RITA LOBATO VELHO LOPES
Primeira mulher a se formar em Medicina no Brasil
Rita Lobato Velho Lopes (Rio Grande, 9 de junho de 1866 — Rio Pardo, 6 de janeiro de 1954) foi uma médica, ativista e política feminista brasileira. Nascida prematura de sete meses, a filha de Rita Carolina Velho Lopes e Francisco Lobato Lopes, um rico estancieiro e comerciante de charque gaúcho, é considerada a primeira mulher a se formar e exercer a Medicina no Brasil. Com especialização em obstetrícia, também é titulada como a segunda médica a obter o êxito acadêmico na área em todo o continente sul-americano.
Com o apoio da família, Rita mudou de cidade para enfim dedicar-se ao preparatório e deste modo adquirir chances mais altas de competir no mesmo nível dos concorrentes.
É importante destacar que a independência econômica dos Lobato Velho foi decisiva para que a jovem tivesse acesso ao único caminho até a graduação. Outro fator que tornou possível seu acesso ao curso de Medicina foi o decreto imperial nº 7247, de 19 de abril de 1879. De acordo com o documento, assinado por D. Pedro II, tornava-se proibida a discriminação contra mulheres no ensino superior. Através do decreto, em vigência a partir de 1881, estudantes do sexo feminino poderiam adquirir títulos acadêmicos.
Neste cenário, Francisco Lobato deixou o Rio Grande do Sul e mudou-se com os filhos para o Rio de Janeiro. Em 1884, o pai matriculou Rita e um de seus irmãos, Antônio, no curso de Medicina.
Em um ambiente majoritariamente masculino, como era comum durante o período, três moças destoavam do todo: Ermelinda Lopes de Vasconcelos, Antonieta César Dias e Rita Lobato, que haviam acabado de ingressar na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.
Contrariando as noções pré-estabelecidas de que a educação superior feminina estava condicionada ao magistério como apoio à formação de professoras destinadas a lecionar em cursos primários, as mulheres que ousaram adentrar outros cursos facilitaram o processo educacional de futuras estudantes, que passaram a enfrentar com menor frequência as questões de ordem moral tão populares na época. As influências da ideologia vitoriana que norteavam as ações da sociedade brasileira começaram a ceder espaço para o investimento na profissionalização de acadêmicas do sexo feminino, com o apoio de personalidades como Ruy Barbosa. Em específico na Medicina, as estudantes pioneiras foram responsáveis pela desmistificação de teorias positivistas, deterministas, evolucionistas e higienistas que associavam a mulher ao estereótipo de fragilidade moral e intelectual.
Embora querida pelo diretor Sabóia, antigo dirigente da Faculdade de Medicina, os estudos de Rita foram interrompidos ao fim do primeiro ano pelo conflito entre o irmão e a reitoria da instituição. A causa do episódio, que resultou em agressão corporal e discussões calorosas entre os envolvidos, foi a Reforma Felipe Franco de Sá. A medida alterou o regulamento das escolas superiores e declarou possível a antecipação de exames, entre outras modificações que alguns alunos julgaram prejudiciais.
Na intenção de precaver os filhos contra retaliações pelo ocorrido, Francisco embarcou com a família no navio Vapor Ceará rumo a Salvador. Após a chegada, no dia 14 de maio de 1885, Rita e os irmãos receberam mais uma chance de completar os estudos.
Matriculada no segundo ano da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, Rita estava inicialmente receosa em relação a algum tipo de possível recepção hostil, mas surpreendeu-se com a ternura dos colegas. Além das amizades com os estudantes da nova classe, a jovem era muito próxima dos professores e celebrava eventos e festas nas residências dos próprios intelectuais. Alguns deles, com quem tinha maior proximidade, eram José Pedro de Souza, Manoel Joaquim Saraiva, Antônio Pacífico Pereira e Manuel Vitorino.
