Textos de filósofos de autores importantes
Os olhos recebem passivamente, com prazer ou desprazer, contanto que estejam abertos, verdadeiras sarabandas de figuras, formas, cores, nuvens de átomos luminosos que se ofertam, em danças e volteios vertiginosos, aos sentidos do homem.
E o efeito desse encontro deslumbrante pode ter um nome: conhecimento. Para conhecer basta abrir bem os olhos em um espaço iluminado e acolher os levíssimos e agílimos ícones do mundo. Conhecer é estar imerso em um oceano de partículas cintilantes e nele engolfar-se sensualmente. Conhecer é ser invadido e habitado pelas imagens errantes de um cosmos luminoso. A poesia desta matéria está em Lucrécio cujo poema De rerum natura (1 a.C.) se detém na descrição das "efígies das coisas", que jorram dos corpos e se põem a vagar pelo
espaço. E "o movimento eterno que arrasta os átomos espontaneamente no espaço" ("sponte sua volitant aeterno percita motu"; IV, 28).
Ou então: De todos os objetos existe o que nós chamamos simulacros: espécies de membranas leves destacadas da superfície dos corpos, e que volteiam em todos os sentidos pelos ares. E tanto na vigília como no sonho são as mesmas imagens cuja aparição vem lançar o terror em nossos espíritos (IV, 32-41).
Como a teoria lucreciana é atomista, as partículas (corpora) ferem os nossos olhos, daí produzindo o fenômeno da visão: "corpora quae feriant oculos visumque lacessant"
(IV, 217). Poesia materialista, poesia cósmica, poesia de uma luz que se oferta ao homem e toca os seus sentidos, pois "é a mesma causa que move o tato e a vista" (consimili causa tactum visumque moveri''; IV, 233).
É preciso partir do mundo para o sujeito: "é nas imagens que parece residir o princípio da visão, e sem elas nenhum objeto nos pode aparecer" (IV, 237-38).
O que fascina o leitor moderno é apreender a vitalidade perpetuamente em ato dessa matéria produtora de sensações: “De todos os corpos escoam e se espalham em todos os sentidos emanações variadas; eflúvio sem trégua nem repouso” (nec mora nec requies interdatur ulla fluendi / perpetuo quoniam sentimus et omnia semper / cernere, odorari licet, et sentire sonare; IV, 226-29).
Tradução na íntegra: Eflúvio sem trégua nem repouso, já que nossos sentidos estão sempre afetados por ele, e de todos os objetos podemos sempre perceber a forma, o perfume, o som.
Nessa epistemologia dos sentidos, estes, a rigor, nunca erram: apenas registram a torrente das partículas, apenas recebem a chuva dos simulacros.
Quem pode errar, por "animi vitium" é o juízo que interpreta falsamente o que os sentidos candidamente lhe concedem.
[...] nec possunt oculi natura noscere rerum; proindi animi vitium hoc oculis ad fingere noli' (381-82).
Tradução: "[...] os olhos não podem conhecer as leis da natureza; por isso, não queiras atribuir à vista o erro do espírito".
Mas pode o espírito ir além da aparência?
A Lucrécio não importa a pergunta sobre a identidade do ser "sob'' os simulacros mutantes. Ao artista só lhe interessa o espetáculo das efígies errantes, céleres imagens emanadas sem cessar pelos corpos luminosos.
Não é ocioso lembrar que a física clássica do século XVII, 1700 anos depois de Lucrécio, ao repropor a teoria atomística, não diz outra coisa a respeito da operação visual:
Até quanto posso entender, nós conhecemos o mundo porque as partículas dos objetos ferem os nossos olhos" , afirma Locke, no Ensaio sobre o conhecimento humano, de 1690. Esse olhar para o turbilhão de partículas não induz à contemplação de qualquer
“sentido” inerente ao cosmos ou à vida dos homens. Não se divisa um itinerário, nem parece haver um telos além do caminho temporal entre dois simulacros, percurso da luz à treva, do nascimento à morte.
"A vida é um percurso de luz' (IV, 1042). O nascer é um vir às praias da luz. Morrer é perder a luz, voltar as costas para a luz. É um mundo de emissões e dispersões luminosas, que se apaga para os que morrem.
Nada depende da consciência; nada obedece à sua vontade. Graças a Vênus, força do amor, os homens "podem aportar às margens divinas da luz”, metáfora belíssima do nascer.
