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01 junho 2026

PIGMENTOS

HISTÓRIA DOS PIGMENTOS


As primeiras manifestações “artísticas” da pintura rupestre conhecia apenas contornos e manchas pretos e vermelhos (ocres), períodos posteriores usavam preto sólido, vermelho e marrom.
De acordo com dados do comércio internacional, o tamanho do mercado global de pigmentos excedeu US $ 24 bilhões e deve crescer para US $ 36,5 bilhões até 2030, com uma taxa de crescimento anual composta de quase 6%.
Existem muitas razões por trás dessa onda de entusiasmo:

1. Rápida urbanização e um aumento na demanda por pigmentos em infraestrutura e decoração da casa;
2. Os consumidores têm requisitos cada vez mais altos para a qualidade da aparência;
3. Expansão explosiva de tinta, impressão, plástico e cosméticos.

O cenário que emerge dos dados é:
1. Ásia é o maior mercado, com a China e a Índia se tornando super players;
2. América do Norte e Europa prestam mais atenção à proteção ambiental verde e defendem pigmentos ecológicos.
Falando em tendências de pigmentos, uma coisa que não pode ser ignorada são os pigmentos fluorescentes.
Assim, o objetivo desse trabalho preliminar é mostrar um pouco da história dos pigmentos.

Pigmentos em pó pronto para uso. (Fonte: 1)



Das matérias ao espectro: uma jornada químico-artística pelos pigmentos


Introdução

A relação entre química e arte é talvez uma das mais antigas e frutíferas alianças da história da humanidade. Antes mesmo do desenvolvimento da escrita, nossos ancestrais já manipulavam a matéria-prima da terra para expressar o pensamento simbólico. Como pesquisador na área de pigmentos, proponho uma análise aprofundada dessa trajetória, onde cada descoberta química não apenas expandiu a paleta do artista, mas também redefiniu os limites da expressão visual. Desde os primeiros traços de ocres naturais até as complexas moléculas organometálicas do século XXI, os pigmentos atuaram como mediadores entre o mundo físico e a imaginação humana.
Os primeiros pigmentos, surgidos há aproximadamente 40.000 anos, eram essencialmente geológicos e biológicos: solo rico em ferro (ocre), carvão de ossos queimados (negro), calcário moído (branco) e terras argilosas . A química envolvida era a da decomposição e da oxidação natural, processos lentos que a natureza levava eras para completar e que o homem aprendeu a identificar e coletar. O pensamento simbólico emerge nesse contexto não apenas como decoração, mas como ritual e comunicação. As pinturas rupestres de Altamira (Espanha) e Lascaux (França) não seriam possíveis sem o domínio desses primeiros materiais, onde o vermelho do hematita (α-Fe2O3) simbolizava o sangue e a vida.

A antiguidade e o nascimento da química sintética

Com o advento das primeiras civilizações, observamos uma transição crucial: da simples coleta de pigmentos naturais para a sua síntese controlada. O azul egípcio (silicato de cálcio e cobre - CaCuSi4O10), desenvolvido por volta de 3000 a.C., representa o primeiro pigmento sintético conhecido. Sua produção exigia o aquecimento controlado de areia, cobre, carbonato de cálcio e soda, para produzir um azul intenso semelhante à lápis-lazúli, demonstrando um conhecimento empírico avançado de reações de estado sólido. Essa feliz descoberta química permitiu aos egípcios uma gama de azuis e representar o céu e os deuses de forma padronizada, transcendendo a instabilidade dos pigmentos naturais.

Paralelamente, o vermelhão (HgS - sulfeto de mercúrio) e o branco de chumbo (2PbCO3·Pb(OH)2) tornaram-se pilares das paletas antigas. Os romanos dominavam a produção do ceruse (branco de chumbo) através do “processo holandês”, que envolvia a corrosão de chapas de chumbo por vapores de vinagre na presença de estrume, gerando calor e dióxido de carbono. 
Plínio, o Velho, já documentava os perigos desses materiais, estabelecendo um paradoxo que persiste até hoje: a toxicidade versus a beleza. O mural da Villa dos Mistérios em Pompéia exemplifica o uso suntuoso do cinábrio (minium), cujo custo rivalizava com o ouro.


