INÍCIO

02 março 2026

CERÂMICA DE ONTEM E DE HOJE

CERÂMICA 

Tijela japonesa 

I
É um prazer compartilhar meu conhecimento sobre este ofício tão antigo e fascinante da cerâmica. Como fiz as disciplinas de cerâmica na federal (UFRGS), no Curso de Arte Multimídia, tentarei colocar aqui, de forma sistemática o que sei sobre o assunto, descrevendo o processo de forma detalhada, desde a origem da matéria-prima até a peça finalizada, tentando explicar os conceitos nessa área tão fascinante.


Cerâmica, a arte feita com o próprio planeta
Caminho da cerâmica: da Terra à obra de arte


A jornada da cerâmica é uma transformação profunda da matéria, onde a terra, parte do planeta, moldada pelas mãos humanas, torna-se sólida e eterna através do fogo.

1. A Matéria-prima: a argila (a barro)

Tudo começa com a argila, uma rocha sedimentar, de grão finíssimo, formada pela decomposição de rochas feldspáticas (como o granito) ao longo de milhões de anos, essa decomposição se dá por meio do intemperismo. O intemperismo é a ação dos elementos: vento, água, Sol, gelo, pressão, soluções químicas e temperatura sobre as rochas que as enfraquece e se desagregam. 
A principal característica da argila, produto do intemperismo, é a plasticidade quando umedecida, o que permite que seja moldada.

Composição química principal
A argila é essencialmente um silicato de alumínio hidratado. Sua fórmula geral complexa pode ser simplificada como Al₂O₃ · 2SiO₂ · 2H₂O (caulinita). Além disso, contém impurezas que determinam sua cor e propriedades:
• Óxido de Ferro (Fe₂O₃): Confere cores que vão do amarelo, laranja, vermelho ao marrom, dependendo da concentração e da atmosfera de queima.
• Carbonato de Cálcio (CaCO₃): Influencia a cor e a temperatura de fusão.
• Matéria Orgânica: Pode escurecer a argila crua e influenciar a plasticidade.

Tipos mais  omuns de argila

• Caulim: Argila primária, muito pura, de cor branca. Tem baixa plasticidade e é a base da porcelana. Funde a altas temperaturas.

• Argila Secundária ou Sedimentar: É transportada pela água e vento, mais fina e plástica. Exemplos: argilas para olaria (vermelhas), grés (cinza ou marrom) e bola (ball clay), muito plástica e usada em massas para porcelana e grés.

Massas cerâmicas

Massas cerâmicas são misturas preparadas pelo ceramista, combinando diferentes tipos de argila e outros materiais (chamote, feldspato, quartzo) para obter propriedades específicas de plasticidade, cor e temperatura.

1. Coleta e Preparação

1. Coleta
A argila pode ser encontrada em margens de rios, barreiros e taludes. Deve-se retirar a camada superficial de matéria orgânica (húmus) e coletar a argila pura.

2. Secagem
A argila coletada é deixada para secar ao sol.

3. Destorroamento
Os torrões secos são quebrados manualmente ou com marreta.

4. Hidratação (Degoragem)
O pó é colocado em um recipiente e coberto com água por alguns dias, formando uma “barbotina” (lama).

5. Peneiramento
A barbotina é passada por uma peneira fina para remover impurezas (pedriscos, raízes).

6. Secagem da Massa
A barbotina peneirada é colocada em uma superfície absorvente (como placas de gesso) para perder o excesso de água, atingindo o ponto de plasticidade ideal para o trabalho. Este processo pode levar dias. Em seguida, a massa é “socada, sovada” e amassada para eliminar bolhas de ar.


2. A Modelagem e Primeira Secagem

Com a argila preparada, o ceramista inicia a criação.

Técnicas de Modelagem
As principais são o pinçamento, o acordelado (com rolinhos), as placas e o torno de oleiro.

