INÍCIO

29 abril 2015

AVENTURA DA FORMA CINTILANTE

IMAGENS DE PRAZER-DOR










Leitura: Texto de MARK GREIF, publicado na revista PIAUÍ Ed. 127 (2017).

ABAIXO A ACADEMIA
O que a malhação tem feito com a nossa ideia de corpo

"A prática moderna do exercício físico permite que reconheçamos a máquina que opera dentro de nós. Não há nada como uma academia moderna para nos fazer acreditar que sentimos saudade da labuta nas fábricas. A alavanca da prensa de estampagem não comanda mais o trabalho. Com o advento da academia, porém, importamos para nosso lazer vestígios remanescentes de equipamentos industriais. Saímos do escritório, subimos na esteira rolante e corremos como se perseguidos por demônios. Enfiamos voluntariamente nossas pernas na prensa e submetemos nossos braços retesados à engrenagem. É crucial que os equipamentos sejam simples. Planos inclinados, pinos, alavancas, roldanas, travas, manivelas, cremalheiras e correias da máquina de musculação Nautilus ou dos equipamentos para exercícios aeróbicos põem à nossa disposição antigos estágios do progresso tecnológico, só que em miniatura. Os elementos são visíveis e inteligíveis, sabemos usá-los, mas não representam perigo para nós. Deslocados e neutralizados, constituem resquícios de uma necessidade que não precisa mais ser suprida com antevisão ou engenho. No passado, fazendeiros já recorriam a roldana, cabo e barra para erguer a viga do telhado; hoje, nós nos valemos dos mesmos meios para exercitar os músculos dorsais."




O fluxo das imagens 


Meu amigo está correndo atrás de uma imagem fugaz, fugidía...Seus esforços são na tentativa de ficar com o corpo perfeito. Mas o que é a perfeição se não um conceito inatingível, inalcançável? A forma, o simulacro de uma espécie. Uma longa jornada para um lugar que ninguém sabe qual é. Biológico, estético, psicológico, sociológico, econômico (?)... Aí surge um espectro: a vigorexia, que surge quando, mesmo possuindo um corpo musculoso, se acha flácido e magro. 
Não somos máquinas, embora o funcionamento de um corpo possa ser comparado ao de uma máquina com suas engrenagens e sua mecânica. 
Somos vida, somos bioquímica e fisiologia. 

Todos estamos numa corrida, numa perseguição da forma clássica grega.
A estátua helenística de um atleta olímpico!
Não importa que caminho tomamos, queremos chegar lá, na luz da forma, na forma brilhante e radiante.
Uns com o método químico que altera a forma como um Proteus "omnifórmico" congelado na forma de um κούρος, kourós, que bebeu da fonte da juventude eterna, onde nem Cronos tem domínio.
Ledo engano. O tempo é Deus, e se não o é faz parte de sua essência.   

A dor é a companheira do menino-imagem todos os dias, a dor é o caminho, a única via de agarrar e se apossar de uma imagem aceita por todos.
Mas a forma não se deixa agarrar, nem permite-nos fixar seus limites. 


O desejo da forma 
A tortura da perseguição implacável. 

Como o texto inicial diz, a academia é o local de uma autoregulação feita no público.
Mas mais importante ainda é o que vemos na academia. Vemos a forma em diferentes estados de uma suposta evolução.
A imagem que alimenta nosso ideal de corpo.
A forma que se deteriora no tempo.
A imagem inspira a busca.
A imagem do outro como ápice da busca, não o outro em si, mas o que vemos do outro. Uma espécie de espelho que devolve uma imagem embaçada.
Pavimenta o caminho para a forma desejada e sempre perdida.
Nos espelhos das academias vemos nosso próprio corpo comparado com os corpos que buscam a aceitação.
Vemos o lado de dentro expresso na fachada.
Mas fica a dúvida adiada pela felicidade momentânea da forma cristalina e cintilante...
A vida adiada, e a duração abreviada.
Nunca saberemos quando dizer adeus pela última vez.
E eu nem sei porque.

























































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