Blog de Arte e História, Filosofia, Geometria, Astronomia, Ciências, Fotografia alternativa e Política! POR UMA VIDA NÃO FASCISTA.
07 abril 2015
IMAGENS VALIOSAS
Fiz essas fotos há algum tempo, exceto as de minha mãe, as quais fotografei dos originais.
E sempre me espanto com o que surge das imagens (elas querem contar algo) querem narrar algum fato ou conduzir a minha, a sua imaginação para algum lugar.
Esperam por um olhar que interrogue que se intrigue com sua presença.
Falam parte de discursos esquecidos, partes de memórias guardadas sem mais nexo ou sentido.
Sua espera é a dimensão de seu ser: esquizofrênico e hierofante, completo e ausente como se quisesse falar mas faltasse palavras ou as falasse num murmúrio tão baixinho que não se entende. Ora gritam mas sua totalidade é inapreensível, inexpugnável.
Uma esfinge.
06 abril 2015
IMAGENS EFÊMERAS
CONTEMPLARE
ET MIRARE
(06/04/2015)
Sei que estou passando aqui.
Meu tempo se foi.
Nada nem ninguém ouve meus anseios e desejos.
Escrevo para o vento de elétrons que varre esse mundo em sua velocidade eterna.
Sem rumo nem objetivo nem paradeiro.
Contemplo cada folha de grama verde e cada rajada de vento que atinge meu corpo. Sinto-me parte desse mundo como sentiram-se os grânulos primitivos que se juntaram ao acaso no início dos tempos para formar no futuro passado esse planeta.
Nada do que aconteça está fora do destino de todas as coisas. Mesmo que no futuro se estenda a vida nunca duraremos como as rochas ou os gases primordiais. Soube retirar alegrias dessas simples aproximações entre os corpos e me regozijei com os encontros de todas as coisas desse tempo. Tento retirar algum sentido estético dos arranjos que o acaso me dá “qui sub his figuris vere latitas”.
“Oh memoriale mortis...” Logo vens e me arrebata como uma folha no inverno; como um floco de geada na luz fraca do distante sol que tudo anima.
Veloz passou meus dias. Não tive tempo de amar as pessoas e cedo dou adeus a todas as paisagens que guardei nos olhos.
Num grânulo de areia todo o “orbe terrarum” reflete-se “tus sagrado nomine” vida um mistério que só cheguei a conhecer.
Veloz passou meus dias. Não tive tempo de amar as pessoas e cedo dou adeus a todas as paisagens que guardei nos olhos.
Num grânulo de areia todo o “orbe terrarum” reflete-se “tus sagrado nomine” vida um mistério que só cheguei a conhecer.
“Fiat misericordia tua super nos” matéria tu que “tolis pecata mundi” luz nem tão perpétua do universo.
Sua continuidade e duração é a mudança.
“Mortus et sepultus sunt”.
“Ego vos ressusicitabo in die novissimo”, depois de todo tempo e movimento. Nada restará distinto. Estarei unido a tudo que mais amei, calado, sem dizer uma palavra.
“Salve porta”
“Gaude”
04 março 2015
FLUXO DE IMAGENS
1. A Fonte
Quando fecho os olhos
Em minha lembrança
Surgem milhares de imagens
Como uma fonte que logo se transformam em um poço
Um lago
Brotam como um olho d'Água brota entre as pedras e areia
Imagens de corpos
De corpos sobrepostos
De partes de pessoas e seres
Que desaparecem
Que apontam
Que olham para lugar algum
Para Lugar nenhum
Olham para (um) infinito
Olham para dentro de si mesmos
Seres que andam
Que se vão
Sem olhar para trás
Sem querer voltar
Vão para o esquecimento
Sem destinos
Sem passados ou futuros
Apenas um breve momento de existência
Seres parados figuras estáticas que querem movimento, mover-se, sair de onde estão
Sair de onde são.
Imagens de xícaras de cafés sobre as mesas aconchegantes de um bar
Drapeados que parcialmente cobrem uma figura e desaparecem entre uma colunata banhada por uma luz pálida e lânguida de um amanhecer de um céu de outono.
Mãos que buscam, partes íntimas
Calor latente pulsações sistólicas
Olhos que miram longe sem nada apreender
Janelas abertas para o céu sem estrelas, sem luz.
Sem nem sequer saber o que foi, é ou será um instante de amor.
Desaparecem sobre camadas de rochas e fósseis duros que um dia também desaparecerão sem vestígios.