Viver é olhar essa luz, por breve mas belo tempo.
Diversamente de Platão, cujos discípulos sempre foram inimigos dos epicuristas, Lucrécio não encerra o homem na caverna onde não chegam senão sombras e reflexos do mundo: ao contrário, o curto e intenso lapso de vida que coube em quinhão a cada mortal é iluminado com as graças da luz e o dom da visão; a morte, sim, é que apagará os brilhos do espetáculo, e então virá a treva para sempre.
"Decurso lumine vitae" (IV, 1042).
A luz semeia os campos, inunda os ares, dissemina-se, tinge-se de cores, floresce, ri. O visível é uma epifania tão sagrada que não precisa dos deuses, e o céu, pacificado, esplende de luz difusa (placatum que nitet diffuso lumine caelum 1, 9).
Coerente, o olhar que vê o nascer para a luz contempla também o mergulhar na treva. Antropologia e cosmologia influem-se reciprocamente.
Mundo sem telos, vida sem sentido. Só a morte não morre nesse perpétuo ciclo de nascimento e destruição. "Esta vida mortal a morte imortal a destruiu"' ("Mortalem vitam mors cum imortalis ademit'; III, 869).
O mundo imaginado por Lucrécio é um móvel espetáculo de emissões e dispersões luminosas. Emissões de partículas miudíssimas que, concebidas pelo atomismo pré-socrático (Leucipo de Mileto, Demócrito de Abdera), não podem deixar de evocar em nós, homens do século XX, as teorias do átomo, dos elétrons, dos prótons, dos mésons, do neutrino e do quark.
O olho, único sentido capaz de reconhecer a aparência da matéria, já não consegue ver a sua estrutura. Precisa imaginá-la.
O que é para o olho a informação de que o ele-tron tem 1/1837 da massa do próton? O que é, para o olho, o "neutrino" ,partícula elementar de carga e massa nulas?
Vamos a Lucrécio: "Quantula sunt!": "Quão pequeninos são!" (IV, 120). "Nonne vides quam sint subtilia quamque minuta?";
"Não vês o quanto são sutis, e quão miúdos?". Fala dos elementos de que seria formada a substância da alma.
Esse olhar ingênuo e poético do escritor antigo potencia-se no olhar dotado de microscópios e de teorias matemáticas complexas.
O núcleo dos átomos seria 10 mil vezes menor do que o próprio átomo, segundo os cálculos de Rutherford. E ao longo do século XX vêm sendo propostas como reais não poucas partículas subatômicas, das quais fazem parte das verdades físicas os elétrons, os prótons e os nêutrons (quantula sunt!), mas que não cessam aí.
Lê-se na História das ciências publicada pela Universidade de Cambridge:
Com a descoberta dos neutrinos, mésons e outras partículas ainda mais esotéricas, como “as partículas de estranheza” (fator imaginado para explicar os resultados peculiares observados nas colisões de partículas subatômicas de velocidade muito alta), a teoria do átomo e de suas partes constituintes entrou, desde meados da década de 1950, em uma fase nova e complexa. Novas partículas nucleares proliferaram, com a inevitável conseqüência de que os físicos passaram a procurar unidades básicas ainda mais fundamentais. De fato, três novas partículas (e suas acompanhantes antipartículas) foram propostas e foram chamadas de quarks, palavra tirada de uma passagem do livro Finnegans Wake, de James Joyce, embora em alemão a palavra quark tenha também o significado coloquial de “nada”. Até o momento em que este livro foi escrito (1982), nenhum quark foi ainda observado.
“Quantula sunt! Nonne vides quam sint subtilia quamque minuta?”
Esta aproximação entre as intuições de Epicuro e Lucrécio e as hipóteses atômicas nos faz pensar no papel da imaginação científica, que foi primeiro fantasia especulativa entre naturalista e poética, e que hoje nos dá a vertigem de enxergar na matéria o nada ou o quase-nada como seu momento constitutivo.
O olhar antigo captou o movimento sob as aparências da matéria corpuscular. O olhar científico moderno procura descrever, e até nomear, a energia; daí a caça a essas partículas infinitesimais para cujo entendimento parece inadequado usar o conceito de "massa". E para as quais tem sido, afinal, necessário propor a noção de “antimatéria”.