Secagem (Cru)
Após modelada, a peça deve secar lenta e uniformemente, longe de correntes de ar e sol direto. A água de plasticidade evapora, fazendo a peça contrair (retração). A peça fica no estado “cru” ou “verde”, ainda frágil e solúvel em água. Uma secagem muito rápida geralmente causa rachaduras.

3. A Primeira queima: o biscoito

A peça completamente seca está pronta para sua primeira transformação pelo fogo. É levada ao forno para a queima de biscoito.

Processo
A temperatura sobe gradualmente até atingir, tipicamente, entre 900°C e 1000°C. Esta queima é relativamente baixa.

Transformações Físico-Químicas

• Até 200°C: Eliminação da água de plasticidade (física).
• Entre 350°C e 650°C: Queima da matéria orgânica presente.
• Entre 450°C e 600°C: Ocorre a desidroxilação, a perda da água quimicamente combinada (os 2H₂O da fórmula da caulinita). A estrutura cristalina da argila colapsa, tornando-se amorfa (metacaulinita). A argila não pode mais reidratar-se e voltar ao estado plástico. A peça agora é chamada de biscoito.
• Resultado: A peça está porosa, resistente o suficiente para ser manuseada, mas ainda pode absorver água. É neste estado que se aplica a maioria dos esmaltes (vidrados).


4. A Decoração: engobes e esmaltes (fritas e vernizes)

Com a peça em biscoito, inicia-se a fase de acabamento superficial.

Engobe
É uma barbotina (argila líquida) colorida, geralmente com óxidos metálicos, aplicada sobre a peça crua ou biscoitada. Pode ser aplicada sob um esmalte transparente ou sozinha, em peças que serão queimadas em temperaturas mais baixas. Sua textura é fosca ou acetinada e se funde parcialmente com o corpo cerâmico.

Esmalte (Vidrado)
É uma camada de vidro que recobre a peça, tornando-a impermeável, higiênica e decorativa. É uma mistura de sílica (formador do vidro), fundentes (para baixar o ponto de fusão da sílica) e alumina (estabilizador, para que o vidro não escorra da peça). 
Os esmaltes são classificados em:

Fritas: São vidros industriais moídos. Muitos componentes dos esmaltes são tóxicos ou solúveis em água (como chumbo, bórax). Para torná-los seguros, eles são primeiro fundidos com a sílica, formando um vidro (a frita), que é então resfriado e moído até virar um pó. Este pó (a frita) é então misturado com água e outros componentes para fazer o esmalte. Usar fritas é mais seguro e controlável.

• Vernizes: O termo "verniz" é usado como sinônimo de esmalte, especialmente os transparentes e brilhantes. Na prática, todos são revestimentos vítreos.


5. A Segunda queima e a sinterização

Após a aplicação dos esmaltes, a peça vai para a queima de vidrado.

• Processo
A temperatura sobe novamente, geralmente mais alta que a do biscoito, até o ponto de maturação do esmalte e da massa (ex: 1050°C-1150°C para faiança, 1200°C-1300°C para grés, acima de 1300°C para porcelana).

• O que é Sinterização? 
A sinterização é um processo fundamental onde as partículas sólidas de um material se unem e se densificam pela aplicação de calor, mas sem atingir a fusão completa (ponto de liquefação total). É a "soldagem" dos grãos.

• Como ocorre a sinterização na cerâmica
Durante a queima, antes que a massa ou o esmalte derretam completamente, as partículas de argila começam a se fundir superficialmente em seus pontos de contato. Os átomos difundem-se de uma partícula para outra, criando "pescoços" de ligação. Os poros entre as partículas diminuem ou se fecham, e a peça sofre uma contração adicional, tornando-se mais densa e resistente. A sinterização é o que transforma o material quebradiço em uma cerâmica dura. No esmalte, as partículas da frita também sinterizam antes de derreterem completamente, formando uma camada coesa.

