INÍCIO

15 abril 2021

QUARENTENA, LOCKDOWN E VACINA


PANDEMIA, QUARENTENA & VACINAÇÃO

Afirmo, contra o relativismo pós-moderno, que há verdades que sustentam a civilização, por exemplo, "todos os homens são iguais e pandemia viral se combate com distanciamento social e vacinação.
(R. Q. Moraes) 

Bandeira de quarentena

Todos sabemos que distanciamento social evita a exposição de pessoas sadias à pessoas infectadas assintomáticas e à doenças infectocontagiosas. Aprendemos desde o Ensino fundamental que quando estamos com gripe devemos ficar em casa, ou quando contraímos caxumba devemos ficar isolados por duas  no máximo três semanas. 
Esse distanciamento é essencial por no mínimo dois motivos, a saber: para que possamos cuidar da nossa saúde, acompanhando com atenção a evolução da doença e para que não transmitamos os vírus ou bactérias para nossos amigos, colegas e parentes. 

Pesadas túnicas de couro, grossas coberturas de vidro para os olhos, luvas e chapéus faziam parte das roupas de proteção usadas pelos médicos que tratavam de pacientes durante a Grande Peste de 1665.

O distanciamento e a quarentena sanitária e o "lockdown" são medidas importantes e essenciais, imperativas para que um maior número de pessoas evitem o contado com o agente infeccioso e venham a contrair a doença, e sejam hospitalizadas. É uma medida essencial e fundamental para que outras doenças possam ser tratadas em hospitais pois os leitos hospitalares são limitados e finitos, além do pessoal especializado como médicos e enfermeiros são também recursos limitados.
Bandeira marítima que indica que 
um navio atracado está sob quarentena.



Quarentena   
Quando estava no Ensino médio, cursando uma das melhores Escola técnicas do meu estado, a Escola Politécnica da UFSM, antigo CASM/UFSM, aprendi que quarentena, além dos humanos, se aplica  também para animais e plantas. Quando criadores de animais (bovinos, suínos, equinos, ovinos etc...) compram animais para melhorar seu rebanho a ciência Veterinária e Zootécnica preconiza uma quarentena para  observação, o mesmo acontece com plantas matrizes em viveiros que posteriormente serão replantadas em pomares. Sabe-se que esse procedimento evita que agentes infecciosos que possam estar ocultos nos animais e plantas, aparentemente saudáveis, passem para os animais sadios e se propaguem descontroladamente para todo o rebanho ou que infectem o pomar, transmitindo uma doença para todos os indivíduos saudáveis. 

A quarentena é uma restrição ao movimento de pessoas, seres vivos (plantas e animais), e mercadorias, com o objetivo de prevenir a propagação de doenças ou pragasEsse procedimento é frequentemente usado quando uma doença ou enfermidade infectocontagiosa ataca pessoas, seres vivos como animais domésticos e plantas cultivadas, evitando o movimento de pessoas que possam ter sido expostas a uma doença transmissível, mesmo não possuindo ainda um diagnóstico médico confirmado. É diferente do isolamento médico, no qual aqueles indivíduos que apresentam a infecção confirmada por uma doença transmissível, são isolados da população saudável. 

A quarentena é normalmente preconizada e aplicada quando as pessoas  presumidamente foram expostas a alguma doença infectocontagiosa, mas que não estão necessariamente doentes, podendo estarem assintomáticas ou estarem em algum estagio inicial da doença. Como sabemos hoje que o ciclo do vírus SARS-CoV-2 é de 14 dias, a quarentena pode durar, um período de 14 dias. Esse período irá diminuir o número de casos de infectados e consequentemente o espalhamento do vírus na população. 
O distanciamento social consiste na diminuição de interação social entre as pessoas de uma comunidade, com objetivo de diminuir a velocidade de transmissão de uma patogenia (uma vez que diminui o contato entre as pessoas). Geralmente a medida de distanciamento social é aplicado em regiões onde há transmissão comunitária de uma doença, o que estamos observando desde dezembro de 2020 com a covid-19. Em casos de surtos que é o aumento repentino e inesperado aumento de casos de uma doença em uma determinada região  e epidemias, i.e., uma patogenia de distribuição sincrônica geográfica que se espalha para além do local onde foi inicialmente identificada, por exemplo, as autoridades sanitárias preconizam fortemente o distanciamento social para conter o avanço de uma doença especialmente quando transmitida pelo ar. 

