Quantos não verteram seu sangue por causa de sua eloqüência e da presteza diária com que exibiam seus talentos! Quantos não estão pálidos por causa de seus contínuos prazeres! A quantos a vasta multidão de clientes não dá nenhuma liberdade! Passa os olhos por todos, desde os mais pequenos até os mais poderosos: este advoga, aquele assiste, um é acusado, outro defende, e um outro ainda julga – ninguém reivindica nada para si, todos consomem mutuamente suas vidas. Pergunta por aqueles cujos nomes se aprendem de cor e verás que eles são identificados pelas características seguintes: este é servidor daquele, que o é de um outro – ninguém pertence a si próprio. (5) E, portanto, é o cúmulo da insensatez, a indignação de alguns: queixam-se do desdém de seus superiores, porque estes não tiveram tempo de ir ter com eles quando o desejavam. Quem ousará queixar-se da soberba de um outro, quando ele mesmo não tem um momento livre para si próprio? E aquele, contudo, apesar de seu aspecto insolente, olhou-te uma vez com consideração, sem saber quem eras, prestou atenção às tuas palavras e mesmo recebeu-te junto de si; tu não te dignaste a considerar nem a ti mesmo. Portanto não há razão para pedires contas de teus favores a quem quer que seja, uma vez que, quando os fizeste, não desejavas estar com um outro, mas não podias estar contigo.


3 – 1: Todos os espíritos que alguma vez brilharam consentirão neste único ponto: jamais se cansarão de se espantar com a cegueira das mentes humanas. Não se suporta que as propriedades sejam invadidas por ninguém, e, se houver uma pequena discórdia quanto à medida de seus limites, os homens recorrem a pedras e armas; no entanto, permitem que outros se intrometam em suas vidas, a ponto de eles próprios induzirem seus futuros possessores; não se encontra ninguém que queira dividir seu dinheiro, mas a vida, entre quantos cada um a distribui! São avaros em preservar seu patrimônio, enquanto, quando se trata de desperdiçar o tempo, são muito pródigos com relação à única (2) coisa em que a avareza é justificada. Por isso, agrada-me interrogar um qualquer, dentre a multidão dos mais velhos: “Vemos que chegaste ao fim da vida, contas já cem ou mais anos. Vamos! Faz o cômputo de tua existência. Calcula quanto deste tempo credor, amante, superior ou cliente, te subtraiu e quanto ainda as querelas conjugais, as reprimendas aos escravos, as atarefadas perambulações pela cidade; acrescenta as doenças que nós próprios nos causamos e também todo o tempo perdido: verás que tens menos anos de vida (3) do que contas. Faz um esforço de memória: quando tiveste uma resolução seguida? Quão poucas vezes um dia qualquer decorreu como planejaras! Quando empregaste teu tempo contigo mesmo? Quando mantiveste a aparência imperturbável, o ânimo intrépido? Quantas obras fizeste para ti próprio? Quantos não terão esbanjado tua vida, sem que percebesses o que estavas perdendo; o quanto de tua vida não subtraíram sofrimentos desnecessários, tolos contentamentos, ávidas paixões, inúteis conversações, e quão pouco não te restou do que era teu! Compreendes que morres (4) prematuramente.” Qual é pois o motivo? Vivestes como se fósseis viver para sempre, nunca vos ocorreu que sois frágeis, não notais quanto tempo já passou; vós o perdeis, como se ele fosse farto e abundante, ao passo que aquele mesmo dia que é dado ao serviço de outro homem ou outra coisa seja o último. Como mortais, vos aterrorizais de tudo, mas desejais tudo como se fôsseis (5) imortais. Ouvirás muitos dizerem: “Aos cinqüenta anos me refugiarei no ócio, aos sessenta estarei livre de meus encargos.” E que fiador tens de uma vida tão longa? E quem garantirá que tudo irá conforme planejas? Não te envergonhas de reservar para ti apenas as sobras da vida e destinar à meditação somente a idade que já não serve mais para nada? Quão tarde começas a viver, quando já é hora de deixar de fazê-lo. Que negligência tão louca a dos mortais, de adiar para o qüinquagésimo ou sexagésimo ano os prudentes juízos, e a partir deste ponto, ao qual poucos chegaram, querer começar a viver!

4 – 1: Verás os homens mais poderosos, e elevados aos mais altos postos, deixar escapar palavras nas quais desejam e louvam o ócio e o preferem a todos os seus bens. Por um momento desejam abdicar daquela sua proeminência, se for possível fazê-lo em segurança, pois ainda que nada venha do exterior assaltá-la ou abalá-la, (2) por si só a fortuna se desfaz. O divino Augusto, a quem os deuses, mais do que a qualquer outro mortal, favoreceram, nunca deixou de almejar repouso para si próprio e desejar folga dos assuntos públicos; todas as suas falas voltavam sempre ao mesmo ponto: a esperança de ócio. Isto distraia suas penas com o seguinte consolo, fingido, contudo doce: um dia haveria (3) de viver para si mesmo. Em certa carta endereçada ao Senado, como prometesse que seu repouso não haveria de ser desprovido de dignidade e seria condizente com sua glória passada, encontrei essas palavras: “É porém mais ilusório que essas coisas se realizem do que podem ser prometidas. Contudo o desejo daquele tempo, que tanto ambiciono, me anima de tal forma, que antecipo algo do desejado pela doçura das palavras (4) pronunciadas, ainda que tarde seu deleite.” O ócio era uma coisa tão almejada, que, por não poder dele usufruir, antecipava-o em pensamento. Ele, que via todas as coisas dependerem unicamente de si, que decidia a sorte dos homens e das nações, com muita satisfação pensava no dia em que se despojaria de sua grandeza. (5) Estava ciente de quanto suor exigiam aqueles bens que brilhavam por todas as terras, de quantas inquietações reprimidas eles ocultavam: forçado primeiramente a combater os cidadãos, depois os amigos, e finalmente os mais próximos de si, em mar e em terra fez correr sangue. Tendo levado a guerra à Macedônia, Sicília, Egito, Ásia e a quase todas as costas, dirigiu os exércitos já cansados de oprimir romanos às guerras externas. Enquanto pacifica os Alpes e subjuga inimigos infiltrados em meio à paz do Império e estende as fronteiras para além do Reno, do Eufrates e do Danúbio, na própria Roma contra ele se voltavam os punhais de Murena, Cepião, Lépido, Egnácio e de tantos outros. (6) Ainda não havia escapado das armadilhas destes, e sua filha e muitos jovens nobres entregavam-se ao adultério, como se isso fosse um sacramento, atormentando dessa forma sua velhice; e ainda havia uma segunda e temível união de uma certa mulher a um Antônio. Ele arrancava esses males com suas próprias mãos, e outros, latentes, irrompiam; tal como num corpo ferido e sangrando, uma outra parte qualquer sempre se rompia. Por isso desejava o ócio; todos os seus labores residiam nessa esperança e pensamento: tal era o desejo daquele que podia satisfazer todos os desejos.