A Idade Média e o comércio global de cor

Durante o período medieval e a Renascença, a química dos pigmentos entrelaçou-se com o comércio global e a iconografia religiosa. O azul ultramarino, obtido do lápis-lazúli (rocha metamórfica contendo lazurita), era mais valioso que o ouro. Proveniente das minas de Badakhshan, no atual Afeganistão, seu processo de extração era trabalhoso: a rocha era moída e misturada com cera, resinas e óleos para separar o pigmento azul puro das impurezas de calcita, sodalita e pirita. 
O preço exorbitante fez com que a partes pequenas da obre, como o manto da Virgem Maria fosse frequentemente representada com a cor azul, não apenas por simbolismo teológico, mas como uma demonstração de riqueza e devoção por parte do comissário da obra.

A inovação química não parou. O “verde grego” (verdigris - acetato de cobre) era produzido pela corrosão de cobre com mosto de uva, enquanto os “lacas” vermelhas eram extraídos de insetos como a cochonilha (ácido carmínico). 
A descoberta acidental do azul da Prússia (Fe7(CN)18) por Johann Jacob Diesbach em Berlim, por volta de 1706, marca um divisor de águas. Pela primeira vez, um pigmento complexo estava disponível a um custo baixo, democratizando o azul e encerrando a hegemonia do ultramarino oriundo da Rocha Liz lazuli.

A Revolução industrial e a química moderna

O século XIX foi o grande catalisador da mudança, impulsionado pela química inorgânica e orgânica. A descoberta de novos elementos isolados permitiu a criação de cores antes impossíveis. O amarelo de cromo (PbCrO4) em 1818 e o vermelho de cádmio (CdSe) no final do século ofereceram aos impressionistas como Claude Monet e Pierre-Auguste Renoir uma saturação nunca antes vista . No entanto, esta era também ficou conhecida pelos “pigmentos assassinos”. O Verde de Scheele (CuHAsO3), inventado por Carl Wilhelm Scheele em 1775, era barato e vibrante, mas continha arsênico, que é muito tóxico. 
Historiadores especula-se que a enfermidade de Napoleão Bonaparte pode ter sido agraciada é o levado à morrido tenha sido a exposição ao arsênico existente no papel de parede de sua residência em Santa Helena.

Paralelamente, a indústria petroquímica deu origem aos corantes de alcatrão de hulha e, subsequentemente, aos pigmentos orgânicos sintéticos no início do século XX. O desenvolvimento das ftalocianinas (azul e verde) na década de 1930 revolucionou a indústria devido à sua extraordinária estabilidade e poder de tingimento. No campo da arte contemporânea, Yves Klein colaborou com químicos para criar seu "International Klein Blue" (IKB), um azul ultramarino suspenso em resina que mantinha sua pureza cristalina, explorando a materialidade da cor como objeto estético em si mesmo. Após estes, muitos outros pigmentos foram sintetizados, e ultimamente a criação do vanta black e o azul YInMn.

O azul feito com Ytrio, índio e manganês é conhecido como YInMn Blue (ou Azul YInMn). Esta é uma tonalidade intensa e brilhante de azul, descoberta acidentalmente em 2009 na Universidade do Estado do Oregon por uma equipe liderada pelo professor Mas Subramanian. 
Aqui estão os detalhes principais sobre este pigmento:
Composição e Nome: O nome “YInMn” deriva dos símbolos químicos dos elementos usados: Ítrio (Y), Índio (In) e Manganês (Mn).
Descoberta Acidental: Cientistas estavam pesquisando materiais para eletrônicos, misturando óxidos de manganês (preto) com outros elementos a temperaturas extremamente altas (cerca de 1200 °C a 1250 °C), quando a mistura resultou em um composto azul brilhante.
Propriedades desse novo pigmento:
Durabilidade: É extremamente durável e estável.
Segurança: Ao contrário de outros azuis (como o cobalto ou a Prússia), o YInMn é atóxico.
Reflexão de Calor: O pigmento reflete muito bem a luz infravermelha, o que significa que, se usado em tintas para edifícios ou carros, pode mantê-los mais frescos, sendo um pigmento “frio”.
Uso Comercial: É considerado o primeiro novo pigmento azul inorgânico descoberto em mais de 200 anos e tem sido utilizado em revestimentos, plásticos e tintas artísticas. 