O olhar poético se prolonga e se aguça na teoria atômica que vai infinitamente além do olho orgânico.
Lucrécio olhou para o mundo ao seu redor e maravilhou-se diante do infinito em movimento, fonte de uma alegria de viver breve, mas intensa, que emana de seus versos com uma nitidez adamantina.
Hoje, a última ciência, para descrever essa energia operante no coração da matéria, precisa inventar palavras; e vai em busca dos inventores de palavras, os poetas como James Joyce, e deles empresta um som sem sentido. Quark: nada. Alguma coisa a ciência aprende da ficção quando pretende chegar ao realismo absoluto.
DE PITÁGORAS À GNOSE: O OLHAR QUE TRANSCENDE O OLHO
Contemplando a mesma natureza vista pelos epicuristas, o olhar filosófico pode conceber, em vez do plural vertiginoso, o uno. Em vez da dispersão que atordoa, a concentração.
Em vez de milhões de partículas mutantes, um Ser primordial, que a tudo precede e a tudo transcende, Uno-Todo.
Essa unidade, difícil de apreender na sarabanda dos fenômenos, poderá ser conhecida pela experiência interior. É a mente que se espelha e se confirma na sua eterna identidade consigo mesma.
Fora, no mundo, há também um caminho para o uno: É o que se trilha meditando sobre as propriedades imutáveis das coisas mutáveis.
A forma, que a geometria extrai e desenha. O número, que a matemática determina.
Dentro, a mente pura, lisa, sempre a mesma. Fora, as linhas claras e perfeitas.
O mundo é transparente para a mente translúcida.
Esse pensamento, que se gesta entre os órficos e os pitagóricos (dos quais conserva o selo místico e o corte matemático), será elaborado pela dialética de Platão, encontrará ressôos eloqüentes em Plotino e marcará o veio gnóstico, dualista, de toda a filosofia neoplatônica, em parte absorvida por santo Agostinho.
O seu fundo é religioso e vem à tona pelo movimento, que lhe é inerente, de buscar no espírito a superação da finitude carnal, aliviando o filósofo da angústia da morte. A "morte imortal"' de Lucrécio.
Fixar o olho da mente nas formas puras é o método que conduz ao resgate da alma ameaçada pela desagregação do corpo. Transcender o olho físico é ter acesso a um mundo que desconhece a lei da morte.
O platonismo é a educação desse outro olhar.
Nem todo olhar disporia da mesma capacidade de contemplar.
Há o olhar-sensação, o ser tocado pelos raios da luz, matéria privilegiada da teoria sensista; mas esse ver-sentir é precário, segundo a tradição pitagórica que Platão recolhe. Precário porque não consegue dar, por si só, a idéia da coisa, o eidos que enforma cada ser. Dá-nos apenas uma sua aparência, reflexo diminuído, sombra insubsistente da essência imutável.
Dá-nos o eidolon, a imagem, o simulacro, não a forma imperecível que o geômetra intui com o seu olhar capaz de abstrair dos objetos, que passam, os formatos, os números, as propriedades invariáveis.
Com o número o geômetra pode pensar, liberto da contingência dos fenômenos, importuna, solicitante, dispersiva.
"Quem não vê que a relação entre o lado do quadrado e a sua diagonal é um número incomensurável, não é digno de entrar na Academia."
Geometria: porta de entrada de uma filosofia racional, pura. A cegueira, diz Sócrates no Fédon, é a perda do olho da mente.
O dualismo está solidamente implantado: corpóreo e espiritual estão entre si como o enganoso e o veraz, o perecível e o eterno, o múltiplo e o uno.
A opacidade dos corpos é um obstáculo que a virtude ascética, tanto quanto a razão matemática, deverá transpor.
E qual é a atividade própria da contemplação? Lembrar. A doutrina da anamnese funda-se na possibilidade de uma visão mental que alcança os reinos do pretérito, vencendo, neste seu ato, os limites do presente, que é finito e mortal como todo tempo corpóreo.
Quem lembra, enquanto lembra, está triunfando sobre a morte. A reminiscência é o sol dos mortos. Lucrécio negava a possibilidade da memória de vidas pregressas, pois o lapso de tempo que vai de um organismo que já pereceu a outro que está nascendo apagaria, sem remissão, as marcas deixadas nos olhos pelos simulacros das coisas. O esquecimento seria o efeito natural da “mors inmortalis”.