5 – 1: Marco Cícero, atirado entre homens como Catilina, Clódio, Pompeu e Crasso, uns, manifestos inimigos, outros, dúbios amigos, enquanto oscilava com a República e procurava sustentá-la no seu naufrágio, até finalmente afundar com ela, sempre inquieto na prosperidade e impaciente na adversidade, quantas vezes não amaldiçoou seu próprio consulado, que era louvado (2) não sem motivo, mas sem moderação. Que coisas lamentáveis ele diz numa carta a Ático, na época em que Pompeu, o Pai, já havia sido vencido, e seu filho restaurava na Espanha as armas despedaçadas! “Perguntas-me o que faço aqui?” – diz ele. “Semi-livre, quedo-me em minha vila de Túsculo.” Ainda acrescenta muitas outras palavras, nas quais lamenta a vida passada, queixa-se do presente e desespera-se do futuro. Cícero se diz semi-livre mas, por Júpiter!, nunca o sábio recorrerá a um termo tão baixo, nunca será semi-livre, mas será um homem de íntegra e sólida liberdade, desapegado, senhor de si e bem acima dos demais. Pois quem pode estar acima daquele que está acima da Fortuna?

6 – 1: Diz-se que Lívio Druso, homem violento e arrebatador, após ter dado curso a novas leis e às más medidas dos Gracos, com o apoio de uma vasta multidão de toda a Itália, não vendo uma saída para sua política, que já não mais podia levar adiante, nem, uma vez precipitada, abandonar, amaldiçoou sua vida agitada desde o princípio e declarou nunca ter tido férias, nem mesmo quando menino. Com efeito, adolescente ainda, trajando a toga pretexta, ousou fazer recomendações sobre os réus aos Juízes e fazer prevalecer tão eficazmente sua opinião no fórum, que é tido como certo que algumas causas foram por ele arrebatadas. (2) Em que não haveria de dar uma ambição tão prematura? Poder-se-ia imaginar que uma audácia tão precoce haveria de resultar em fonte de grande prejuízo público e particular. E, portanto, era tarde para se queixar de nunca ter tido férias, ele que, desde criança, já era um perturbador e um elemento nocivo ao fórum. Discute-se se ele teria se suicidado, pois sucumbiu de um ferimento recebido na virilha; há quem duvide se sua morte foi voluntária, mas ninguém, de (3) que foi oportuna. Seria supérfluo mencionar os que, embora pareçam aos outros os mais felizes dos homens, declaram eles próprios que na verdade odeiam todas as ações de suas vidas, mas com essas declarações não mudaram nem a si próprios nem aos outros, pois mal pronunciavam essas palavras e as paixões faziam-nos (4) recair em seus hábitos. Mas, por Júpiter!, uma vida como a vossa, mesmo que dure mais de mil anos, será sempre determinada pelos mais estreitos limites: estes vícios podem devorar séculos e séculos. O espaço de tempo que temos, a razão pode na verdade dilatá-lo; e, embora a Natureza faça-o correr, necessariamente ele vos escapará, pois que não vos apossais dele, nem o retendes ou fazeis demorar a mais fugidia de todas as coisas, mas deixais que se perca como se fosse, uma coisa supérflua e substituível.

7 – 1: Conto entre os piores os que nunca estão disponíveis para nada, senão para o vinho e os prazeres sensuais, pois não há ocupação mais vergonhosa. Outros, embora se prendam à imagem vazia da glória, contudo erram honradamente; podes me enumerar os avarentos, os turbulentos, ou os que se entregam a ódios e guerras injustas: todos estes pecam de uma maneira mais viril. Mas os que se entregam à gula e aos prazeres sensuais ostentam uma degradação (2) desonrosa. Examina todo o tempo deles: verifica quanto gastam em cálculos avaros, quanto em preparar emboscadas, quanto temendo-as, quanto bajulando, quanto sendo bajulados; e quanto tempo ocupam em compromissos judiciários, seus ou alheios, ou com banquetes – que já se tornaram mesmo uma obrigação: verás que nem seus bens, nem seus males, os deixam respirar. (3) Finalmente, todos concordam que um homem ocupado não pode fazer nada bem: não pode se dedicar à eloqüência, nem aos estudos liberais, uma vez que seu espírito, ocupado em coisas diversas, não se aprofunda em nada, mas, pelo contrário, tudo rejeita, pensando que tudo lhe é imposto. Nada é menos próprio do homem ocupado do que viver, pois não há outra coisa que seja mais difícil de aprender. Professores das outras artes, há vários e por toda parte, dentre algumas dessas, vemos crianças terem atingido tanta maestria, que chegam até a ensiná-las. Deve-se aprender a viver por toda a vida, e, por mais que tu talvez te espantes, a vida (4) toda é um aprender a morrer. Muitos dos maiores homens, tendo afastado todos os obstáculos e renunciado às riquezas, a seus negócios e aos prazeres, empregaram até o último de seus dias para aprender a viver, contudo muitos deles deixaram a vida tendo confessado ainda não sabê-lo – e muito menos ainda (5) o sabem os que mencionei acima. Creia-me, é próprio de um grande homem e de quem se eleva acima dos erros humanos, não consentir que lhe tomem um instante sequer da vida, e assim toda sua vida é muito longa, uma vez que se dedicou todo a si próprio, não importa quanto ela tenha durado. Nem um instante dela permaneceu descuidado ou ocioso, ou esteve subordinado a um outro e, portanto, ele, seu guarda parcimonioso, não encontrará ninguém que julgue ter vivido dignamente a ponto de querer trocar sua vida com a dele. Portanto, a este seu tempo foi suficiente, mas àqueles que tiveram muito de sua vida subtraído (6) pelo povo, ela necessariamente faltou. E nem por isso há motivo para pensares que eles às vezes não compreendem seu erro. Certamente ouvirás muitos dos que são esmagados por sua grande prosperidade, vez por outra, exclamar de entre a multidão de clientes, ou de seus processos jurídicos, ou de outras honoríficas misérias: “Não me deixam viver!” E haveriam de (7) deixar? Todos os que te reclamam para si te afastam de tuas ocupações. Quantos dias te tomou aquele réu? E aquele candidato? E a velha, já cansada de enterrar herdeiros? E aquele que finge ser doente para excitar a cobiça dos caçadores de testamentos? E aquele amigo poderoso, que te mantém, não em sua amizade, mas em seu cortejo? Faz o cômputo dos dias de tua vida: verás que restaram muito poucos dias para ti mesmo. (8) Tendo aquele obtido os cargos com que tanto sonhava, deseja abandoná-los e repete incessantemente: “Quando este ano passará?” Outro proporciona espetáculos públicos, que tanto desejou que lhe fossem cabidos por sorte, e agora diz: “quando me livrarei deles?” Disputa-se tanto para ouvir aquele advogado, que ele enche de uma grande multidão todo o fórum, até para além de onde pode ser ouvido. “Quando” – diz ele – “me livrarei disto?” Cada um faz precipitar sua vida e (9) padece da ânsia do futuro e de tédio do presente. Mas o que emprega todo o tempo consigo próprio, que ordena cada dia como se fosse uma vida, nem deseja o amanhã, nem o teme. Pois que novo prazer há, que qualquer hora lhe possa imediatamente trazer? Tudo lhe é conhecido, tudo foi desfrutado até a saciedade. Do resto, que a Fortuna disponha como queira: a vida já lhe foi assegurada. Nada se lhe pode adicionar ou arrebatar, e, mesmo que algo se acrescente a ela, seria como se alimentassem alguém já farto de alimentos quaisquer: estará recebendo algo que nem mais (10) deseja. Portanto não há por que pensar que alguém tenha vivido muito, por causa de suas rugas ou cabelos brancos: ele não viveu por muito tempo, simplesmente foi por muito tempo. Pensarias ter navegado muito, aquele que, tendo se afastado do porto, foi apanhado por violenta tempestade, errou para cá e para lá e ficou a dar voltas, conforme a mudança dos ventos e o capricho dos furacões, sem contudo sair do lugar? Ele não navegou muito, mas foi muito acossado.

