INÍCIO

23 abril 2023

KARL MARX

CLÁSSICOS 

Os pensadores clássicos da sociologia são considerados clássicos por criarem as primeiras bases dessa ciência são eles o filósofo e economista alemão Karl Marx, o sociólogo francês Émile Durkheim e o sociólogo, teórico político alemão Max Weber.






A SOCIOLOGIA DE MARX

A sociologia de Marx possui cinco capítulos, introdução, conclusão e foi escrita por Jean-Pierre Durand, professor de sociologia da Universidade de Évery, autor de livros e artigos sobre temas e problemas ligados à sociologia do trabalho.

Na introdução, após breve apontamento biográfico e acerca das fontes do pensamento de Marx, são expostas as ideias centrais que servem de fio condutor do livro. Segundo o autor, apesar de não ter sido sociólogo, há premissas de uma sociologia na obra de Marx, as quais estão presentes na teoria da exploração, nas teorias das classes sociais e do Estado, apenas esboçadas; e também na crítica da ideologia, da alienação e na teoria do conhecimento elaboradas por este clássico.

No primeiro capítulo - “Teoria da exploração” -, Durand defende que a manufatura e a grande indústria foram o laboratório da sociologia de Marx e Engels, fundadores do marxismo. Ele argumenta que a teoria da mais-valia é a base da sociologia marxista e remete à exploração do trabalho. O autor a reconstrói com referência às categorias: mercadoria, valor de uso, valor de troca, trabalho abstrato, trabalho concreto, capital constante, capital variável, trabalhador livre, força de trabalho, salário, reprodução simples e reprodução ampliada da relação de produção capitalista. Fiel à complexidade da obra de Marx, Durand reitera a objetividade destes conceitos, os quais remetem a um processo histórico concreto que, na Europa, ocorreu com a crise do modo de produção feudal. O modo de produção capitalista separa o trabalhador dos meios de produção e dá origem à mais-valia ou à relação social de trabalho não pago. A força de trabalho é a única mercadoria capaz de produzir valor em mundo de mercadorias, no qual ocorre a generalização da relação de produção capitalista para as diversas formações sociais do planeta, unificando-as em uma mesma totalidade.

Ainda no registro da teoria da exploração, o autor apresenta as categorias mais-valia absoluta, mais-valia relativa e mais-valia extra. Para tanto, recorre à diferença entre taxa de mais-valia (taxa de exploração do capital variável, sendo este a força de trabalho) e taxa de lucro (soma do capital variável e do capital constante, sendo este os capitais e os insumos gastos na produção); e à distinção entre trabalho necessário para a reprodução da força de trabalho (remunerado sob a forma salário) e sobretrabalho apropriado pelo capitalista (trabalho não pago ou mais-valia). Na interpretação de Durand, enquanto a mais-valia absoluta se assenta na diminuição do valor pago à força de trabalho ou no aumento da jornada de trabalho, a mais-valia relativa se funda na redução dos custos da produção de mercadorias necessárias para a reprodução da força de trabalho, mediante a importação delas a um custo mais baixo ou por meio do incremento da produtividade do trabalho. Face à concorrência entre as empresas e os capitalistas, a mais-valia extra é obtida por meio da inovação técnica, capaz de reduzir o tempo de trabalho pago ao trabalhador sob a forma de salário.

O capítulo é encerrado com a discussão teórica sobre a contradição entre forças produtivas e relações sociais de produção, combinação que dá origem ao modo de produção. Contra a ideia de determinação simples das relações de produção pelas forças produtivas, da superestrutura pela infraestrutura, uma interpretação economicista da sociologia de Marx, Durand mostra que, para o próprio sociólogo, a determinação não é exclusivamente econômica, de mão única, mas recíproca em uma unidade contraditória que abrange os termos e engloba outras determinações como o político, o jurídico e o ideológico. O debate moderno superou a disjunção mecanicista destas categorias (infraestrutura e superestrutura), ou seja, a determinação pura e simples da vida social pelo econômico, as quais aparecem de modo imbricado, segundo uma causalidade dialética recíproca em sintonia com a formulação de Marx e contra a caricatura elaborada pelos intérpretes deste clássico.