No polo oposto, a memória platônica só é possível porque postula uma energia interna capaz de resistir ao esvaimento das sensações.
De um lado, memória, luminosidade do espírito e sobrevivência chamam-se completam-se. De outro: esquecimento, opacidade, morte. Duas dimensões da existência, dois olhares.
O OLHAR SOB SUSPEITA E O SEU RESGATE
Marxismo e psicanálise são escolas de suspeita. Nem é confiável a percepção "ideológica com que o olho burguês vê a sociedade (é a crítica dialética às ilusões da consciência reificada); nem tampouco o olhar do ego, repuxado entre o id e o superego, está isento de projeções, repressões e desvios de toda sorte (crítica freudiana à ilusão idealista do sujeito onisciente).
Marxismo e psicanálise nos mostram, por vias diversas, um homem enredado nas malhas da sua classe, da sua cultura, da sua constelação familiar, da sua infância, da sua educação, do seu próprio corpo.
O olhar, para ambos, não se parece nada com aquele foco de luz permanente e intangível que o pensamento clássico idealizou para a segurança da sua própria visão da natureza e da sociedade.
O que sobra são centelhas intermitentes que mal se desprendem da maciça opacidade dos corpos físicos e sociais. Mas é dessa chama sempre na iminência de extinguir-se, e é de suas luzes sempre em perigo de apagar-se que se ocupa a fenomenologia.
A crise na ordem das certezas (que, de um certo ponto de vista, começara com o criticismo de Kant) marca a passagem da Era das Luzes para a era da suspeita. E nesta que têm a sua hora o pensamento de Marx, de Kierkegaard, de Nietzsche, de Freud, de Max Weber, de Heidegger, de Sartre. Aí se vê o selo da nossa contemporaneidade: um olhar que já não absolutiza o cogito, porque o situa no interior de uma existência finita e vulnerável, mas sempre inquieta, interrogante.
É possível que a relativização do cogito se deva, em boa parte, à mudança do ei. xo de interesse da filosofia pós-clássica, a qual se deslocou das verdades matemáticas, tidas por matriciais, para a consideração do homem em sociedade, espírito limitado pelo tempo, ser de carne e osso. Então, foi preciso refletir sobre a constituição do ou. tro, não mais como objeto, mas como sujeito. A psicanálise, a sociologia do saber, a antropologia cultural e alguns veios da fenomenologia da existência habitam esse es.
paço comum. A cavaleiro entre as duas eras e os dois olhares ergue-se a Fenomenologia do espírito.
E se a Razão cartesiana se aplicara a erigir o eu cogitante, grávido de si mesmo, o pensamento pós-idealista começou a escavar aquele solo de relações em que o eu e o ou. ito se formam, se opõem e se juntam, impelidos pela necessidade, aliciados pelo desejo, temerosos da dor, reclusos no breve tempo que vai do nascer ao morrer, mas abrindo, entre o acaso e o possível, clareiras para o conhecimento e a ação.
Sartre, na terceira parte de “O ser e o nada”, intitulada "O para o outro', toca a certeza da existência do próximo após uma longa análise do fenômeno do ser olhado.
Ressalto, de imediato, o que mais me chamou a atenção ao ler o texto sartreano (ao qual, aliás, não faltam traços cartesianos): foi a dupla qualidade, perceptual e expressi-va, que está implícita no seu tratamento do olhar. O olhar aqui não é apenas uma luz que conhece, mas uma força que penetra no ser olhado, ferindo-o, tolhendo a sua liber-dade, esvaziando-o, dessangrando-o, tangendo-o para o nada.
Olhar e ser olhado, atividade e passividade, exercem-se em um campo de forças onde o poder e o conhecer se fundam mutuamente.
Sei que o outro existe porque sofro a ação da sua liberdade, a qual, por sua vez, quando exercida por mim, é o único critério válido para que eu aceda à certeza da minha própria existência.
O outro é uma liberdade que pode invadir a minha; logo, o outro existe. O olhar é a expressão mesma desse poder.