Camas vazias esperançosas, um coração que em um flash revela atrás de si um bosque de árvores sem folhas envolto em neblina
Uma folha cordiforme amarelada que caiu
Um pixel, um reticulado que se esvai rumo a abstração deixando em suspense um sentido
Um significado perdido
Não consigo fechar os olhos sem ver
Imagens de olhos que me olham
Sou eu mesmo que me vejo nelas
ou são os olhos dos outros que são espelhos
Dentes e arcadas dentárias que parecem falar
Epiderme e ossos, órbitas-janelas-Almas
Rostos desconhecidos
Lábios e pernas
Mamilos
Umbigo
Pelos...
Como um círio pascal que queima incessantemente derretendo-se em formas que se acumulam e se agigantam
Mudam, se misturam, se acumulam
Camadas sobre camadas...
Segredos
Imagens de microscópios eletrônicos que magnificam o ínfimo o invisível o não-dito que existe para logo em seguida deixar de ser... Sem ser nomeado
Sou eu que presentifica o mundo em imagens sou eu que que as cantam
Que as realizam, musa sem vóz que tange instrumentos surdos, musa sem habilidades, sem nome.
Dores que vem como espinhos enormes, uma floresta deles
onde não há lugar nem para o olhar descansar. Tudo doi. Tudo foi. Tudo se afasta
Uma dor que aumenta
E que não tem fim.
Substâncias químicas que parecem centopéias, fosfolipidios cnidarios ácidos fosfóricos escadas caracóis espirais sem fim, tentáculos... Todos desaparecem uns sobre os outros como em um buraco negro obscuro em um céu de estrelas feitas de escuridão. Matéria escura ignota e oculta
Teias de aranhas que vibram dentro dos núcleos dos átomos
Lembranças de sons de folhas secas
E do perfume dos brotos das folhas dos plátanos molhados pela chuva
E o vento que sopra e se acalma
E aquela luz indireta da lua como o olhar de corujas que enxergam distante tão longe que desaparecem de tão sábias. Viram tudo pois viram o Nada. Seus corpos foram tocados pelo nada inaugural de onde tudo se fez.
2. De lágrimas
Dizem que Deus está na chuva, minha vó dizia, e que se eu estivesse triste era para eu chorar na chuva pois ninguém veria minhas lágrimas...
E minhas lágrimas comoveriam a Deus pois elas se misturariam a Ele e tudo ficaria bem.
Hoje fecho os olhos e vejo que nunca os abri realmente...
Não para ver o mundo, o amor, a amizade...
O mundo me manteve encarcerado neste calabouço.
Neguei toda forma de humanidade que existia em mim.
Esqueci de como eu via as imagens se formando
E como eram fortes e desejadas.
A fonte está lá
De tristeza e dor
Mas são águas salgadas...
(4/III/2015)
28 fevereiro 2015
29 dezembro 2014
QUANDO ARTE É IDEIA
ARTE ENQUANTO IDEIA
"Toda história é, esta claro, uma imagem e uma ideia, e quanto mais elas estiverem entremeadas melhor terá sido a solução do problema"(Henry James in: Alberto Manguel. Lendo imagens)
“O som de sua voz é doce como o vinho antigo e eu embriagado em meio as flores sou seu cativo enquanto ouço suas palavras” (Poema de amor - antigo Egito 1300 a.C.).
Esse pequeno poema encontrado no antigo Egito apresenta uma situação onde duas pessoas enamoradas uma da outra apresentam-se cativas desse sentimento que experimentam mutuamente.
Se entreolham, dialogam. Veem-se e escutam-se mutuamente. Diria mais do que isso, estão ligadas por algo que dão o nome de "amor".
Se entreolham, dialogam. Veem-se e escutam-se mutuamente. Diria mais do que isso, estão ligadas por algo que dão o nome de "amor".
Contemplam-se mutuamente mediados por algo; veem-se, olham-se, enxergam-se através de seus corpos físicos porque não veem somente a figura, a forma, as artérias e veias , os músculos, por onde corre o sangue, nem veem os nervos por onde correm na velocidade da luz impulsos nervosos, nem ouvem-se apenas porque que são tocados pelas ondas mecânicas produzidas pela vibração do ar em suas pregas vocais, nem tocam-se somente porque tem músculos, pele, e ossos... tocam nisso tudo... mas estão cativos, ganharam a simpatia um do outro, a estima... Como dizem "o que mais cativa e alucina é uma certa beleza diabólica, que ninguém define"...