Pensemos agora numa pandemia que assola o mundo todo, onde não existe povoado ou vilarejo ou metrópole ou megalópole em que o vírus não tenha chegado. No caso de uma pandemia o distanciamento é a profilaxia por excelência, o único método com o qual podemos minimizar o avanço da infecção quando ainda não temos vacinas disponíveis para todos. É o que a ciência nos diz e é o conhecimento que nos ensinam na escola e nas universidades por todo o mundo.

Entre as medidas de contenção da pandemia é o isolamento social, onde o paciente doente é isolado do convívio dos indivíduos não doentes afim de se evitar a disseminação da doença. 
O isolamento pode ser vertical, em que somente pacientes que compõem o grupo de risco para a doença ficam isolados, ou horizontal no qual somente os serviços essenciais são mantidos. O isolamento social horizontal é uma medida em que se isola o maior número de pessoas em suas residências e, por esse motivo, é o mais indicado no cenário atual, uma vez que apresenta maior potencial para conter a epidemia (17).

Como vimos no ano de 2020 alguns dos esforços mais bem-sucedidos para conter a epidemia de coronavírus foram orquestrados pela Coréia do Sul, Taiwan, Cingapura e Nova Zelândia. Cada um desses governos usando tecnologia, distanciamento social, testagem em massa, quarentena e lockdown.

História
Temos noticias de epidemias ao longo da história humana, como o caso de uma peste que assolou Athenas em 430 - 428 a.C. 
A peste de Atenas, como ficou conhecida essa epidemia atingiu a cidade de Atenas entre os anos de 430 a.C. e 427 a.C., causando grande mortalidade. Os relatos de Tucídides dão conta do desespero das pessoas que haviam contraído a doença pois sabiam que iriam morrer logo. Há debates no meio científico sobre qual doença teria atingido Athenas. Algumas teorias sugerem varíola; sarampo, febre tifoide, tifo, etc., mas os relatos são inconclusivos. O relato de Tucídides conta que a doença que assolou Atenas a partir de 430 a.C. teria iniciado na região ao sul do Egito, chamada de Etiópia e partir daí, teria alcançado regiões do norte da África, o Império Persa e finalmente chegou à região da Ática onde fica Athenas. Tucídides relacionou o aparecimento da doença em  com a chegada das tropas espartanas na região, no inicio da guerra do Peloponeso, conflito que opôs Esparta e Athenas entre 431 e 404 a.C. 

Busto de Péricles com a inscrição "Péricles, filho de Xantipo, Ateniense". 
Cópia romana em mármore de um original grego, c. 430 a.C. 
(Museus Vaticanos, Roma).

Célebre discurso de Péricles enaltecendo os mortos na guerra do Peloponeso.

Devido a guerra, Péricles pediu que a população que vivia fora das muralhas de Athenas viesse para a cidade no intuito de proteger toda a população, o que só acelerou o contágio pela proximidade das pessoas. Acredita-se que essa epidemia tenha causado a morte de cerca de 83.000 pessoas ou 1/3 da população ateniense que nessa época era de 250.000 habitantes. Em 429, os dois filhos legítimos de Péricles, Páralo e Xantipo, morreram vítimas da peste. Poucos meses depois, o "strategos", o "primeiro cidadão de Athenas", Péricles, sucumbiu. Sua morte foi, de acordo com Tucídides, desastrosa para Atenas.

Mil duzentos e vinte e sete anos depois, mais uma epidemia assola a Europa. Em 1656, a epidemia de peste bubônica ocorreu no Reino de Nápoles, Itália. Anteriormente, a doença havia se espalhado de Argel para a Espanha; em junho de 1647, apareceu em Valência e, na primavera de 1648, em Aragão e em várias outras áreas espanholas de Valência, Andaluzia e Catalunha. Em 1652, a peste se espalhou para a Sardenha e depois para as cidades e territórios de Nápoles, Roma e Gênova. No Reino de Nápoles, a peste atingiu a cidade de Nápoles pela primeira vez na primavera de 1656. Apesar das medidas que restringiam o movimento da população, no verão de 1656, a doença atingiu várias províncias do sul da Itália. Na Sardenha foi registrado 55% de mortalidade, em Nápoles 50%, Gênova 60% e em Roma 8%. Por que essa diferença tão profunda altamente significante sob qualquer critério? Distanciamento social, isolamento dos doentes, quarentena e lockdown severo durante no mínimo 18 meses implementado pelo Papa Alexandre VII. 
Gravura representando a Grande Peste de Londres de 1665