Esta é a linguagem da finitude e da angústia, tomando-se a palavra no seu sentido forte, grego, de "vale estreito', "passagem sufocante" e, daí, transcendência ameaça-dora. Como não lembrar o episódio do Ateneu de Raul Pompéia, em que o narrador
Sérgio evoca o terror de que foi possuído quando o professor o chamou ao quadro negro diante dos olhares ferinos de todos os colegas? O sentir-se olhado levou-o à perda dos sentidos, ao vexame supremo do desmaio. Minutos antes, porém, fora ele que dirigira aos meninos o seu olhar mordaz, que nada poupava e os reduzia a figuras caricatas, a grotescos fantoches. O olhar ferino é ferido no ciclo da bellum omnium contra omnes.
Como distinguir aqui, nas fibras da situação vivida, o poder e o conhecer?
"O basilisco, dissera Leonardo - é dotado de tanta crueldade que, quando com a sua vista venenosa não pode matar os animais, volta-se para as ervas e para as plantas, e fixando nelas o seu olhar, as faz secar."
Na cultura popular, que a fala cotidiana reatualiza, os olhos não só vêem ou perce-bem, mas querem absolutamente. Os olhos não só cogitam, mas cuidam do mundo ("cuidar'" vem do latim "cogitare"): "Meu pai não precisava dizer nada para a gente obedecer. Bastava um olhar!'
A análise sartreana confirma (por vias diferentíssimas) a exigência de Goethe, pela qual o conhecimento dos seres vivos e, em particular, do ser humano, não se deve reduzir ao olhar físico-algébrico.
Uma ciência das coisas e de suas propriedades não é uma ciência de homens. Ver coisas opera com uma intencionalidade que não é a mesma com que se vêem pessoas. A coexistência e a co-naturalidade que se dão entre sujeitos reque-tem modos de observar e de pensar rigorosamente afins aos processos interpessoais. A hermenêutica os chamará de compreensão e interpretação.
E também verdade que esse olhar expressivo, esse olhar-linguagem do discurso existencial, aparece, à luz do pensamento contemporâneo, gravado pelas escolas de suspeita que, afinal, melhor o descreveram. E um olhar que já sofreu a redução ideológica de Marx, já veio afetado pelo conhecimento da vontade de poder que nele descobriram Schopenhauer e Nietzsche, enfim já nos apareceu comprometido com as motivações inconscientes acusadas por Freud. Ao contrário do olhar racionalista, que reinou soberano por dois séculos, este olhar já nasceu filosoficamente humilde, pois se sabe cativo no emaranhado das necessidades e dos impulsos.
Entretanto, foi esse olhar, plantado no corpo, que, casando mente e coração, al-ma, olhos e mãos, tornou possível o gesto da arte. Se ele não pulsasse no fundo da visão cristã de pessoa, nem Dante, nem Giotto poderiam ter plasmado as suas sínteses de pensamento e som, oração e cor, espírito e forma. A pintura não teria aliado a primeira verdade dos sentidos ao rigor da coisa mental da perspectiva, se o olhar, ao mesmo tempo corpóreo e ideal da Renascença, não entrasse a refazer a paisagem do mundo e a face dos homens.
Conhece-se a leitura que Merleau-Ponty faz da criação plástica. E uma operação de resgate desse olhar sintético e primordial do ser humano; olhar que, com outra filosofia, Croce denominava "auroral", e que sentindo conhece, conhecendo sente, formando exprime, exprimindo forma.
Desde o prólogo à Fenomenologia da percepção (1945), Merleau-Ponty postulava a necessidade de o filósofo acolher generosamente em si o mundo "já dado", o mundo que Husserl intuíra como o "pré-categorial", o mundo que "já está aí". Essa misteriosa realidade (no entanto, familiar e cotidiana) é a nossa escola do olhar, e o seu método encontra na descrição do fenômeno pictórico um terreno fértil de exercício.
Diversamente da posição agônica do Sartre de O ser e o nada, Merleau-Ponty começa por abrir-se ao olhar do outro, que, como o meu olhar, vive mergulhado no espaço fluido e aberto da visibilidade. Assim, o primeiro passo é estético (esfera onde o sensível já tem um sentido imanente), e não "abstrativo" , na acepção de "objetualista". O olhar fenomenológico vai descobrindo, perfil a perfil, os aspectos coextensivos ao olho e ao corpo, ao corpo e ao mundo vivido.