8 – 1: Costumo estranhar quando vejo alguns pedindo tempo, e aqueles a quem se pede mostrarem-se muito complacentes; ambos consideram aquilo pelo que se pede tempo, nenhum, o tempo mesmo: parece que nada se pede e que nada é dado. Brinca-se com a coisa mais preciosa de todas; contudo ela lhes escapa sem que percebam, pois é um incorporal e algo que não salta aos olhos, por isso é considerado muito desprezível, e em razão disto não lhes atribuem valor algum. (2) Os homens recebem pensões e aluguéis com muito prazer e concentram neles suas preocupações, esforços e cuidados, mas ninguém dá valor ao tempo; usa-se dele a rédeas soltas, como se nada custasse. Porém, quando doentes, se estão próximos do perigo de morte, prostram-se aos joelhos dos médicos; ou, se temem a pena capital, estão prontos a gastar todos os seus bens para viver. Tamanha é a discórdia de seus (3) sentimentos! Se fosse possível apresentar a cada um a conta dos anos futuros, da mesma forma que podemos fazer com os passados, como tremeriam aqueles que vissem restar-lhes poucos anos e como os poupariam! Pois, se é fácil administrar o que, embora curto, é certo, deve-se conservar com muito cuidado o que não se pode saber (4) quando há de acabar. Contudo não há por que pensar que eles ignoram que coisa preciosa é o tempo: costumam dizer aos que amam muitíssimo que estão dispostos a lhes dar parte de seus dias. E realmente dão, sem se aperceberem disto, mas dão de forma a subtraírem vários anos a si, sem aumentar os daqueles. Mas ignoram o fato mesmo de estarem perdendo seus anos, por isso lhes é tolerável a perda de um bem que não é (5) notado. Ninguém devolverá teus anos, ninguém te fará voltar a ti mesmo. Uma vez principiada, a vida segue seu curso e não reverterá nem o interromperá, não se elevará, não te avisará de sua velocidade. Transcorrerá silenciosamente, não se prolongará por ordem de um rei, nem pelo apoio do povo. Correrá tal como foi impulsionada no primeiro dia, nunca desviará seu curso, nem o retardará. Que sucederá? Tu estás ocupado, e a vida se apressa; por sua vez virá a morte, à qual deverás te entregar, queiras ou não.

9 – 1: Pode haver algo mais estúpido que o modo de ver de alguns – falo daqueles que deixam de lado a prudência. Ocupam-se para poder viver melhor: armazenam a vida, gastando-a! Fazem seus planos a longo prazo; no entanto protelar é do maior prejuízo para a vida: arrebata-nos cada dia que se oferece a nós, rouba-nos o presente ao prometer o futuro. O maior impedimento para viver é a expectativa, a qual tende para o amanhã e faz perder o momento presente. Do que está nas mãos da Fortuna, dispões; o que está nas tuas, despedes. Para onde ficas a olhar? Para que tendes? Tudo que está por vir se assenta na incerteza: desde (2) já, vive! Proclama o maior dos poetas e, como inspirado por divinos lábios, canta este canto de salvação: “Os melhores dias da vida dos tristes mortais São os primeiros a fugir.” “Por que hesitar?” – diz ele – “por que ficar sem nada fazer? Se não ocupares o dia, ele fugirá” E, contudo, se o tiveres ocupado, ainda fugirá; portanto deve-se lutar contra a celeridade do tempo usando de velocidade, tal como se deve beber depressa de uma (3) corrente rápida e que não fluirá para sempre. O poeta emprega magnificamente as palavras para censurar a infinita contemporização, pois diz “o melhor dia”, e não “a melhor idade”. Como é que tu, seguro e demorado em meio a uma tão grande fuga de tempo, dispões para ti os meses e os anos, numa longa série, de acordo com tua avidez? O poeta fala do dia, e deste (4) mesmo dia que está fugindo. Acaso se duvida que os melhores dias fujam primeiro aos míseros mortais, isto é, aos ocupados? A velhice oprime tanto seus espíritos pueris que chegam a ela surpresos e desarmados, pois nada em sua vida foi previsto: bruscamente e desprevenidos nela caíram; não a sentiam chegar (5) diariamente. Tal como uma conversa ou uma leitura ou alguma reflexão mais séria distrai os viajantes, que se vêem chegados ao destino sem notar que dele se aproximavam, assim esta contínua e tão rápida caminhada da vida, que dormindo ou acordados fazemos no mesmo passo, aos ocupados não aparece senão no fim.