Nota sobre a “Azul de Manganês” tradicional:
É importante não confundir o YInMn Blue com o pigmento histórico “Azul de Manganês” (bário manganês manganato), que era um azul claro, ciano, muito usado em tintas artísticas, mas que caiu em desuso devido a questões de toxicidade e produção. O YInMn é uma tecnologia nova.


Linha do Técnica dos Pigmentos

Para melhor visualizar essa evolução, apresento uma linha do tempo sintetizada, relacionando a descoberta química com o contexto artístico:


Pré-História (até 40000 a.C.): Ocre vermelho (Hematita - Fe2O3), Carvão (C), Caulim (Al2Si2O5(OH)4). Exemplo: Pinturas rupestres da Caverna de Altamira (Espanha) .

Antiguidade (3000 a.C. - 400 d.C.): Azul Egípcio (CaCuSi4O10), Chumbo Branco (2PbCO3·Pb(OH)2), Vermelhão (HgS). Exemplo: Máscara mortuária de Tutancâmon 

Idade Média (500 - 1400): Ultramarino (Lapis-lazuli), Amarelo de Nápoles (Pb3(SbO4)2), Verde-cobre (Cu(CH3COO)2). Exemplo: Tríptico da Anunciação de Fra Angelico .

Renascença (1400 - 1700): Laca de Cochonilha (Ácido carmínico - C22H20O13). Exemplo: Os Retratos de Rembrandt .

Iluminismo (1704): Azul da Prússia (Fe4[Fe(CN)6]3). Exemplo: O Banhista de Watteau .

Revolução Industrial (séc. XIX): Verde de Scheele (CuHAsO3), Amarelo de Cromo (PbCrO4), Branco de Zinco (ZnO). Exemplo: Os Girassóis de Van Gogh .

Modernismo (séc. XX): Ftalocianina (C32H16N8Cu), Azul Cobalto (CoAl2O4), Titânio Branco (TiO2). Exemplo: A Bacia de Water Lilies de Monet .

Contemporâneo (séc. XXI): Azul de YInMn (YInMn). Exemplo: Instalações de Anish Kapoor (Vantablack/Superblack).


Conclusão

A trajetória dos pigmentos é a própria crônica do do desenvolvimento do pensamento simbólico e do progresso científico aplicado à sensibilidade humana. Desde a manipulação dos óxidos de ferro primordiais que eram misturados com gordura animal (graxa) até a engenharia molecular dos corantes de ftalocianina, a química forneceu as ferramentas para que o pensamento simbólico se materializasse. Como artista e pesquisador, é possível perceber que cada pigmento carrega em sua estrutura cristalina ou molecular a marca de sua época: a violência do mercúrio em Pompéia, o comércio global no lápis-lazúli desde 3000 mil anos até a era medieval e a revolução industrial no arsênico dos papéis de parede vitorianos. O estudo desses materiais não é apenas uma análise de superfície; é a arqueologia da cor, onde a ciência revela a intenção, a técnica e até mesmo a queda de impérios.

A arte contemporânea, ao explorar pigmentos de interferência e nanotecnologias, continua essa tradição. O ciclo permanece: a química expande o possível, e a arte expande o significado. Compreender essa simbiose é fundamental para conservadores (restauradores), historiadores e criadores que desejam não apenas ver a cor, mas entender sua alma material.


Fontes 

ICCROM (International Centre for the Study of the Preservation and Restoration of Cultural Property): Oferece seminários detalhados sobre a história dos pigmentos, como “History of Pigments (until early 18th c)” e “History of Pigments (from the 18th century to the present day)”.

Princeton University Press/De Gruyter Brill: O livro Pigments (2024) da série ART/WORK, editado por Barbara H. Berrie, Caroline Fowler, et al. É uma fonte autoritativa e atualizada sobre a história material da cor.

Artsy/The Art Genome Project: Embora seja uma plataforma de divulgação artística, suas séries históricas (como “A Brief History of Color in Art” e “The 20,000-Year-Old History of Red Pigments”) são bem pesquisadas e ricamente ilustradas, servindo como excelente ponto de partida visual e contextual.

Lancaster University: O trabalho do artista Craig Staff, analisado academicamente, demonstra a aplicação prática da história dos pigmentos na pintura contemporânea, ligando a pesquisa histórica à prática de estúdio.


(01/XII/2025 e revisada em 20/V/2026)


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