A descrição mais rica (embora nunca totalizada) desse olhar seria a que conjugasse o tempo todo, sinóptica e sinfonicamente, a visão e o corpo visto. O pintor realiza, no traçado de uma linha ou no matiz de uma cor, um enlace de olhar e mundo olhado, amar e mundo amado. Daí o seu papel exemplar no interior do discurso fenomenológi-co. Merleau-Ponty lembra o desabafo de Cézanne: "Que vão para o diabo aqueles que duvidam de que, unindo um verde matizado com um vermelho, se entristece uma boca e se faz sorrir a maçã de um rosto". E o filósofo sublinha: "'Esta revelação de um sentido imanente ou nascente no corpo vivo se estende a todo o mundo sensível, e nosso olhar,
Fontes
(Alfredo Bosi, 1988. Fenomenologia do olhar. In: Novaes, A. O olhar. São Paulo, SP, Companhia das Letras, 1988).
M. Chaui
Ver as palavras. Delas chegar perto. Contemplá-las: antes do poema são coisas visuais e, como todo visível, "tem mil faces secretas sob a face neutra'. Antes que espa-,lhem sentido e beleza, antes que falem, vejamo-las em sua mudez. Acerquemo-nos delas "em estado de dicionário". Quais escolheremos? Aquelas que nos fazem ver o vínculo secreto entre o olhar e o conhecimento. Até mesmo aquela que o designa na filosofia, teoria do conhecimento, pois théoria, ação de ver e contemplar, nasce de théorein, contemplar, examinar, observar, meditar, quando nos voltamos para o théorema: o que se pode contemplar, regra, espetáculo e preceito, visto pelo théoros, o espectador.
Na ampla gama do espectro que vai de phaós (luz, luz dos astros, luz do dia, luz dos olhos, flama, vir à luz, nascer, vivente) a phaios (sombrio, cinza, escuro, luto), da luz à treva, da vida à morte, espalham-se as palavras do visível: ta phaea (os olhos), que pitagóricos e platônicos chamarão de faróis, "os olhos portadores de luz"; phantós (o visível e o que pode ser dito ou manifestado pelas palavras), a linguagem sendo uma forma da visibilidade; phaedo (o sol), phaeino (brilhar, irradiar, iluminar), phaidos (briIhante, luminoso, claro, sereno, puro, alegre), phaidrôo (fazer brilhar, tornar radioso, alegrar), phaino (fazer brilhar, fazer aparecer, mostrar e mostrar-se, manifestar e manifestar-se, dar a conhecer o caminho, guiar, dar a conhecer pela palavra, explicar), bhainómenos (visivelmente, manifestamente, claramente), donde virão fenômeno (e seu conhecimento: fenomenologia), fantasia, fantasma, fantástico, assinalando o parentesco que enlaça visão, imaginação e palavra como resultados do ato da luz. Óphis é ação de ver e sua sede, a vista, mas é também espetáculo, aparição, sonho, visão e visão místi-ca; e, conjugado no perfeito, é aspecto exterior, aparência do visto. Opheio é desejar ver, ser curioso e ávido - a curiosidade, dirá santo Agostinho, é afecção primordial dos olhos, que se dizem to ósse, sede do ato visual. Orão é ver com olhos atentos e fixos, exa-minar, ver com o espírito, e oratistés é o visionário, donde, para nós, oráculo.
Continuará...
O OLHAR SOB SUSPEITA E O SEU RESGATE
Marxismo e psicanálise são escolas de suspeita. Nem é confiável a percepção "ideológica com que o olho burguês vê a sociedade (é a crítica dialética às ilusões da consciência reificada); nem tampouco o olhar do ego, repuxado entre o id e o superego, está isento de projeções, repressões e desvios de toda sorte (crítica freudiana à ilusão idealista do sujeito onisciente).
Marxismo e psicanálise nos mostram, por vias diversas, um homem enredado nas malhas da sua classe, da sua cultura, da sua constelação familiar, da sua infância, da sua educação, do seu próprio corpo.
O olhar, para ambos, não se parece nada com aquele foco de luz permanente e intangível que o pensamento clássico idealizou para a segurança da sua própria visão da natureza e da sociedade.
O que sobra são centelhas intermitentes que mal se desprendem da maciça opacidade dos corpos físicos e sociais. Mas é dessa chama sempre na iminência de extinguir-se, e é de suas luzes sempre em perigo de apagar-se que se ocupa a fenomenologia.
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