10 – 1: Quisesse eu dividir minha tese em tópicos e argumentos, ocorrer-me-iam muitos exemplos, pelos quais provaria que é muito breve a vida dos ocupados. Costumava dizer Fabiano, que não era um desses filósofos acadêmicos, mas um dos verdadeiros e antigos: “contra as paixões deve-se lutar com arrojo, não com sutilezas; e deve-se romper a linha de batalha com um grande assalto, não com tímidas tentativas.” Não aprovava sofismas: “pois devemos vencer as paixões, não espicaçá-las”. Contudo, para demonstrar às suas vítimas seu desvario, devemos instruí-las, não lamentá-las. (2) A vida divide-se em três períodos: o que foi, o que é, e o que há de ser. Destes, o que vivemos é breve; o que havemos de viver, duvidoso; o que já vivemos, certo. Pois, sobre este último, a Fortuna perdeu os direitos: (3) é o que não se submete ao arbítrio de ninguém. Eis o que escapa aos ocupados, pois eles não têm tempo para reconsiderar o passado e, mesmo se tivessem, ser-lhes-ia desagradável a recordação de uma coisa da qual se arrependem. Portanto é a contragosto que voltam seus pensamentos ao tempo mal empregado e não ousam reviver aquelas horas, cujos vícios, embora estivessem dissimulados pelo atrativo de um prazer momentâneo, (4) desvendam-se com a recordação. Ninguém se voltará de bom grado ao passado, exceto aquele cujas ações estão todas submetidas à censura de sua consciência, que nunca se engana. Aquele que ambiciosamente muitas coisas cobiçou, orgulhosamente desprezou, insolentemente venceu, traiçoeiramente enganou, desonestamente roubou e prodigamente dissipou seus bens, necessariamente terá que temer suas próprias recordações. Ora, de nossa vida, esta é a parte inviolável e já consagrada, que está acima de todas as vicissitudes humanas, que foi subtraída ao império da Fortuna e que não pode ser afetada pela pobreza, nem pelo medo, nem pelo assédio das doenças. Não se pode perturbá-la ou roubá-la de seu possessor, pois sua posse é perpétua e livre de receios. Os dias apresentam-se a nós um a um e momento por momento, entretanto todos os dias do passado se apresentarão a nós quando ordenarmos, e consentirão em ser apropriados e examinados à vontade – coisa que os ocupados não têm (5) tempo de fazer. É próprio de uma mente segura de si e sossegada poder percorrer todas as épocas de sua vida; mas o espírito dos ocupados, tal como se estivesse subjugado, não pode se voltar sobre si mesmo e se examinar. Portanto sua vida se precipita num abismo; e, tal como não é de nenhum proveito procurar encher uma ânfora, por mais que nela se coloque líquido, se não há fundo que o receba ou sustenha, assim também não importa quanto tempo tens à disposição: se não tens como retê-lo, ele vazará como de almas rachadas (6) e furadas. O tempo presente é brevíssimo, tanto que a alguns parece não existir, pois está sempre em movimento; flui e precipita-se; deixa de ser antes de vir a ser; é tão incapaz de deter-se, quanto o mundo ou as estrelas, cujo infatigável movimento não lhes permite permanecer no mesmo lugar. Pertence, pois, aos ocupados, apenas o tempo presente, que é tão breve que não pode ser abarcado; e este mesmo escapa-lhes, ocupados que estão em muitas coisas.

11 – 1: Enfim, queres saber quão pouco vivem os ocupados? Vê como desejam viver longamente. Velhos decrépitos mendigam em suas orações um acréscimo de uns poucos anos; procuram parecer menos idosos e lisonjeiam-se com mentiras e encontram tanto prazer em enganar a si próprios, que é como se enganassem junto o destino. Mas, quando uma enfermidade qualquer adverte-os de que são mortais, morrem tomados de pavor, não como se deixassem a vida, mas como se ela lhes fosse arrancada. Ficam gritando que foram tolos em não viver e que, se por acaso escaparem da doença, haverão de viver no ócio; então, tomam consciência de quão inútil foi adquirir o que não desfrutaram, e de como todos os seus esforços resultaram em (2) vão. Mas para aquele cuja vida esteve livre de preocupações, por que não haveria ela de ser longa? Dela nada foi transferido a um outro, nada foi atirado a um e outro lado, nada foi dado à Fortuna, nada desperdiçado por negligência, nada foi esbanjado com prodigalidade, nada ficou sem ser empregado: toda ela, por assim dizer, teve proveito. E, deste modo, por mais curta que seja, ela é mais que suficiente; e portanto, quando lhe vier o último dia, o sábio não hesitará em caminhar para a morte com passo firme.

12 – 1: Talvez tu me perguntes a quem eu chamo de “ocupados”. Não há por que pensar que entendo serem ocupados apenas aqueles contra os quais se mandam os cães para expulsá-los da basílica, ou os que vemos sobressair, seja orgulhosamente em meio à multidão de seus clientes, seja desprezivelmente da de outro, ou aqueles cujos compromissos obrigam a abandonar seus lares para ir bater à porta do outro ou aqueles a quem a lança do pretor põe ocupados devido a um (2) lucro infame e que um dia haverá de apodrecer. O ócio de alguns é ocupado: quer em sua vila ou em seu leito, quer em meio à solidão, mesmo quando estão afastados de todos, eles próprios prejudicam a si mesmos; não devemos chamar sua vida de ociosa, mas de ocupação indolente. Por acaso chamas de ocioso o que coleciona, com escrupuloso cuidado, os bronzes coríntios, preciosos devido à mania de uns poucos, e consome a maior parte de seus dias em meio a ferrugentos pedaços de metal? E o que se senta num ginásio (que vergonha! os vícios dos quais somos vítimas nem mesmo são romanos), para apreciar as pelejas dos rapazes que se estapeiam? E o que classifica seus rebanhos de cavalos segundo a cor e a idade, ou os que (3) patrocinam os mais novos campeões de atletismo? Quê? Tu chamas ociosos os que passam muitas horas no cabeleireiro, aparando o que cresceu na noite anterior, discutindo a respeito de cada fio de cabelo, colocando em ordem as madeixas desarranjadas, ou ajeitando sobre a testa as que estão falhas aqui e ali? Como ficam irados, se o barbeiro foi um pouco negligente, crendo que estava a aparar os cabelos de um verdadeiro homem! Como se encolerizam, se algo de sua cabeleira foi cortado, se algo está fora de ordem, se tudo não cai em seus devidos cachos! Qual destes não preferiria ver a desordem na República, a ver a de seus cabelos? Quem não se preocupa mais com a elegância de sua cabeça do que com sua saúde? Qual não prefere ser bem penteado a ser honesto? Tu chamas ociosos os que se (4) preocupam com pentes e espelhos? E quanto àqueles que se ocupam em compor, ouvir e aprender canções, e atormentam a voz, cuja reta entoação a Natureza fez muito simples e a melhor, com inflexões de desajeitadas modulações? Eles estão sempre a estalar os dedos, marcando alguma canção que têm na cabeça e, mesmo quando são chamados para questões sérias e freqüentemente tristes, ouvimos seu imperceptível cantarolar. (5) Eles não têm ócio, mas ocupações indolentes. Nem, por Hércules, considero seus festins como tempo livre, uma vez que vejo com quanta solicitude dispõem a prataria, quão diligentemente ajeitam as túnicas de seus jovens prediletos, quão ansiosos ficam por saber como o javali sai das mãos do cozinheiro, ou com que velocidade os escravos jovens, a um dado sinal, correm às suas obrigações, com quanta perícia as aves são cortadas em bocados não muito grandes, ou quão cuidadosamente os infelizes escravos limpam o vômito dos bêbados. É por estes meios que adquirem a fama de serem elegantes e faustosos, e seus males perseguem-nos até mesmo nos menores detalhes da vida, de modo que eles não (6) podem comer nem beber sem afetação. Eu não contaria entre os ociosos aqueles que se fazem transportar para cá e para lá em carruagens ou liteiras, e observam pontualmente a hora de seus passeios, como se não lhes fosse lícito perdê-los; nem os que se fazem lembrar por outro quando devem banhar-se, nadar ou comer: seus espíritos extraordinariamente débeis estão tão enfraquecidos pela lassidão, que eles nem mesmo podem decidir por si sós se têm fome! Já ouvi um desses delicados (se é que se pode chamar de delícias o fato de desaprender os hábitos da vida humana), ao ser retirado do banho e colocado numa cadeira, perguntar: “Ainda estou sentado?” Tu crês que este, que ignora até se está sentado, sabe se vive, se vê, se é ocioso? Não poderia dizer de pronto o que lamento mais: ele (7) realmente não saber ou fingir não sabê-lo. Esses esquecem-se realmente de muitas coisas, mas também fingem esquecer de muitas outras. Certos vícios deleitam-nos como se fossem provas de felicidade: parece-lhes próprio de um homem muito baixo e desprezível saber o que faz. E agora não vás crer que os mimos exageram quando ridicularizam a luxúria. Estes, por Hércules, ultrapassam em muito as invenções dos mimos, e neste nosso século, engenhoso apenas para tais coisas, os vícios progrediram tanto que já podemos acusar os mimos de negligência. É o cúmulo: haver alguém que está tão atolado na luxúria, que se fia na palavra de um (8) outro para saber se está ou não sentado! Portanto esse aí não é ocioso; dá-lhe outro nome: ele está doente, ou, melhor ainda, está morto. É ocioso o que é também consciente de seu lazer. Mas este semi-vivo, que precisa de alguém que lhe indique a postura do próprio corpo, como poderia ser senhor de um momento sequer de sua vida?