A peste negra chegou no Reino Unido na metade do século XVII, em 1665 e 1666, conhecida como a Grande Peste de Londres, a cidade registrou milhares de mortes em decorrência da Grande Praga, uma epidemia de peste bubônica que afetou a Inglaterra. Como na época não existiam procedimentos médicos capazes de interromper a disseminação de uma doença contagiosa, quem vivia em grandes centros urbanos tinha mais chances de contraí-la. Portanto, tanto Londres como as cidades próximas tiveram uma grande evasão de pessoas, que procuraram refúgio em regiões campestres e menos habitadas para viverem a quarentena. Diversas instituições de ensino decidiram fechar as suas portas até que a Grande Praga acabasse, incluindo o Trinity College da Universidade de Cambridge, que enviou para casa todos os seus alunos e professores, entre eles o jovem aluno recém formado de 23 anos de idade, chamado Isaac Newton. Nesse contexto, de epidemia, em dezoito meses, entre 75.000 a 100.000 pessoas perderam a vida, ou seja, praticamente um quarto da população de Londres na época.

Traje que usavam os médicos nos leprosários no séc. XVII, 
ou auxiliando pacientes vítimas da peste no séc. XVIII.

“Não temos um sistema de Saúde no mundo que tenha resistido a essa pandemia sem tomar medidas de distanciamento e isolamento social para salvar vidas”, afirma Socorro Gross, que é médica, representante da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) no Brasil.

Segundo Maierovitcha, médico, "é o momento de boa parte das cidades grandes brasileiras, e algumas médias, cessarem a circulação de pessoas, em um chamado lockdown, a exemplo do que funcionou no países europeus e na China e em boa parte dos lugares onde estamos vendo algum progresso na contenção da propagação do vírus”.

Muito mais necessário, evidencia-se o distanciamento sanitário agora para prevenir e tentar conter o avanço dessa nova onda. 

Como salienta Yval Harari que neste tempo de crise, enfrentamos duas escolhas particularmente importantes. O primeiro é entre a vigilância totalitária e o empoderamento do cidadão; a segunda é entre o isolamento nacionalista e a solidariedade global.
Quando as pessoas ouvem os fatos científicos, e quando as pessoas confiam nas autoridades e gestores públicos para lhes mostrar e explicar esses fatos, os cidadãos podem fazer a coisa certa, mesmo sem um "Big Brother" olhando por cima de seus ombros. Uma população automotivada e bem informada é geralmente muito mais poderosa e eficaz do que uma população ignorante e policiada.

Há em nossa história evolutiva como sociedade, verdades que são norteadoras, sintéticas a priori, i.e., evidentes por si mesmas, as quais não podemos esquecer de forma alguma. Uma delas é "todos os homens são iguais" que esta cristalizada em nossa Constituição Cidadã de 1988" e que a pandemia viral se combate com distanciamento social, quarentena, lockdown e vacinação, pois para além da vacina, não há drogas combatam eficazmente os vírus. Só o nosso próprio organismo, munido com o antígeno adequado pode gerar as moléculas protéicas (anticorpos) necessárias para o combate definitivo. Assim, temos instruções de como implementar tanto o distanciamento quanto a quarentena e o lockdown nas Nações unidas. 

As Nações Unidas e os Princípios de Siracusa
As orientações sobre quando e como os direitos humanos podem ser restringidos para prevenir a propagação de doenças infecciosas podem ser encontradas nos Princípios de Siracusa, um documento não vinculativo desenvolvido pelo Instituto Internacional de Siracusa para Justiça Criminal e Direitos Humanos e adotado pelas  Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (United Nations Economic and Social Council) em 1984. 

Os Princípios de Siracusa afirmam que as restrições aos direitos humanos sob o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos devem atender aos padrões de legalidade, necessidade baseada em evidências, proporcionalidade e gradualismo, observando que a saúde pública pode ser usada como base para limitar certos direitos se o estado precisa tomar medidas 'destinadas a prevenir doenças ou ferimentos ou fornecer cuidados para os doentes e feridos'. Limitações de direitos (como quarentena) devem ser 'estritamente necessárias', o que significa que devem:

1) responder a uma necessidade pública ou social urgente (saúde)
2) perseguir proporcionalmente um objetivo legítimo (prevenir a propagação de doenças infecciosas)
3) ser o meio menos restritivo necessário para atingir o objetivo da limitação
ser previsto e executado de acordo com a lei
4) não seja arbitrário nem discriminatório
5) apenas limitar os direitos que estão dentro da jurisdição do estado que busca impor a limitação. 

