Razões da desigualdade
Indicadores apontam crescimento da pobreza e aumento da desigualdade e também que as piores condições são para pretos, pardos e mulheres
Razões da desigualdade foram artificialmente colocadas: sorte e acaso.
Na realidade, a desigualdade deveria ser buscada não nas ideias de Galton e no seu tabuleiro (placa ou jogo) que também é conhecido como "Quincunx" ou Galton´s board", e trata-se de um dispositivo inventado por Sir Francis Galton (em 1874) para demonstrar o Teorema do limite central. Que traduz a verdadeira aleatoriedade. Ele se baseava na distribuição normal que é aproximada à distribuição binomial. Segundo as próprias palavras de Galton: "quanto maior a multidão e maior a anarquia aparente, mais perfeita é sua variação. É a lei suprema da desrazão. Em qualquer lugar onde uma grande amostra de elementos caóticos seja colhida e escalonada segundo a sua magnitude, uma forma de regularidade insuspeitada e das mais belas prova ter estado latente todo o tempo. Os pontos mais altos da fileira escalonada formam uma curva harmoniosa de proporções invariáveis; e cada elemento, ao ser posicionado, encontra como que um nicho predeterminado, cuidadosamente adaptado para contê-lo". (Galton)
Mas essa não é a fonte da desigualdade que encontramos na sociedade humana. A origem da desigualdade pode ser encontrada em outro pensador do século XVIII Jean-Jacques Rousseau. Rousseau, escreveu tentando responder a uma questão acadêmica proposta pela Academia das Ciências, Artes e Belas Letras de Dijon: “qual é a origem da desigualdade entre os homens e se ela é autorizada pela lei natural?” A obra “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens” de 1755, procura descrever a gênese histórica da desigualdade social, realizando, antes, uma análise hipotética do ser humano no estado de natureza. Através desse estudo ele concluiu que a relação humana ideal é uma relação de igualdade e não de hierarquia e reconheceu na conversação entre pessoas iguais, e não na sabedoria de uma elite, a forma ideal para a tomada de decisões políticas. É o sistema econômico atual que produz a desigualdade. Ou seja, a desigualdade é uma construção social que existe como resultado de uma política que repetidamente produz indivíduos desiguais. A burguesia revolucionária e liberal do século XVII e XVIII criou a ideia de uma sociedade igualitária, o paraíso deslocado do céu para a terra, que seria construída com a negação da herança de sangue aristocrática, assim cada um por seus méritos pessoais usufruiria dos bens materiais e culturais da sociedade...
Assim, Rousseau, concebeu a organização política do povo baseando-se na livre e efetiva participação de todos os integrantes da sociedade, fazendo disto um postulado de onde extraía que a lei somente poderia ser considerada legítima quando expressasse a vontade geral e a autoridade somente poderia ser tomada como válida quando fruto da escolha popular (LIMA, 2014).
O próprio Marx visualizava o socialismo como "a cada um segundo sua capacidade". Como podemos perceber hoje a promessa burguesa malogrou e a meritocracia passou a ser apenas um discurso ideológico para justificar a desigualdade como resultado de incompetência, quando sabemos que isso não é verdade.
Todos sabemos o caminho para uma sociedade ideal, todavia o capital se opõe a esse objetivo.
Sabemos que não é a sorte e não é o acaso a razão e a origem da desigualdade. A verdadeira origem é sistemática, e perversa; é a manutenção das classes mais humildes e dos trabalhadores num estado de desconhecimento que não possam lutar por seus direitos, e não possam formar seu filhos para que saiam da classe onde estão. A mobilidade, hoje sabemos, é de 9 (nove) gerações para que alguém que tenha nascido na classe C passe para a classe B. E tudo isso é produzido pelo capital que esta concentrado naqueles que tem o poder de eleger seus próprios representantes o que lhes garante a manutenção do "status quo".
Os problemas da sociedade podem ser resolvidos pela própria sociedade, através de suas entidades políticas, através de cada um de seus membros, sendo possível se construir um Estado justo, equilibrado, democrático, com mulheres e homens conscientes de seus direitos e deveres, e com o firme propósito de superar, praticamente, todos os males sociais e construir um novo amanhã, com mais paz. (21/IV/2020)
Bibliografia
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens; Discurso sobre as ciências e as artes – Rousseau 2. Tradução de Lourdes Santos Machado. Introdção e notas de Paul Arbousse-Bastide e Lourival Gomes Machado. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os pensadores).
LIMA, Rômulo de Araújo. 10 lições sobre Rousseau. 3. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.
https://portal.fgv.br/noticias/pobreza-e-desigualdade-aumentaram-ultimos-4-anos-brasil-revela-estudo
P.S.:
Meu orientador usava uma variante quando falava com seus orientados, ele dizia parafraseando Galton: quanto maior for a liberdade (a anarquia aparente), maior será a variância na criação (mais perfeita é sua variação).

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