13 – 1: Seria alongar demais percorrer todos os exemplos daqueles que desperdiçaram suas vidas em jogos de xadrez, bola, ou queimando-se ao sol. Não gozam de ócio aqueles cujos prazeres trazem muitas ocupações. Pois ninguém duvidará que muito se fatigam sem nada obrar, os que se prendem a inúteis questões de (2) literatura – e eles já são multidão entre os romanos! Foi um vício dos gregos investigar quantos remadores teve Ulisses, se a Ilíada ou a Odisséia foi escrita primeiro e, além disso, se eram de um mesmo autor, e outros conhecimentos dessa espécie, que, se os reservas para ti mesmo, em nada deleitam o intelecto, se os publicas, não serás tido por mais douto, mas por mais (3) enfadonho. E eis que esta frívola paixão de aprender inutilidades apossou-se também dos romanos. Há alguns dias ouvi certa pessoa relatando qual foi o primeiro dos generais a fazer tais e tais coisas; que Duílio foi o primeiro a vencer numa batalha naval, que Cúrio Dentato foi o primeiro a conduzir elefantes no seu cortejo triunfal. Mas esses assuntos, ainda que não conduzam à verdadeira glória, versam sobre exemplos de feitos cívicos; tal ciência não acarreta benefício algum, embora nos prenda a atenção pela futilidade dos feitos. (4) Perdoemos também aos que pesquisam assuntos como este: quem foi o primeiro a persuadir os romanos a embarcar num navio. Foi Cláudio, e por este mesmo motivo cognominado “Caudex”, porque entre os antigos a reunião de várias tábuas chamava-se “caudex”; daí o nome de “codices” às tábuas da lei, e, ainda hoje, as naves que carregam provisões pelo Tibre são (5) chamadas, segundo a maneira antiga, de “codicariae”. Sem dúvida, isto pode ser de algum valor: que Valério Corvino foi o primeiro a subjugar Messina e, tendo tomado para si o nome da cidade conquistada, foi o primeiro da família dos Valérios a denominar-se Messana; e que, tendo sido trocadas as letras por uma gradual corruptela da linguagem popular, chamou-se (6) Messala. Porventura permitirás a alguém ocupar-se também disto: que Lúcio Sulla foi o primeiro a apresentar os leões soltos no Circo, enquanto que anteriormente eram apresentados acorrentados, e que foram enviados arqueiros pelo rei Boco para exterminá-los? Que seja! Façamos também essa concessão. Mas acaso há um mínimo de valor em saber que Pompeu foi o primeiro a proporcionar um combate no Circo com dezoito elefantes, tendo-se enviado criminosos para enfrentá- los, como se fosse uma batalha? O primeiro dos cidadãos e, segundo o que a fama nos legou, homem que sobressaiu entre os antigos líderes por sua bondade, julgou ser um novo tipo de espetáculo digno de memória matar homens de um modo novo. Combatem até a morte? – É pouco. Despedaçam-se? – É pouco. (7) Que sejam esmagados por uma enorme massa de animais! Seria suficiente que esses assuntos passassem ao esquecimento, para que posteriormente um prepotente qualquer não aprendesse e invejasse uma ação tão desumana. Quantas trevas uma grande fortuna causa às nossas mentes! Acreditou estar acima das leis da Natureza quando lançou aquele bando de miseráveis a feras nascidas sob outros céus, quando proporcionou um combate entre animais tão desiguais, quando fez verter tanto sangue diante dos olhos do povo romano – ele, que em breve seria forçado a verter mais ainda. Mas, logo em seguida, o mesmo Pompeu, traído pela deslealdade alexandrina, entregou-se ao último dos escravos para ser abatido; só então compreendeu a vã (8) ostentação de seu Cognome. Mas, para que retorne ao ponto de onde me desviei e para que mostre a inutilíssima diligência de alguns nestes mesmos assuntos: aquele mesmo erudito contava que Metelo, tendo vencido os cartagineses na Sicília, foi o único de todos os romanos a conduzir em seu triunfo cento e vinte elefantes diante do carro, e que Sulla foi o último dos romanos a aumentar o “pomerium”, coisa que, segundo os costumes antigos, só se fazia após a conquista de territórios italianos, e nunca provinciais. Há alguma utilidade maior em saber que o monte Aventino, como assegurava aquele, situa-se para além do “pomerium” por uma dessas duas razões: ou porque a plebe tenha-se afastado daí, ou porque, quando Remo tomava os auspícios, o vôo das aves não foi favorável – e ainda outros inumeráveis conhecimentos, que, ou estão abarrotados de mentiras, ou são desta natureza? (9) Pois mesmo que se admita que eles contam essas coisas todas de boa fé e que se responsabilizam pelo que foi escrito, contudo esses conhecimentos servirão para minorar os erros de alguém? Refrearão as paixões de alguém? Farão alguém mais generoso, mais corajoso, mais justo? Às vezes meu caro Fabiano dizia duvidar se era melhor não empreender estudo algum do que se envolver com os deste gênero.