No ponto máximo da queima de vidrado, o esmalte funde-se completamente, formando uma camada vítrea lisa que, ao resfriar, solidifica-se, vitrificando a peça e incorporando as cores dos óxidos utilizados. A sinterização completa-se, consolidando toda a estrutura.


Cinco bibliografias de domínio público com técnicas de cerâmica

Num mundo onde o neoliberalismo torna todos gananciosos ou simplesmente sobreviventes, encontrar livros de técnicas cerâmicas em domínio público pode ser dificil, pois a maioria dos manuais técnicos fundamentais do século XX ainda está protegida por direitos autorais. 
No entanto, existem excelentes fontes primárias, catálogos e documentos históricos que oferecem um vislumbre inestimável das técnicas, receitas e pensamento sobre a cerâmica. Estas são algumas obras e acervos notáveis:

1. “A Potter's Book” de Bernard Leach (1940) - Nota sobre Direitos Autorais: Este livro ainda não é de domínio público na maioria dos países (vida do autor + 70 anos, Leach morreu em 1979). No entanto, é uma obra tão fundamental que merece menção. Frequentemente, cópias digitalizadas com acesso limitado podem ser encontradas em bibliotecas universitárias com acervos online. É a "bíblia" da cerâmica de estúdio moderna.

2. “Tratado de la Industria del Barro” de vários autores (Espanha, final do séc. XIX) - Disponíveis em bibliotecas digitais como a Biblioteca Digital Hispánica. São documentos que compilam ofícios e técnicas tradicionais espanholas de produção cerâmica, incluindo receitas de vidrados e métodos de construção, representando o conhecimento popular da época.

3. Documentação da “Real Fábrica de Loza de Sargadelos” (Espanha, séc. XVIII-XIX) - Acervos digitalizados no Ministério da Cultura e Desporto da Espanha e na Biblioteca Virtual do Principado das Astúrias. Contêm memórias, desenhos e descrições técnicas sobre a produção de cerâmica, esmaltes e a organização do trabalho, mostrando a transição do artesanato para a manufatura.

4. “Encyclopédie, ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers” de Diderot e d'Alembert (França, 1751-1772) - Disponível na Bibliothèque nationale de France (Gallica) e em vários repositórios globais (como a University of Chicago). Os volumes e as famosas pranchas gravadas dedicadas à “Poterie” e à “Fayence” (faiança) são um tesouro de informações. Descrevem em detalhes as ferramentas, fornos e processos dos oleiros do século XVIII.

5. "Kenzan's Hundred Pictures of Vases" (Japão, c. 1730) - Ogata Kenzan - Digitalizado por instituições como o Smithsonian Libraries ou a Biblioteca da Universidade de Waseda (Japão) . Embora não seja um manual técnico ocidental, este livro de madeira (xilogravura) contém desenhos de formas de vasos e inscrições que detalham a filosofia e as técnicas do famoso ceramista japonês, oferecendo uma perspectiva artística e técnica inestimável sobre a cerâmica Raku e outras tradições.


Para pesquisas aprofundadas, recomenda- se a busca em repositórios institucionais e bibliotecas nacionais digitais (como a Biblioteca Nacional de Portugal - BN Digital) usando termos como “cerâmica”, “olaria”, “técnicas de esmalte”, “arte da louça” em conjunto com filtros de data (século XIX ou anterior).

II.
Eu amo cerâmica. Fiz cerâmica por três anos na faculdade e depois em atelieres onde havia curso, apenas para produzir. A seguir estão obras em cerâmica (maioria utilitários) de diversas origens desde Minoanas, gregas, etruscas, greco-romanas, helenísticas, do século V, pré-colombianas, asiáticas, japonesas, coreanas, etc. Obras antigas e atuais para inspiração. São imagens encontradas no Pinterest e no Google imagen apenas pesquisando por palavras como cerâmica ou pottery. 

















































































Hiroshi Toyofuku

Hiroshi Toyofuku

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Hiroshi Toyofuku







































































































































































































































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