RESISTÊNCIA
O comum é a dádiva da natureza que compartilhamos como necessidade vital, o que na tradição política era considerado a herança da humanidade que deve ser compartilhada em comum a fim de garantir a existência humana.
Segundo Ramos (2014) o pensamento de Aristóteles representa uma notável contribuição à filosofia política no que diz respeito à qualificação do homem como um ser que realiza os seus mais altos fins na relação indissociável com a comunidade (polis) na efetivação de um bem comum.
Aristóteles desenvolve a tese de que o ser humano é um animal político é desenvolvida nos diversos aspectos como: o modo como esta é realizada na comunidade política, na qual o logos se manifesta como atividade discursiva compartilhada; o cultivo de determinadas virtudes ético-políticas presentes na convivência humana, sobretudo, a amizade; a autossuficiência do cidadão e o seu vínculo com a autarquia da comunidade política. A retomada de um moderno conceito de comunidade, na tentativa de reatualizar os princípios gerais do comunitarismo aristotélico, pode ser compatível com determinadas teses liberais, sobretudo a questão da liberdade (autonomia) individual e o fato do pluralismo ético e político nas sociedades modernas.
Também é comum, o que a sociedade produz para a existência da comunidade, ou melhor, a produção social, as forças vivas que cobrem a terra de riqueza.
É comum o conhecimento, as imagens, os códigos, a informação, os afetos e outros frutos do trabalho social (HARDT & NEGRI, 2018, p.8).
Essa definição circinscreve o comum ao mesmo tempo em que o coloca como eixo do projeto político de superação do capital.
Sem interação social não há possibilidade de produção, pois trabalho é interação. Malgrado, a era neoliberal, com seus aparelhos ideológicos, lança um enorme véu sobre a realização do comum, o que dificulta a percepção da importância da interação social para a produção social. Ademais impõe a privatização do comum e do público como panaceia para os males produzidos pelo próprio capital globalizado.
Consoante Michael Hardt & Antonio Negri:
“As políticas neoliberais de governo em todo o mundo têm buscado nas últimas décadas privatizar o comum, transformando os produtos culturais – por exemplo, a informação, as ideias e até as espécies de animais e plantas – em propriedade privada. Sustentamos, fazendo coro a muitos outros, que é necessário resistir a essas privatizações” (HARDT & NEGRI, 2016, p.8).
O ato de escavar o bem comum sob o manto da superfície neoliberal é fundamental para abrir caminho à desconstrução do direito formal que resulta em administração da justiça deslocada do conceito profundo de democracia como prática de justiça. Essencialmente, a promessa moderna de democracia é a república dos direitos sociais. O trabalho arqueológico é o de retirar camada por camada de terra com o objetivo de encontrar a substância, o bem comum, que revela a vida social que se encontrava soterrada. O bem comum é o que sustenta as instituições modernas. As instituições arregimentam discurso procurando demonstrar que são emanadas pelo interesse público. Não obstante, vivemos ordinariamente numa sociedade capitalista que se inclina à abstração da realidade social que é comum. A abstração do real é essencial ao processo de reprodução do capital, a transformação das forças vivas em trabalho morto torna opaca a substância comum partilhada por todos na existência cotidiana. Logo, as instituições comportam-se antes como aparelhos ideológicos do Estado do que agentes da realização dos direitos sociais e econômicos da sociedade. O discurso do bem comum, do interesse público produzido pelas instituições pairam no céu das esperanças modernas, ou seja, não brotam na terra concreta da democracia popular.
O bem-estar comum é o conceito para imaginar novas paisagens de resistência política.
Fonte
ARISTÓTELES. "Ética a Nicômaco". Tradução de Leonel Valandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Abril Cultural, 1973. Vol. IV: Os Pensadores.


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