CIÊNCIA
Uma “fireball”, bola de fogo, passou por cima do meu prédio na Azenha, em Porto Alegre, as 19h13 minutos. Estava sem o celular na hora então resolvi desenhar no iPad. É a segunda vez que testemunho esse fenômeno aqui em Porto Alegre, a primeira vez foi em 2021.
Todavia há uma discrepância, na trajetória reportada pelo observatório Keller & Jung; pois o meteoro que eu avistei estava na direção SE vindo de NO. E o que foi veiculado na imprensa estava indo na direção Oeste.
“(…) O relógio marcava 19h13min e o sol ainda iluminava parte do alaranjado horizonte da Região Metropolitana quando a bola de fogo cruzou o céu. Foi o primeiro registro de um meteoro do tipo durante o dia no Rio Grande do Sul em anos.
Foi o primeiro registrado durante o dia, em oito anos, aqui no Rio Grande do Sul. Cruzou o céu ainda com a luz do dia, destacou o professor Carlos Jung, um dos coordenadores do Observatório em Taquara.” (ZH).
Em 08 de janeiro de 2021, também avistei uma fenômeno semelhante aqui em Porto Alegre. Infelizmente estava sem o celular no momento e-mail ocorreu a passagem de um meteoro pelo céu de PoA. Estava estudando e notei uma luz forte no céu em direção ao oeste só olhei para fora e vi uma linda bola de fogo no céu. Demorou uns 4 segundo e desapareceu. Somente pude desenhar o que vi.
Fireball em Porto Alegre em janeiro de 2021. Abaixo está o vídeo veiculado pelos meios de comunicação.
***
A TRAVESTI DA UFMA E A ESQUERDA QUE FACILITA O TRABALHO DA EXTREMA DIREITA
Artigo de Luis Felipe Miguel (1)
(1)
I
Tem uma parte da “esquerda” que parece ter como vocação facilitar o trabalho da Brasil Paralelo e de outros extremistas no ataque ao conhecimento, com a universidade pública e à ciência.
Ontem, voltou a atacar a estudante de História e cantora que já tinha alimentado, tempos atrás, a gritaria contra a “bagunça nos campi” com a mesma performance “educando com o cu”.
Em uma mesa redonda sobre gênero e sexualidades, ela entoa sua composição sobre “mestrado da putaria”, sobe na cadeira e rebola de costas para a plateia, com o minivestido levantado.
(Em nota oficial, a Universidade Federal do Maranhão afirmou que “está averiguando o ocorrido e tomará as providências cabíveis“. Tomara que marque uma posição clara.)
Não vou dar o nome – afinal, o objetivo da performer é obter notoriedade por meio do escândalo e eu já estou colaborando demais com isso.
Ela mesma publicou o vídeo em sua página, em busca de likes. Tinha conseguido, até hoje de manhã, uns mil e poucos.
Mas só na página da deputada Bia Kicis, que o publicou muitas horas depois, o vídeo já tinha 30 vezes mais curtidas. Kicis anotava que a performance tinha ocorrido com financiamento público.
O resultado líquido da transgressão: levantar a bola para que até uma bolsonarista de poucas luzes possa lacrar em cima.
Mas é isso: não importa que se fragilize a universidade pública, que o debate sobre gênero seja vilanizado, que as ciências humanas sejam desmoralizadas, que seja um tiro no pé para a defesa dos direitos das travestis. Todas estas pautas são parasitadas por uma gente movida por exibicionismo e desejo de notoriedade.
Na postagem com o vídeo, a performer diz “entender que a universidade é sim lugar de múltiplas formas de conhecimento, inclusive do proibidão”. “Proibidão”, para quem desceu no planeta recentemente, é o tipo de funk que traz letras sexualmente explícitas, muitas vezes com forte objetificação das mulheres, e/ou faz apologia do tráfico de entorpecentes.
O discurso pronto das “múltiplas formas de conhecimento” é bonito, mas não se aplica ao caso.
A universidade acolhe “formas de conhecimento” que preenchem determinados critérios de cientificidade. O funk proibidão entra como objeto de estudo, não como “forma de conhecimento”.
Por coincidência logo depois de ter visto a reportagem sobre a performance na Universidade Federal do Maranhão, li um artigo em que professores de universidades de elite nos Estados Unidos reclamam que uma parcela cada vez maior de seus estudantes se mostrava incapaz de ler um livro do começo ao fim.
Creio que os dois fenômenos estão ligados.
A democratização do acesso à educação superior, que é uma conquista importante, vai perdendo sentido à medida em que este ensino superior se mostra menos capaz de prover os conhecimentos que deveria.
Com base em uma postura muitas vezes paternalista e condescendente, para não dizer arrogante e preconceituosa, vamos rebaixando nossos parâmetros, permitindo a contaminação por abordagens místicas, mitológicas ou simplesmente pelo oportunismo disfarçado de militância identitária.
Em vez de democratizar o acesso às ferramentas que proporcionam o pensamento crítico e emancipador, distribuímos diplomas. Que dizem cada vez menos das competências de quem os porta, que se desvalorizam.