No segundo capítulo - “Rumo a uma sociologia do trabalho” -, o autor defende a atualidade de algumas observações de Marx atinentes aos processos de trabalho na manufatura e na grande indústria. Estes processos são explicados em referência à cooperação, à divisão do trabalho, à parcelarização das tarefas, à técnica (mecanização e, hoje, automação), às formas de remuneração e à intensificação do trabalho. Marx é atual porque, “embora as técnicas tenham transformado os conteúdos do trabalho, as relações de produção capitalistas permanecem” (Durand, 2016, p. 76). Esse argumento também é demonstrado com base nos elementos presentes na obra de Marx, os quais permitem explicar, de modo crítico, o Taylorismo. A ideia básica consiste em associar a divisão do trabalho com o aumento da exploração capitalista, da extração de mais-valia, já que a produção é social (envolve trabalho vivo e trabalho acumulado), mas a apropriação dos resultados do trabalho é privada.

Neste segundo capítulo, Durand expõe a importância do trabalho como mediação entre homem e natureza e sua determinação histórica como trabalho alienado pelo capitalismo no constructo de Marx, retomando a teoria da exploração. Nele, o autor discorre acerca da importância do trabalho e da técnica para a compreensão da singularidade do gênero humano e da natureza histórica e, por conseguinte, mutável dos seres humanos. Também é discutido o papel desempenhado pelas diferentes modalidades de divisão do trabalho para a dominação do homem sobre a natureza e para a constituição dos modos de produção e das formações sociais, sempre determinados pelas formas de organização e de apropriação do trabalho. A evolução da divisão social do trabalho decorre das trocas e especializa o trabalho para torná-lo mais eficaz; implica distintas formas de cooperação, de técnicas, de propriedade e até de constituição de coletividades humanas, tais como grupos, estamentos, classes sociais e frações de classes.

Durand afirma que, na sociologia de Marx, há uma análise que associa macrossociologia (divisão social do trabalho) e microssociologia (divisão em detalhes do trabalho e cooperação entre operários, modificações do trabalho e mudanças técnicas), assim como uma síntese diacrônica da evolução das sociedades que salienta o papel da divisão do trabalho e das formas de propriedade nas transições de modos de produção. Da manufatura à grande indústria e da cooperação simples à cooperação complexa, ocorreram as principais transformações que deram origem ao modo de produção capitalista e efetivaram a subsunção do trabalho ao capital. O capitalismo como relação social promove um processo constante de expropriação dos trabalhadores que, além de livres - no sentido de terem perdido os meios de produção -, têm também subtraídas suas habilidades e conhecimentos laborais, tornando-se meros apêndices das máquinas. A cooperação cria uma força comum (o trabalhador coletivo) que expande a eficácia do trabalho individual, porém beneficia exclusivamente o capitalista, já que este paga apenas o trabalho realizado de forma individual, a despeito de mobilizar e usar uma força de trabalho coletiva.

A cooperação se torna complexa na grande indústria, e a organização dos processos de trabalho uma necessidade imperiosa de reduzir os custos das mercadorias e proporcionar o aumento da extração de mais-valia e o incremento da taxa de lucro. A simplificação cada vez maior das tarefas do trabalhador coletivo na manufatura, e depois na grande indústria, são modos mais eficazes de usar a força de trabalho e, por conseguinte, retirar uma quantidade de mais-valia suplementar. Com a grande indústria, a ciência se torna uma força produtiva a favor do capital, oferecendo métodos para organizar o trabalho dos operários e expropriar as habilidades profissionais do trabalhador, as quais formam a base da manufatura. A grande indústria, pautada na mecanização, torna o trabalhador mero cuidador de um mecanismo que executa as ferramentas e as habilidades, antes em poder de suas mãos, tornando-o um apêndice da máquina-ferramenta.

Para a sociologia de Marx, conforme Durand, a mecanização é um meio de baratear a produção de mercadorias e, por conseguinte, de produzir mais-valia relativa, isto é, reduzir o custo da força de trabalho com o barateamento do custo das mercadorias necessárias à sua reprodução. Tanto a mecanização quanto a automação são formas de subordinação técnicas do trabalho ao capital. O desenvolvimento tecnológico é responsável pelo aumento da produtividade do trabalho, e ambos são acompanhados pelo aumento da jornada de trabalho dos assalariados, ou seja, o aumento da taxa de exploração ou de mais-valia.