14 – 1: Dentre todos os homens, somente são ociosos os que estão disponíveis para a sabedoria; eles são os únicos a viver, pois, não apenas administram bem sua vida, mas acrescentam-lhe toda a eternidade. Todos os anos que se passaram antes deles são somados aos seus. A menos que sejamos os maiores dos ingratos, aqueles fundadores das sublimes filosofias nasceram para nós, e eles nos preparam o caminho para a vida. Graças aos seus esforços, conduzem-nos das trevas à luz, aos mais belos conhecimentos. Não nos é vedado o acesso a nenhum século, somos admitidos a todos; e se desejamos, pela grandeza da alma, ultrapassar os estreitos limites da fraqueza humana, há um vasto espaço de tempo a percorrer. (2) Poderemos discutir com Sócrates, duvidar com Carnéades, encontrar a paz com Epicuro, vencer a natureza humana com a ajuda dos estóicos, ultrapassá-la com os cínicos. Já que a Natureza nos permite entrar em comunhão com toda a eternidade, por que não nos desviarmos dessa estreita e curta passagem do tempo e nos entregarmos com todo nosso espírito àquilo que é ilimitado, eterno e partilhado com os (3) melhores? Os que se desdobram em muitos compromissos sociais, que agitam a si mesmos e a outros, bem conscientes de suas tolices, após terem percorrido diariamente as soleiras de todos e não ter deixado de entrar em nenhuma porta aberta, após terem levado sua interesseira saudação à volta das mais remotas casas, quão pouco não terão eles visto numa cidade tão grande e dilacerada por várias paixões! (4) Quantos haverá cujo sono, dissolução ou grosseria não os afastará? Quantos, após os terem torturado com uma longa espera, não passarão por eles fingindo estarem apressados? Quantos não evitarão aparecer no átrio repleto de clientes, escapando por portas secretas, como se fosse menor descortesia enganar do que despedir! Quantos, ainda meio adormecidos e pesados devido à embriaguez da noite anterior, responderão, àqueles pobres coitados que interromperam seu sono para esperar o despertar de um outro, com o bocejo mais arrogante, mal levantando os (5) lábios! Podemos afirmar que se dedicam a verdadeiros deveres, somente aqueles que desejam estar cotidianamente na intimidade de Zenão, Pitágoras, Demócrito, Aristóteles, Teofrasto e os demais mestres de virtude. Nenhum deles deixará de estar à nossa disposição, nenhum despedirá o que o procurar, sem que o faça mais feliz e mais devotado a ele, nenhum permitirá a quem quer que seja partir de mãos vazias; e eles podem ser encontrados por qualquer homem, tanto durante o dia como à noite.

15 – 1: Nenhum destes forçará tua morte, todos te ensinarão a morrer, nenhum dissipará teus anos, mas te oferecerá os seus. Nunca a conversação com eles será perigosa, fatal a amizade ou onerosa a deferência. Conseguirás deles tudo o que quiseres: não será deles a culpa (2) se não tiveres exaurido tudo o que desejas. Que felicidade, que bela velhice não aguarda o que se dispôs a ser seu cliente! Ele terá com quem discutir sobre as menores, bem como sobre as maiores, questões, a quem consultar diariamente sobre si mesmo, de quem ouvir a verdade sem ofensa e ser louvado sem adulação, a cuja (3) semelhança se possa moldar. Costumamos dizer que não está em nosso poder escolher os pais que a sorte nos destinou, mas que nos foram dados ao acaso; contudo é nos permitido ter um nascimento segundo a nossa escolha. Existem famílias dos mais nobres espíritos: escolhe a qual delas queres pertencer, e receberás não apenas seu nome, mas também seus próprios bens, que não terás de vigiar miserável e mesquinhamente, pois, quanto mais forem partilhados pelos homens, maiores (4) se tornarão. Estes te darão o acesso à eternidade, te elevarão àquelas alturas de onde ninguém se precipita. Esta é a única maneira de prolongara existência mortal e, até mais, de convertê-la em imortalidade. As dignidades, os monumentos, tudo o que a ambição impôs por decretos, ou construiu com o suor, depressa há de cair em ruínas: não há nada que a longa passagem dos anos não destrua ou desordene. Mas ela não pode tocar nos conhecimentos que a sabedoria consagrou, nenhuma idade os destruirá ou diminuirá, a seguinte e as sucessivas sempre hão de aumentá-los ainda mais: pois a inveja tem olhos apenas para o que está próximo de si, e admiramos com menos malícia o que está (5) distante. Portanto a vida do filósofo estende-se por muito tempo, e ele não está confinado nos mesmos limites que os outros. É o único a não depender das leis do gênero humano: todos os séculos servem-no como a um deus. Algo distancia-se no passado? Ele recupera-o com a memória. Está no presente? Ele o desfruta. Há de vir no futuro? Ele o antecipa. A reunião de todos os momentos num só torna-lhe longa a vida.

16 – 1: É extremamente breve e agitada a vida dos que esquecem o passado, negligenciam o presente e receiam o futuro; quando chegam ao termo de suas existências, os pobres coitados compreendem tardiamente que (2) estiveram por longo tempo ocupados em nada fazer. E, pelo fato de fazerem freqüentes apelos à morte, não há por que pensar que fica provado que eles tenham usufruído duma longa existência. Sua cegueira os atormenta com emoções incertas e que os faz incidir nas próprias coisas que temem: desejam então muitas vezes a morte, (3) porque os aterroriza. Não há ainda razão para se pensar que isto também seja uma prova de uma vida longa: – o fato de muitas vezes os dias lhes parecerem longos, ou porque se queixam de as horas custarem a passar até que chegue o momento do jantar; pois, se porventura as ocupações os abandonam, sentem-se desertados e inquietam-se mesmo no lazer, nem sabem como dispor dele ou matá-lo. Portanto anseiam por uma ocupação qualquer, e todo intervalo de tempo entre duas ocupações lhes é um fardo. E – por Hércules – tal é o que acontece quando se fixa a data dos combates de gladiadores, ou quando se aguarda o dia de um outro gênero qualquer de espetáculo ou divertimento: (4) desejam saltar os dias intermediários! A espera de qualquer coisa por que anseiam lhes é penosa, mas aquele instante que lhes é grato corre breve e rápido e torna-se muito mais breve por sua própria culpa, pois passam de um prazer a outro e não podem permanecer fixos num só desejo. Seus dias não são longos, mas detestáveis, e, por outro lado, quão curtas não lhes parecem as noites que passam nos braços das prostitutas ou (5) entregues ao vinho! Daí também resulta o delírio dos poetas, que nutrem os descaminhos dos homens com ficções nas quais se mostra Júpiter, inebriado do desejo de coito, duplicando a duração da noite. Que outra coisa é, senão inflamar nossos vícios, quando os imputamos aos deuses e se concede a deferência da divindade a um exemplo de fraqueza? Podem estes não achar muito curtas as noites pelas quais pagam tão caro? Perdem o dia na espera da noite, a noite, de medo da aurora.