Comparo esse poema de amor do antigo Egito ao fenômeno que acontece quando estamos contemplando uma obra de arte, produto de uma ideia que não a minha mas que fala diretamente a minha alma, à minha mente… Entretanto a maioria das pessoas dizem que as obras de arte são herméticas, indecifráveis, falam numa outra língua ou simplesmente não querem dizer nada.
Ora, é muito dificil acreditar em qualquer dessas alternativas, por algumas razões entre elas: a obra tem um sentido, o artista enquanto pensador constituiu ali um objeto pleno de significado, eloquente; difícil de acreditar que seria uma investigação vazia de sentido.
Toda busca conduz a uma conclusão, a um ponto de encontro, e para que se efetue uma busca necessita-se tempo, de perguntas, de amor, ninguém busca voluntariamente o que não quer manter... estar procurando algo é gastar tempo e ninguém quer perder esse valioso componente da vida.
A obra, então organizada e modelada está exposta a nossa frente, nos olha desde sua subjetividade soturna; desafiante, enigmática como uma esfinge. Ela fala para o eu (nossa alma no sentido grego) dentro de nós mesmos, estabelece um diálogo. O inelutável modo de sua visibilidade se cumpre pela vida interrogativa e olhar penetrante. Heráclito diz no fragmento 93: "O senhor, de quem é o oráculo em Delfos, nem diz nem oculta, mas dá sinais". Sinais… imagens, diagramas, metáforas…
Ali é a margem de um rio, e eu aspiro viver do outro lado daquela margem onde toda a ideia faz morada. Ela é uma porta, um portal para o entendimento de um outro intelecto, um outro mundo visto por alguém, uma outra “umwelt” (uma visão de mundo particular, baseado em um modo particular de perceber o que me rodeia). A percepção que é uma função do nosso cérebro atribui significado a estímulos sensoriais, a partir do histórico de vivências passadas de cada um. É através da percepção que organizamos e interpretamos nossas impressões sensoriais provindas da “obra”, do mundo, para atribuir-lhe significado.
A minha busca consiste na aquisição, seleção, interpretação, e organização das informações obtidas pelos sentidos. De certa forma essa capacidade nos torna mais adaptados ao meio ambiente como seres vivos. Nosso comportamento esta baseado na interpretação qe fazemos da realidade e não da realidade em si. Assim, nossa percepção de um evento qualquer esta ligado ao 1) nossos olhos (o que podemos ver, ou o que estamos vendo, o que se vê) e ao 2) conhecimento anterior que temos do mundo. Desse arranjo depreende-se que quando maior o conhecimento anterior ao estimulo (o que estou vendo) maior será a probabilidade de que eu estabeleça uma relação de diálogo com a obra, com essa realidade. Da mesma forma pode-se afirmar que quanto maior o número de obras de um mesmo artista e quando mais tempo eu permanecer frente a obra maior será a zona de probabilidade onde eu encontro um significado para o que vejo. Poderíamos ainda continuar especulando esse universo das inferências Bayseanas mas este texto não é para esse fim.
Existe um lugar desde o qual podemos nos espantar, nos maravilhar e ver o mundo de outra forma e este lugar é a arte.
A arte nos coloca o mundo diante de nós como se o víssemos pela primeira vez, ela nos faz divagar, refletir, pensar, desacelerar, parar, resistir.
Se Platão e Aristóteles nos indicam com precisão a “experiência” que dá origem ao pensar filosófico como um espanto e admiração, então, a arte também inicia sua reflexão pelo estranhamento, pelo espanto.
Platão e Aristóteles identificam esse momento como “thauma ou pathos”. O que os gregos chamam de “thauma” (do grego: θαῦμα, ατος, τό = o espanto, a admiração, a perplexidade ou também páthos: do grego = πάθος = vertigem, espanto, despertar de uma emoção, maravilhar-se).
Aristóteles idendifica pathos como um modo essencial que move e impulsiona o homem no mundo, (para ele devemos conhecer essa emoção, nomeá-la, descrevê-la e conhecer suas causas, bem como a maneira que ela é excitada). Como diz Almeida (2007): “O juízo é operado pela percepção sensível ou pelo pensamento discursivo (a dianóia); no primeiro caso refere-se ao agradável e ao penoso; no segundo ao bom (o útil ou belo) e ao mal (o nocivo ou feio). Qualquer que seja a forma, a faculdade de julgar enuncia, assim, o que é desejável. (...) a faculdade de desejar é a faculdade motora.”A conclusão de Aristóteles era que se escolhessemos a virtude e reconhecendo a importância das emoções em nossa vida alcançaremos a eudaimonia (εὐδαιμονία = desenvolvimento humano, felicidade, bem estar ou bem viver em sociedade).