No terceiro capítulo - “Classes, Estado e luta de classes” -, o autor apresenta algumas das contribuições de Marx para a sociologia política. Em resumo, o capítulo desenvolve algumas ideias básicas. O conflito entre capital e trabalho é o fundamento da sociedade burguesa na teoria de Marx não sistematizada sobre as classes sociais. Essa sociedade, a despeito da centralidade deste conflito, é compreendida para além da polarização entre burguesia e proletariado. Durand identifica sete classes e frações de classe que se opõem e se aliam, conforme cada conjuntura ou situação histórica concreta nos textos de análise histórica deste clássico. O conflito entre capital e trabalho também é central para a explicação dialética do Estado, mecanismo por excelência da dominação da burguesia, na medida em que garante a propriedade privada dos meios de produção e a reprodução da ordem do capital, devendo se converter em seu contrário na luta de classes protagonizada pelos trabalhadores. O Estado se transformará em arma de opressão contra a burguesia sob a ditadura democrática do proletariado, dominação da maioria sobre a minoria, até que ele próprio, com a mudança nas condições objetivas da sociedade, perca suas razões de existir e desapareça.

O quarto capítulo - “Ideologia e produção social dos conhecimentos” - versa sobre a contribuição de Marx para a teoria do conhecimento e para a sociologia do conhecimento. A discussão tem como referência a oposição entre conhecimento científico versus ideologia e alienação, ambas vistas como empecilho para o conhecimento da verdade.

O conhecimento científico proposto por Marx está centrado na categoria práxis - atividade humana concreta, meio de conhecimento e prova da veracidade da teoria -, teoria que tem como objetivo último a transformação radical. Durand recorre a Lefebvre para elucidar a categoria práxis na obra de Marx. Tanto o conhecimento científico quanto o indivíduo não podem ser explicados sem as relações sociais que os constituem. O materialismo dialético propõe um modo de conhecer atento ao movimento, à contradição, à mudança, à apropriação do real que o reproduz como concreto pensado.

O conceito de ideologia é usado em registro negativo - na chave de Althusser - associado à dominação pela exploração do trabalho e ao desconhecimento do mundo social e histórico. A ideologia é como uma nuvem mística que oferece uma imagem errônea do movimento do real, criando representações distorcidas das condições concretas de existência dos trabalhadores.

A alienação também é uma categoria inerente à exploração do trabalho na medida em que o trabalhador não dispõe do resultado de seu trabalho, o qual lhe é estranho. Porém, o autor recusa a ideia de “ruptura epistemológica” na obra de Marx, defendida por Althusser, ao versar sobre a categoria alienação. Segundo ele, a alienação também ocorre no plano da subjetividade, pelo consumo e pela criação de novas necessidades que amolecem as relações de classe e de exploração do trabalho.

Durand argumenta que temas desenvolvidos na década de 1960, como sociedade de consumo e aburguesamento da classe operária, estão anunciados nos manuscritos de Marx de 1844, assim como a sociologia do trabalho que surge no pós-guerra e tem como referência fundamental as categorias de Marx.

No quinto capítulo - “Marx hoje” -, Durand procura evidenciar a atualidade das ideias de Marx, retomando a questão das classes sociais e do Estado. Da perspectiva da experiência histórica francesa, elucida a questão da dificuldade da polarização social entre as classes (burguesia e proletariado) e a “medianização” ou aumento da classe média, das necessidades, do consumo e de novas mercadorias que amortecem a relação de classe e o conflito entre capital e trabalho. Em seguida, Durand aborda os marxistas franceses e a questão do Estado, destacando a crítica da concepção instrumentalista que o vê apenas como instrumento de uma classe social, com base em Althusser e Poulantzas. Autores como Boudon e Aron, que não pertencem ao campo marxista, são trazidos à análise crítica de Marx.

O livro de Durand sobre a sociologia de Marx, ao se apoiar em outros autores marxistas e em críticos de Marx, evidencia a força constitutiva dessa obra, um clássico que se prolonga tanto em termos de seus continuadores quanto de seus críticos. Porém, o critério de seleção destes autores não considera as distinções e os conflitos de interpretação da obra de Marx no próprio campo marxista, que não é homogêneo. Althusser e Lefebvre são citados por Durand sem que as polêmicas e as diferentes interpretações de Marx, feitas por esses autores, sejam ponderadas. A forma de exposição, assentada em categorias presentes na sociologia de Marx, leva o autor a um ecletismo mal temperado que, ao falar da ideologia, se pauta no estruturalismo de Althusser e, ao discorrer sobre a práxis, recorre ao historicismo de Lefebvre. A seleção dos autores marxianos operada por Durand é mais problemática pela falta de mediação do que propriamente pelos autores selecionados, já que Lenin, Althusser, Balibar, Lefebvre, Lukács, Gramsci, entre outros, continuam sendo lidos nos círculos marxistas brasileiros (2).

