PASSAGEM
Um paraíso particular
Todos seres, passageiros
Passageiros do tempo
Passageiros dessa matéria
Passageiros desse espaço
Nada é permanente
Nada exceto a energia inextinguível
e o movimentos dos átomos
a singularidade dos momentos
Não há nada além-hyle
Ela que criou a ideia
Essa adaptação única
Que se espelha no Sol
A fagulha dada pelos deuses
ao barro que se tornou homem.
Somos todos, seres, passageiros
do tempo que não espera nem perdoa.
Passageiros da matéria, leves e pesados
e do espaço que nenhum deus moldou.
Nada é permanente, nem a dor,
nem a alegria que julgamos dona.
Apenas a energia inextinguível
Movimento auto-inflingido
E campos elétricos
Movimento dos átomos no vazio,
singularidade dos momentos indizíveis.
Não há trono no céu, não há resposta:
há um breve instante
De aproximação e afastamento.
Não há nada além da hyle
matéria que engendrou ideia.
O espírito foi a centelha de luz
que encarou o barro.
Essa adaptação única que somos
capaz de se espelhar no próprio Sol
não foi concedida por nenhum deus,
foi acaso, acerto, erro… tentativao.
A fagulha que os antigos atribuíram
aos deuses que inventaram para o medo
é só o fogo que os neurônios produziram
quando a carne aprendeu o seu segredo.
O barro que se fez homem não rezava.
Ele suava, lutava, procriava, errava.
Não havia um arquiteto que o olhava:
havia a noite fria, póe ele se levantava.
Plantamos deuses como plantamos espantalhos
para espantar a vastidão do vazio.
Monstros de nossos pesadelos
quando o vento sopra, vemos os galhos:
não há ninguém lá além das leis imutáveis.
A salvação não é um dom que desce.
É uma ponte que a mão humana estende.
Nenhum rebento
Nemini datus, Nemini natus
somos nós que curamos nossas chagas.
Quando a morte decompor essa matéria
e o tempo apagar nossos nomes
como dilui as rochas,
não haverá juízo,
nem nada no fim da estrada.
Só o que fizemos
com as próprias mãos, enfim.
(Escrito em 05/4/2026)

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