17 – 1: Seus próprios prazeres são desassossegados e agitados por vários terrores e, mesmo em meio à maior euforia, assalta-lhes o inquieto pensamento: “até quando, tudo isto?” Por causa desse sentimento, os reis lamentaram seu poderio, e a grandeza de sua fortuna não lhes era grata, mas aterrorizaram-se com o fim que um dia lhes adviria. O mais insolente dos reis da Pérsia, ao ver seus exércitos espalhados por vastos espaços de terra, de modo que nem podia abarcar seu número mas apenas a extensão, desfez-se em lágrimas porque, dizia, em cem anos nenhum dentre tão grande (2) número de jovens haveria de estar vivo. Mas ele próprio, que chorava, estava prestes a apressá-los para aquele destino, fazendo perecer uns no mar, outros em terra, uns no combate, outros na retirada, e dentro de pouco tempo haveria de exterminar aqueles por quem temia (3) o centésimo ano. Qual o motivo de também suas alegrias serem temerosas? É que não brotam de causas sólidas; pelo contrário, o próprio vazio de onde nascem perturba-as. E como pensas serem aqueles momentos (miseráveis, segundo sua própria confissão), já que os próprios motivos pelos quais são exaltados e se (4) colocam acima dos homens são muito impuros? Todos os maiores bens estão cheios de ansiedade, e as maiores fortunas são as menos dignas de crédito; para alimentar a felicidade, faz-se necessária uma outra felicidade, e em paga a uma promessa realizada, outras promessas devem ser feitas. Pois tudo o que nos sucede por obra do acaso é instável, e quanto mais alto nos elevamos, tanto mais estamos sujeitos a cair. É claro que o que está condenado a cair não agrada a ninguém. Portanto é necessariamente a mais miserável e não apenas a mais breve, a vida dos que obtêm com grande esforço algo que conservam com um esforço ainda (5) maior. Em meio a grandes labutas, conseguem o que desejam e ansiosos conservam o que conseguiram; entretanto não têm consciência de que o tempo nunca mais há de voltar. Novas ocupações seguem-se às antigas; a esperança suscita esperança; a ambição, ambição. Não procuram um fim às misérias, mas mudam seu assunto. Nossos cargos nos atormentam? Os dos outros nos tomarão mais tempo. Cessamos de fatigar-nos como candidatos? Começamos novamente como partidários. Renunciamos ao estorvo de acusar? Apresenta-se-nos o de julgar. Deixa de ser juiz? É feito pretor. Envelheceu como administrador de (6) propriedades alheias? Ocupa-se agora com sua riqueza. As vestes guerreiras deram folga a Mário? O consulado não lhe dá sossego. Cincinato apressa-se a escapar do cargo ditatorial? Será novamente chamado do arado. Cipião ainda muito jovem para uma tarefa de tal envergadura, combaterá os cartagineses; vencedor de Aníbal, vencedor de Antíoco, orgulho de seu consulado e garantia do de seu irmão, seria colocado ao lado de Júpiter, não fosse sua intervenção pessoal. As guerras civis perseguirão este salvador da pátria e, tendo sido na juventude honrado como um deus, já velho deleitar-se-á apenas com o desejo de um altivo exílio. Nunca faltarão motivos de inquietação, quer na prosperidade, quer na miséria: a vida será dilacerada entre as ocupações; o ócio sempre desejado, nunca obtido.

18 – 1: Portanto, meu caro Paulino, aparta-te da multidão e, já bastante acossado pela duração de tua existência, não te afastes de um porto mais tranqüilo. Pensa quantas vagas já te acometeram, quantas tempestades, de uma parte, já suportaste na vida particular, quantas, de outra, suscitaste contra ti na vida pública. Teu valor já foi suficientemente testado, em fatigantes e atormentadas provas, o teu valor: tenta ver o que pode realizar no ócio. A maior parte de tua vida, e certamente a melhor, foi dada à República, toma (2) também para ti um pouco de teu tempo. Não te convoco a um retiro indolente e inativo, nem a afogar todo o teu vigoroso caráter no sono ou nos prazeres caros à multidão: isso não é estar em sossego. Encontrarás tarefas maiores que todas as que cumpriste devotadamente até aqui, as quais executarás no retiro e livre de (3) preocupações. Com efeito, tu administras as contas do mundo tão desinteressadamente como as alheias, tão diligentemente como as tuas, tão escrupulosamente como as do Estado. Conquistas a estima num cargo onde é difícil evitar o rancor, contudo, acredite-me, é mais proveitoso fazer a conta de teus anos do que as (4) do trigo do Estado. Este teu vigor de ânimo, capaz das maiores coisas, desvia-o de um cargo, sem dúvida honroso, mas pouco adequado para tornar uma vida feliz; e lembra-te de que não foste educado desde os mais tenros anos nos estudos liberais para que alqueires de trigo te fossem confiados: esperaste algo maior e mais alto. Não faltarão homens de sobriedade comprovada e atividade laboriosa. Jumentos laboriosos são mais aptos a carregar fardos do que cavalos de raça, e quem jamais oprimiu a excelente ligeireza deles com (5) pesadas cargas? Além disso, reflete quantas preocupações não tens ao assumir tanta responsabilidade. Tu lidas com os ventres dos homens! O povo esfaimado não dá ouvidos à razão, não se aplaca pela moderação, nem se dobra a nenhum argumento. Muito recentemente, naqueles poucos dias após a morte de César, diz-se que ele se indignou muitíssimo (se há ainda algum sentimento nos infernos), porque sabia que o povo romano lhe sobrevivia e ainda lhes restavam provisões para sete ou oito dias! E, enquanto ele construía pontes de navios e divertia-se com as forças do Império, estava às nossas portas o pior dos males, até mesmo para os sitiados: a falta de alimentos. Seu infeliz desejo de imitar um rei arrogante, estrangeiro e louco, quase custou à cidade a miséria e a fome, e o (6) que se segue à fome, a ruína de tudo. E então qual não era o estado de espírito daqueles a quem eram confiados os cuidados com o trigo público, e que tinham de enfrentar pedra, ferro, fogo e o próprio Calígula? Com a maior dissimulação, encobriam um tão grande mal incrustado nas vísceras do Estado – e digo que o faziam com razão! Pois algumas doenças devem ser curadas sem que os pacientes as conheçam: a muitos, o conhecimento de sua doença foi a causa da morte.

19 – 1: Recolhe-te a estas coisas mais tranqüilas, mais seguras, melhores! Acaso tu pensas serem o mesmo estas duas coisas: cuidar que o trigo seja transportado ao celeiro, intacto e a salvo da fraude ou negligência dos carregadores, que não se estrague pela fermentação, que esteja bem seco, que seu peso e medida confiram, e elevar-se às coisas sagradas e sublimes para conhecer qual é a substância de deus, seu prazer, sua condição, sua forma, que destino aguarda tua alma, que lugar a Natureza nos destina após nos separarmos do corpo, qual a razão por que ela mantém os corpos mais pesados no centro do universo, suspende os altos às regiões altas, eleva o fogo à mais alta, impele as estrelas às suas trajetórias e ainda outras coisas cheias de notáveis (2) maravilhas? Abandona o solo e volta-te a esses estudos! Agora, enquanto o sangue ferve, deve-se ir, com determinação, para o melhor. Grande número de bons conhecimentos te esperam neste gênero de vida: o amor e a prática das virtudes, o esquecimento das paixões, o saber viver e morrer, enfim, uma grande tranqüilidade. (3) A condição de todos os ocupados é miserável, contudo a mais miserável é a daqueles que nem se molestam com suas próprias ocupações, que regulam seu sono pelo alheio, que caminham segundo as passadas de outro e que estão sob ordens, mesmo nas mais livres das coisas: amar e odiar. Estes, se quiserem saber quão breve é a vida, que considerem quão insignificante é a parte que lhes cabe.