Pode-se imaginar que essa função está a cargo da arte uma vez que a arte nos apresenta uma nova forma de ver o mundo. Assim, instaura em nossa mente um espantamento, um maravilhamento.
Logo, a arte é um filosofar através de imagens, mediado por imagens, sons, sensações.
A arte tem como matéria a ideia. São ideias que se tocam, se trocam por outras ideias… Como dizia Heráclito: “por fogo se trocam todas (as coisas) e fogo por todas, tal como por ouro mercadorias e por mercadorias ouro”. A arte é o fogo que mantém nossa mente contemplativa, espantada…
Arte é a expressão estética de uma intencionalidade e ideia a imagem, conceito que também traz implícito uma intencionalidade. Assim arte e ideia coincidem, converge, pois o material da arte são as ideias e as ideias transformam nosso pensar e agir no mundo.
É a arte a fronteira entre a ignorância e o entendimento o início do pensamento, um ato fundador, originário de um conceito antes externo, agora interno que entrou em nossa mente através da obra.
Ora, a ideia (razão, logos) definem o homem como um ser político.
É na pólis, na comunidade compartilhada que se desenvolve a arte, mesmo a arte das cavernas pressupõe uma coletividade. Assim, o homem através de sua relação essencial com o ente (ser) das coisas e com o seu desvelamento, desocultamento, é o “métron” (μέτρον), o logos (λέγω: lego eu digo, conto, explico e também: argumento da razão, ordem, conhecimento) com o qual traz à existência, desvela para o mundo. Até mesmo a Bíblia cristã da grande destaque ao verbo (apesar das inúmeras interpretações e controvérsias existente sobre esse trecho, assim João inicia o relato da criação: Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ Λόγος, καὶ ὁ Λόγος ἦν πρὸς τὸν Θεόν, καὶ Θεός ἦν ὁ Λόγος = En archē ēn ho Lógos, kai ho Lógos ēn pros ton Theón, kai Theós ēn ho Lógos: No início era a Palavra, e a Palavra estava com (em direção a) (o) Deus, e Deus era a Palavra; Latin: In principio erat Verbum et Verbum erat apud Deum et Deus erat Verbum).uu
Podemos abraçar o conhecimento absoluto de algo? provavelmente não, mas com certeza podemos afirmar que aquela ideia ali em nossa frente é uma fronteira que se abre para a “verdade” uma verdade do tempo; um vislumbre de um modo particular de ver, que alguém modelou, plasmou na obra.
A verdade não esta ali mas ela se constitui numa evidência de que uma verdade foi vista e embora esteja longe de nossa posse, ela pode ser o agente motor de nosso movimento. É um caminho, uma porta que foi aberta. Devemos entrar.
Pode-se argumentar que a ideia ali exposta não seja verdade ou esteja longe da verdade ou seja uma mentira. Todavia, mesmo assim seu aparecimento no mundo nos coloca um problema que merece ser resolvido pelo intelecto pela alma. Não estaremos tão desamparados como Zenon de Eléia que diz que o movimento não é possível, ou Aristóteles quando comenta um livro de Demócrito de Abdera, se referindo a divisibilidade de um corpo. Pois chegaríamos a um estado em que nenhuma magnitude poderia ser divisível e se assim fosse tudo seria feito de nada, e declinaria no nada, deixando de existir, o que não é possível.
A obra nos coloca uma porta que através da qual se descortina um horizonte. Não o nosso horizonte físico, mas um horizonte intelectual, psíquico, imaterial posto que é conhecimento.
Ela nos olha em sua inelutável e inexpugnável fortaleza diáfana (διαφανής: δια = diá: através de + φαίνω: phaino: τό φῶς φαίνει = to trazer em direção a luz, brilhar, mostrar); como nos diz Didi-Huberman (1998); e continua: “toda a visão só se pensa e só se experimenta em última instância numa experiência do tocar, e citando Merleau-Ponty, lembra que todo visível é talhado no tangível, todo ser tátil (é) prometido de certo modo à visibilidade, e que ha invasão, encavalgamento, não apenas entre o tocado e quem toca, mas também entre o tangível e o visível que está incrustado nele. Toda visão efetua-se algures no espaço tátil”.
Nessa porta aberta, Didi-Huberman, parafraseando Joyce, sugere que fechemos os olhos para que possamos ver. Pois o que está diante de nós nos remete, nos abre um vazio que, de sua lonjura nos fala; lonjura que é portanto a maior proximidade. Sua proximidade, no entanto, é a pura proximidade, ou seja a distância. E isso coloca novamente o problema da verdade na obra de arte.