Além disso, quando a quarentena é imposta, a ética da saúde pública especifica que:

1) todas as ações restritivas devem ser bem fundamentadas por dados e evidências científicas
2) todas as informações devem ser disponibilizadas ao público
3) todas as ações devem ser explicadas claramente para aqueles cujos direitos são restritos e para o público
4) todas as ações devem estar sujeitas a revisão e reconsideração regulares.

Finalmente, o estado é eticamente obrigado a garantir que:

1) pessoas infectadas não serão ameaçadas ou abusadas
2) necessidades básicas, como comida, água, cuidados médicos e cuidados preventivos serão fornecidas
3) comunicação com entes queridos e cuidadores será permitida
4) restrições à liberdade serão aplicadas igualmente, independentemente das considerações sociais
5) os pacientes serão compensados ​​de forma justa por perdas econômicas e materiais, incluindo salários.

A quarentena pode ter efeitos psicológicos adversos nas pessoas em quarentena, incluindo estresse pós-traumático, confusão e raiva. De acordo com uma "Revisão Rápida" publicada no The Lancet em resposta à pandemia de COVID-19, "Os estressores incluíam quarentena mais longa, medo de infecção, frustração, tédio, suprimentos inadequados, informações inadequadas, perda financeira e estigma. Alguns pesquisadores sugeriram efeitos duradouros. Em situações em que a quarentena é considerada necessária, os funcionários devem colocar os indivíduos em quarentena por não mais do que o necessário, fornecer uma justificativa clara para a quarentena e informações sobre os protocolos e garantir que sejam fornecidos suprimentos suficientes. Apelos ao altruísmo, lembrando o público sobre o benefícios da quarentena para a sociedade em geral podem ser favoráveis.

Vamos passar por essa pandemia transformados. E o mundo será outro. Nosso modo de viver e tratar o mundo onde tudo é mercadoria e onde tudo tem um valor, nos trouxe a doença e a pandemia viral. Mas a ciência e o conhecimento, aplicados por gestores responsáveis poderá iniciar a cura do planeta, o saneamento das mazelas humanas. Estamos às portas de um novo mundo, basta escolher a verdade, tratar a todos como iguais, como irmãos de jornada, e construirmos esse novo mundo. 

A bandeira de sinalização "Quebec", também chamada de "Yellow Jack", é uma bandeira amarela simples que foi historicamente usada para sinalizar quarentena (significa Q), mas no uso moderno indica o contrário, como um sinal de um navio livre de doença que requer embarque e fiscalização.



Bibliografia

(1) http://conselho.saude.gov.br/ultimas-noticias-cns/1176-protecao-a-vida-cns-debate-importancia-de-isolamento-social-e-lockdown

(2) De acordo com o artigo: “Seasonal transmission potential and activity peaks of the new influenza A(H1N1): a Monte Carlo likelihood analysis based on human mobility.

(3) De acordo com os artigos publicados para a cidade de Wuhan (China) na Healthline (Here’s How COVID-19: Compares to Past Outbreaks) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SIB) estimaram para 3 a capacidade de contágio.

(4) Dados do artigo publicado na Healthline: Here’s How COVID-19 Compares to Past Outbreaks.

(5) A taxa de letalidade para a Covid-19 apresenta valores distintos para várias regiões, contudo, mesmo nos cenários mais otimistas, a doença é mais letal que a última epidemia de H1N1. https://www.healthline.com/health-news/how-deadly-is-the-coronavirus-compared-to-past-outbreaks










(15) https://www.ufmg.br/espacodoconhecimento/a-quarentena-mais-produtiva-da-historia/

(16) https://www.sanarmed.com/a-importancia-do-isolamento-social-no-contexto-da-pandemia-de-covid-19

(17) https://fazumhilab.com.br/pandemia-epidemia-endemia-e-surto-diferencas/#:~:text=Uma%20pandemia%20%C3%A9%20a%20dissemina%C3%A7%C3%A3o,a%20v%C3%A1rias%20regi%C3%B5es%20do%20planeta.

(18) https://dotlib.com/blog/quarentena-a-origem-e-sua-importancia-como-medida-de-contencao-de-doencas




(22) https://www.sanarmed.com/a-importancia-do-isolamento-social-no-contexto-da-pandemia-de-covid-19

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