20 – 1: Portanto, quando vires freqüentemente uma toga pretexta ou um nome célebre no fórum, não o invejes: essas coisas são adquiridas ao custo da vida. Para ligar seu nome a um único ano, consumirão todos os seus anos. A uns, a vida abandonou logo nas primeiras etapas, antes que tivessem atingido as alturas ambicionadas; a outros, após terem galgado o cume das honras através de mil desonestidades, sobrevém o triste pensamento: “ter trabalhado tanto por uma inscrição num túmulo!” Enquanto estavam dispostos para novas esperanças como na mocidade, a extrema velhice de alguns, já incapaz, frustrou- lhes os grandes e insaciáveis (2) esforços. Vergonha daquele que, já de idade avançada e querendo obter aplausos de um público ignorante, num processo de litigantes desconhecidos, perde seu fôlego; desgraçado o que, esgotado mais por causa de sua vida do que por causa de seu trabalho, sucumbe em meio aos seus próprios deveres; desgraçado o que morre recebendo suas contas sob o riso do herdeiro longamente (3) deserdado. Não posso omitir um último exemplo que me ocorre: São Turanio foi um velho de comprovada diligência, que, depois de completar noventa anos, como fosse dispensado de seu cargo por César sem que tenha solicitado, ordenou que o colocassem em seu leito e que a família, que se reuniu em torno dele como se estivesse morto, o pranteasse. A casa lamentava o ócio de seu velho senhor, e a tristeza não terminou antes que o cargo (4) lhe fosse restituído. É tão bom assim, morrer ocupado? O mesmo estado de espírito manifesta-se em muitos, o desejo de trabalhar perdura mais que a capacidade, lutam contra a fraqueza do corpo e julgam penosa a velhice, por nenhuma outra razão senão porque ela os põe de lado. A lei não mobiliza um soldado nos seus cinqüenta anos, nem convoca um senador nos sessenta; os homens obtêm com mais dificuldade folga de si (5) mesmos do que da lei. Entrementes, enquanto roubam e são roubados, enquanto um arrebata o repouso de outro, enquanto tornam-se mutuamente miseráveis, sua vida é sem proveito, sem prazeres, sem nenhum aperfeiçoamento intelectual. Ninguém tem a morte à vista, todos estendem suas esperanças ao longe, alguns chegam até mesmo a tomar disposições com relação a coisas que estão além de suas vidas: enormes túmulos, dedicatórias de serviços públicos, dádivas junto de suas piras funerárias e pomposas exéquias. Mas, por Hércules, seus funerais deveriam ser conduzidos à luz de tochas e círios, como se tivesse vivido pouquíssimo!





Notas

1 – para Aristóteles, só a forma é boa, a corrupção do mundo adviria da presença da matéria. Os estóicos tomarão uma posição intermediária e acreditarão na benevolência da natureza.

2 – Quando Sêneca se refere ao maior dos poetas, não se sabe se refere-se a Homero ou Virgílio.

3 – Nunca é permitido às suas vítimas voltar a si – Os ocupados não tem tempo para refletir sobre si, daí o estranhamento de si mesmos. O homem, no entanto, pode ultrapassar sua condição meramente corporal e alcançar o conhecimento de si como alma e razão, integrando-se assim ao logos universal.

4 – Augusto (63 a.C. – 14 d.C.), primeiro imperador de Roma, foi grande patrono das letras e das artes.

5 – Cícero (106 – 43 a.C.), o maior orador romano, outro exemplo de vida bem vivida para o romano médio da época de Sêneca.

6 – Cícero era muito vaidoso, chegou a escrever um poema épico em louvor de seu próprio consulado.

7 – Tribuno da plebe em 91 a.C., considerado um gênio da política, foi assassinado por suas reformas democráticas. Daí teve início a guerra social. (91 – 89 a.C.)

8 – A toga pretexta, com uma faixa púrpura, era a vestimenta dos altos funcionários e dos generais.

9 – Papírio Fabiano foi mestre de Sêneca e o que mais o influenciou.

10 – Nos leilões e no tribunal dos centúnviros, a lança era colocada como símbolo do iustum dominium. A lança assim fixada indicava que o tribunal estava sob a autoridade do pretor.

11 – Os bronzes coríntios eram muito cobiçados e colecionados por muitos em todo o império. 12 – Peças naturalistas sobre os temas da vida comum. Algumas eram pornográficas.

13 – Para Sêneca, o único conhecimento válido é o da filosofia, cuja finalidade é o aperfeiçoamento moral do homem.

14 – Pompeu, O Grande, iria ser morto por um escravo ao desembarcar como fugitivo em Alexandria.

15 – O estudo da filosofia, que abrange também a física e a teologia, pode levar o homem a ter acesso á própria eternidade.

16 – Desde Platão, é comum a crítica dos filósofos às ficções dos poetas.

17 – Lúcio gaio Mário (157 – 86 a.C.), general romano, foi o vencedor da Jugurta.

18 – Cincinato (século 4 a.C.) foi chamado do campo para ser ditador e salvar o exército romano. Cumprida a tarefa, voltou ao campo. Foi tido como modelo de virtude cívica pelos romanos.

19 – Cipião Africano Maior (236 – 183 a.C.), comandante do exército romano na Segunda Guerra Púnica, terminou a guerra com a vitória de Zama.

20 – O título de Rex era abominado pelos romanos, que nunca esqueciam as atitudes imorais e irresponsáveis de seus últimos reis, os Tarquínios. Otávio, ao se tornar imperador, inventou um título novo e muito mais importante: o de Augusto.


21 – O estudo da filosofia, para os estóicos, abrange a física, a lógica e a ética.





Fontes














Hanc stabilem animi sedem Graeci euthymian vocant, de qua Democriti volumen egregium est, ego tranquillitatem voco: nec enim imitari et transferre verba ad illorum formam necesse est; res ipsa de qua agitur aliquo signanda nomine est, quod appellationis graecae vim debet habere, non faciem. (De tranquilllitate animi, II,3) 

A esta firmeza de ânimo os gregos chamam euthymía [ευθυμία], a respeito da qual há um insigne volume de Demócrito; eu a chamo tranquilidade: não é, pois, necessário, imitar e transferir as palavras segundo a forma deles; deve-se designar a própria coisa de que se trata com algum nome que tenha a força da denominação grega, não seu aspecto.


Na verdade, Sêneca está retomando o mesmo vocábulo já utilizado por Cícero para a tradução do mesmo termo grego de Demócrito, com a diferença de que Sêneca delimita a acepção de εὐθυμία para unicamente tranquillitas, quando para Cícero correspondia tanto a securitas quanto a animi tranquillitas: [23]

Democriti autem securitas, quae est animi tamquam tranquillitas, quam appellant ευθυμία, eo separanda fuit ab hac disputatione, quia ista animi tranquillitas ea ipsa est beata vita. Quaerimus autem, non quae sit, sed unde sit. (De finibus bonorum et malorum, 5, VIII, 23) 

A ausência de preocupação de Demócrito, que é como que a tranquilidade da alma, a qual chamam ευθυμία, teve de ser excluída desta discussão, porque essa tranquilidade da alma é ela mesma a vida feliz. Inquirimos, pois, não sobre o que é, mas de onde vem.