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11 maio 2025

FELIZ DIA DAS MÃES

 FELIZ DIA DAS MÃES 










Para sempre 

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento. 

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

(Carlos Drummond de Andrade, 1965)


***

Em 20 de maio de 1954, seis anos depois da morte da mãe, Drummond escreveu em seu diário: 

Pouco pensei em ti, hoje, do muito que gostaria de pensar. Tua lembrança caminhou algum tempo comigo, nas ruas, mas era antes o desejo dela, de uma convivência mais íntima, repetida e tranquila, com a tua essência, e que mantenho tão abafada sob interesses imediatos. 

Perdoa-me não amar-te como queria, tanto mais quanto sou eu mesmo que me reduzo e me empobreço com esta falta. Pensei, sobretudo, na distância de tempo que nos separa do dia do teu nascimento, há 85 anos. Nesse espaço, uma criança vem ao mundo, torna-se órfã e se faz moça, casa-se, os filhos vêm chegando, a maior parte deles morre cedo, outros crescem para ligar suas vidas com a tua e depois separá-las, cada um no seu rumo. 

Por fim, és tu mesma que te retiras, enquanto um ramo de tua vida aqui está, nesta cidade que nunca viste, e poucos são os que te conhecem e sabem sequer que exististe. Um ramo a lembrar o curso humilde de tua vida caseira, à sombra do homem forte que também lá se foi antes de ti, os dois hoje integrados no mesmo pó que me espera. Vou-me aproximando de ti porque envelheço, e minha vida volta às origens. Abençoa-me e acaricia-me, porque sou sempre criança a teus olhos, enquanto o velho em mim se confirma. E se dentro de mim existes, em ti também vou existindo, e nossas vidas se confundem, apesar do muito que te esqueço. 

(ANDRADE, 1985, p. 105-106) 

O texto é escrito em tom de brandura, de entrega, quase, segundo Cançado (2006, p. 265), em tom de oração, com o emprego da segunda pessoa do singular. Uma característica que foge um pouco à escrita de Drummond, mas que acontecia quando ele se referia à mãe.

Carlos Drummond de Andrade nasceu em 1902, em Itabira (MG), e consolidou-se como um dos maiores nomes da literatura brasileira no século XX. Sua obra atravessa a poesia, a crônica e o ensaio, com temas que vão do cotidiano à introspecção existencial. Ele faleceu no Rio de Janeiro, em 1987, um ano após a morte de sua filha, Maria Julieta Drummond.


Mamis 88 anos






















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