Os seis anos de duração do curso de Medicina tornaram-se três devido ao empenho da estudante. Cinquenta dias após a primeira aula, Rita fez uso da norma que a tinha levado até Salvador e requereu o adiantamento de seus exames. Aprovada, continuou a estudar incessantemente e em março de 1886 já estava matriculada no terceiro ano. Cerca de dois meses depois, solicitou um novo adiantamento e foi aprovada mais uma vez. Em julho do mesmo ano a aluna prodígio cursava o quarto período e em outubro realizou as provas que a levariam ao quinto ano. Absurdamente avançada em relação aos parâmetros, decidiu tirar férias e passar cinco meses conhecendo a Bahia. Ao retornar, o quinto período foi completado em dois meses e meio, sendo o início datado em março de 1887 e a conclusão em junho. Na ocasião, aos 21 anos, ingressou e concluiu o sexto período em dois meses, finalizando sua jornada acadêmica em outubro do mesmo ano.
Com notas sempre exemplares nas disciplinas de Física Médica, Química Mineral, Mineralogia Médica, Botânica, Zoologia Médica, Química Orgânica, Histologia, Anatomia Geral e Descritiva, Fisiologia, Anatomia, Fisiologia Patológica, Patologia Geral, História da Medicina, Toxicologia e Medicina Legal, só faltava apresentar a tese de conclusão do curso. Em um auditório lotado, Rita Lobato foi aprovada pela Comissão Revisora em 24 de novembro de 1887 com a tese "Paralelo entre os métodos preconizados na operação cesariana". Menos de um mês depois, em 10 de dezembro, foi consagrada como a primeira mulher formada em Medicina no Brasil durante sua cerimônia de formatura.
A escolha do tema e o recorte atribuído a ele fizeram com que a recém-formada recebesse inúmeras críticas de homens e mulheres que consideravam o conteúdo do documento inadequado. Entretanto, Rita acreditava na subversão de um sistema de atendimento que prezava o pudor em detrimento da saúde. Quando começou a atender, mulheres que se recusavam a ser minuciosamente examinadas por médicos do sexo masculino passaram a frequentar seu consultório.
Família
Rita Lobato era muito próxima dos familiares e do marido, já que estes eram seus maiores apoiadores. Enquanto viva, recebeu a notícia da morte de muitos deles com profunda tristeza.
A mãe, Rita Carolina Velho Lopes, faleceu após dar à luz ao décimo quarto filho. Na época, Rita, aos 17 anos, testemunhou a morte da progenitora em decorrência de uma hemorragia grave gerada por complicações no parto e prometeu nunca deixar que a história se repetisse em suas mãos.
Em carta deixada para a família e lida postumamente, Dona Carolina pedia: “Minha filha, se fores médica algum dia, praticas sempre a caridade”. Tais palavras jamais foram esquecidas e a médica atendeu aos desejos da mãe até o fim de seu exercício na Medicina.
Vítima da varíola, um dos irmãos de Rita faleceu em 1885, aos onze anos de idade.
Em 1898, o mais velho entre os treze irmãos veio a falecer em São Paulo.
A morte do pai ocorreu meses depois, no mesmo ano. Francisco Lobato caminhava ao lado de Rita todos os dias até a faculdade, aguardando o fim das aulas e o retorno da filha sentado em frente à praça da instituição. Por essa e outras razões, a doutora encontrava-se verdadeiramente abalada com o fatídico acontecimento.
Um ano após o casamento da filha, em 20 de setembro de 1926, o marido faleceu.
Movimento feminista
Com a morte do marido, Rita passou a buscar novas motivações e exercícios. Sob influência da bióloga e ativista Bertha Lutz, passou a apoiar o movimento feminista na luta pelo direito ao voto. A partir desse momento, tornou-se parte integrante da causa e teve oportunidade de acompanhar algumas vitórias de perto. O triunfo do Código Eleitoral de 1932 e a eleição da médica Carlota Pereira de Queirós para o Congresso Nacional foram apenas algumas delas.
Política
O envolvimento com a militância feminista levou Rita Lobato ao cenário político. Após filiar-se ao Partido Libertador, a médica disputou, em 1934, o cargo de vereadora de Rio Pardo, no Rio Grande do Sul. Em 21 de agosto do mesmo ano, foi eleita como a primeira mulher a ocupar a posição na localidade.
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