Além disso, o livro de Durand perde força argumentativa por se persuadir com críticas externas que não fazem jus às nuanças, à envergadura e à complexidade da obra de Marx. Algumas críticas, que são motivos de inúmeras polêmicas, são mencionadas de forma superficial, tais como a imputação da ideia de progresso e de evolucionismo; e de uma suposta abordagem teleológica da história. Por exemplo, a sua obra teria esposado a ideia conforme a qual “cada organismo, fosse ele biológico ou social, encaminhava-se para um nível de organização superior” (Durand, 2016, p. 12). Nada mais distante da visão dialética do sociólogo: aquilo que é contingente nega a si mesmo, transformando-se em algo diverso. Há uma diferença profunda entre as maneiras positivista e dialética de conceber o mundo, pois para a última o movimento se dá pela negação do existente, não havendo nada que conserve as coisas idênticas a si mesmas ou que garanta um determinado sentido para a história. Não há evolução sucessiva nem cumulativa para Marx, pois a própria objetivação que exprime as formas sociais se dá de modo contraditório, e essas são também contraditórias e históricas, portanto à mercê das contingências.

Durand também faz uma assepsia da obra de Marx ao buscar nela uma sociologia, dissocia o científico do político e contraria o próprio princípio epistemológico que orienta a obra desse clássico. Tal como ocorre com os intérpretes brasileiros, essa leitura enfatiza aspectos parciais em função de diferentes motivações; mudam-se as formas de apropriação, os problemas de fundo, as filiações e as interpretações teóricas. De forma diferente, nas interpretações mais tradicionais do Brasil que se apropriam de Marx, verifica-se:


[...] a valorização do tema da vontade política como recurso da superação da disjuntiva atraso/moderno, tendo motivado - principalmente nos círculos extrauniversitários - uma leitura que privilegia os seus textos políticos que, por sua vez, contemplam a possibilidade de saltos revolucionários, dá curso a um marxismo cujo paradigma é a Rússia, enquanto a preferência pela análise do processo de imposição do capitalismo no Brasil, como na grande reflexão social paulista, conduz a uma maior aproximação com o modelo de O capital com base no paradigma inglês. (Vianna, 1999, p.174).

O fato é que desde o ensaio Agrarismo e industrialismo de Octávio Brandão (1926), passando por Evolução política no Brasil de Caio Prado Júnior (1933) e pelo famoso “Seminário Marx” na Universidade de São Paulo no final dos anos 1950, a obra deste clássico tem sido objeto de interpretações, com intenções diversas por militantes, cientistas sociais, historiadores, economistas, no campo do Direito, do Serviço Social, entre outros. As inúmeras apropriações permitem falar de uma tradição marxista brasileira com suas diferentes escolas, a qual tem produzido obras mais rigorosas e didáticas que a de Durand(3), embora muitas delas não tenham esse propósito. Para que o leitor tenha ideia da recepção diferente das teses de Marx no Brasil, em descompasso com a leitura de Durand, a discussão sobre mais-valia relativa e mais-valia absoluta serviu menos para entender os mecanismos de exploração do trabalho pela economia capitalista do que para entender o surgimento do capitalismo na sociedade brasileira por meio dos debates sobre modos de produção (4). Assim, temos também Marx, que tem servido para dizer algo sobre nós como formação social.


ALGUMAS FRASES

É certo que as armas da crítica não podem substituir a crítica das armas, que o poder material tem de ser derrubado pelo poder material, mas a teoria converte-se em força material quando


penetra nas massas. A teoria é capaz de se apossar das massas ao demonstrar-se ad hominem e demonstra-se ad hominem logo que se torna radical. Ser radical é agarrar as coisas pela raiz. Mas, para o homem, a raiz é o próprio homem.
(Karl Marx, 1843-1844)


Nunca a ignorância ajudou a quem quer que fosse!
(Karl Marx, 1846)


Se não encontrássemos veladas na sociedade, tal como ela é, as condições materiais de produção e as correspondentes relações de intercâmbio para uma sociedade sem classes, todas as tentativas para explodi-la seriam quixotescas.
(Karl Marx, 1857)


As relações de produção burguesas são a última forma antagônica do processo de produção social, antagônica não no sentido de um antagonismo individual, mas de um antagonismo que nasce das condições de existência sociais dos indivíduos; as forças produtivas que se desenvolvem no seio da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as condições materiais para resolver esse antagonismo. Com essa formação social termina, pois, a pré-história da sociedade humana.
(Karl Marx, 1859).





OS CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA E NÓS: REFLEXÃO SOBRE TRÊS LIVROS PARADIDÁTICO. ricardo Ramos Shiota. 

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