Um presente para os detentores do capital econômico, sempre empenhados em reduzir o capital cultural à insignificância.
Com muito mais propriedade, outra funkeira, Tati Quebra Barraco, cantava: “Piranhas doutoradas farão revolução”.
Esse devia ser nosso horizonte: uma universidade aberta a pessoas de todas as extrações sociais, que efetivamente dê a elas os instrumentos para agir conscientemente no mundo.
II
A performance inapropriada na Universidade Federal do Maranhão não foi, nem de longe, uma transgressão inocente e desprovida de consequências. Ela deu gás à campanha da extrema direita contra a universidade pública
O deputado Nikolas Ferreira, que espantosamente é o presidente da Comissão de Educação da Câmara, já mandou investigar o caso e ameaça até com a exoneração dos envolvidos. Quem pode culpá-lo? O caso lhe foi entregue de mão beijada. Se ele mesmo tivesse contratado a performer, o resultado não teria sido melhor.
A dancinha da estudante de história e cantora circula como a prova viva de que tudo o que inventam sobre as universidades é verdade. Um lugar sem seriedade, que despreza os valores morais, em que impera o vale tudo, que desperdiça o dinheiro do contribuinte.
Foi um desserviço, em particular, aos estudos de gênero, transformados na caricatura que os fundamentalistas produzem. E para qual avanço dos direitos LGBT contribuiu?
Muita gente questionou também se não há um viés sexista em toda a situação: será que a mesa redonda aceitaria a performance fescenina se fosse uma mulher, não uma travesti?
Um influencer chamado Tiagson pegou minha postagem de ontem para tecer uma série de críticas. No caminho, como infelizmente é de costume, manipulou o que eu escrevi, mostrando flashes tão rápidos dos meus cards que quem simplesmente viu o vídeo dele não tinha como acompanhar.
Mas vou focar no principal. Ele disse que não tem sentido a esquerda se preocupar com o tipo de utilização que a direita vai fazer de suas ações.
Isso é típico de quem vê a disputa política como algo estético e está simplesmente despreocupado de suas consequências na vida das pessoas.
O influencer joga a carta de “eu vim da periferia”, a identidade como argumento de autoridade, sempre. Mas sua postura é do pequeno-burguês bem acomodado que lacra hoje como se não houvesse amanhã.
Como se não houvesse corte de orçamento, privatização, cerceamento da liberdade de ensino e pesquisa, macarthismo, tudo isso espreitando à nossa frente.
Sim, nós temos que nos preocupar com o efeito que qualquer uma de nossas ações vai ter. Isso significa não que devemos nos curvar às determinações do outro campo, mas pesar o que vale a pena e o que não vale a pena.
O nome disso é política.
Afinal, aproveitando uma reflexão do Hobsbawm, que alguém (infelizmente não me lembro quem) recordou no contexto mesmo da polêmica de agora, o que nós queremos não é chocar a burguesia e sim derrubá-la.
Até porque (como também lembrou essa mesma pessoa) as sensibilidades ofendidas não são burguesas.
Aliás, muitas vezes o que esse tipo de “transgressão” faz é afastar da universidade as pessoas que vêm dos espaços sociais mais subalternos, vinculadas a padrões de moralidade mais rígidos e sem familiaridade com a cultura das performances.
A performance deu munição à direita. E mais o quê? Deu visibilidade à performer, que agora, segundo leio, está promovendo sua página numa plataforma de conteúdos “adultos”.
No vídeo que gravou para responder às críticas, ela mostrou novamente o nível rasteiro em que se move: chamou quem condenou a exibição de “os fascistas que me odeia” (sic), fez uma provocação boba (“ainda vou ser a sua ministra da Educação, bebê”), cantou novamente a música do “mestrado da putaria” (aaaaargh), e pronto, foi isso.
Por fim, o influencer esqueceu de um ponto central no meu argumento: não é só por causa do uso pela direita.
A universidade não pode ser mesmo um lugar de vale tudo. É necessário manter os critérios de validação do discurso científico, isto é, do que tem condições e do que não tem condições de ingressar no debate.
A democratização da universidade deve significar que pessoas pertencentes a grupos que historicamente estavam afastados dela passarão a ter acesso ao conhecimento que nela se produz. E vão enriquecer esse conhecimento a partir de novas perspectivas sociais.
Se a gente abre mão do rigor do trabalho acadêmico, sob pretexto de “inclusão”, na verdade continuamos a excluir; a excluir do acesso ao conhecimento científico.
Porque para fazer um diploma basta uma folha de papel e uma impressora.
A liberdade na universidade não é deixar cada um gritar o que quiser, mas oferecer a todos a oportunidade de manejar as ferramentas que permitem intervir de forma efetiva nas discussões.
É preciso dar um basta nesse tipo de achincalhamento do ambiente universitário. Precisamos romper o cerco de intimidação dos nossos pretensos “aliados” e restaurar critérios acadêmicos sãos, que permitam um debate verdadeiramente aberto e produtivo.
Fonte





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