Devemos nos afastar para ver, fechar os olhos para que possamos enxergar, entrever, divisar.
Outro aspecto a ser investigado é a “criação”, enquanto modalidade de trazer a luz entes diferenciados, i.e., insuflar ideia, forma, eidos, na matéria, no suporte, com a intenção de provocar o espanto, o estranhamento, através da forma, da ideia.
Ao aparecer na luz o novo ente (conteúdo) se desoculta, se desvela, possibilitando que seu sentido, significado, seja apreendido pelo olho que deseja (olho desejante) esse des-velamento instaura uma clareira, como afirma Heidegger (1998). A ideia se apresenta primeiramente como forma (eidos) e depois como conteúdo (sentido), que então passa a fazer constituir, a residir no fruidor.
A esse alvicúmulo corpo denudado, verdadeiro em sua aparência (existência), permite o conhecimento reflexivo. E então voltamos a Aristóteles, que tenta superar a oposição dos pensamentos de Parmênides de Eléia (que nega a realidade e da mudança e movimento) e Heráclito de Éfeso que via o ser sobretudo como vir-a-ser. Assim, Aristóteles afirma que é possível conhecer o que é o real concreto e mutável por meio de definições e conceitos que permanecem inalterados, deixando de lado o que é meramente acidental ou ocasional.
Existiria uma ciência primeira, a sabedoria (designada como Metafísica) que estuda o Ser e procura enunciar essa ordem subjacente que torna inteligível todos os fenômenos (Rezende, 1986). Sabemos que decorre dai a definição ocidental da essência do homem, ζῶ ον λόγον ἔχον (= zoon logon echon), animal rational, o ser vivo racional (Heidegger, 1998). Todavia, existe uma anedota contada por Bertrand Russell na qual ele afirmava que sempre lhe fora dito que o homem é um ser racional e que ele procurou diligentemente por evidências em favor dessa afirmação, muito embora ele nunca tenha tido a sorte de encontrar.
Deixando de lado, as idiossincrasias que alguns possam apresentar, pode-se tomar como universal essa característica humana inalienável. Desta forma, nossa racionalidade nos conduz inelutavelmente ao pensamento crítico, e este surge com o espanto o modo único de iniciar a filosofar. O que me olha de sua pura proximidade, instaura para si um locus especial. Desse lugar iluminado emerge, nasce, faz nascer, cresce, brilha um conceito. Em suas múltiplas camadas de sentido, instaura em nossa mente um problema. O que é isso? O que é isso que me olha? Ali estão múltiplos planos nessa linguagem plástica. O plano da expressão e o plano do conteúdo… É uma imagem? Em que suporte? Porque esse suporte? Que grafismo? Que, qual, quais os significados estariam ali ocultos? Meu corpo reage estesicamente. Qual conceito existiria ali?
A obra não esgota seus significados codificados em seu corpo. Diz Heráclito no fragmento 45: Limites da alma não os encontrarias, todo caminho percorrendo; tão profundo logos ela tem. O "logos" do artista esta na obra... e nem o logos nem o homem tem uma limitação em sua expressão.
A obra é parte do artista, parte de sua interpretação do mundo, ele próprio um sujeito em construção. O objeto de arte ali fala, observa, produz sensações, me induz a uma articulação entre o sentir e o pensar, ela faz eu me perder para depois me reencontrar no caminho para a significação.
Ao me espantar, me maravilhar com o que se apresenta, ela passa a dialogar comigo, com minhas ideias; a obra instaura-se como um fenômeno um aparecimento que transmite um saber, uma ideia um conceito. É nela e desde esse lugar privilegiado que nos damos conta que ela aparece e nos indica nos mostra a nós mesmos. Segundo Fogel (1999), “tal saber, em sendo o sentido, é pois orientação e, em sendo orientação, diz o movimento de nascividade e de instauração interessada, o qual os gregos, ao inaugurar-se da tradição, i.e., do interesse filosófico, denominaram “physis” (φύσις), “logos” (λόγος), “psyché” (ψυχή), nomes estes que apontam para variantes ou modulações de uma mesma experiência, de um mesmo “páthos” (πάθος), a saber, o abrir-se ou o revelar-se da experiência de pensar como movimento de conhecer e de saber… Filosofar (pensar) diz este participar, este tomar parte, ou seja, co- e per-fazer este movimento de instauração e nascividade. Isso diz, então co- e per-fazer gênese e é, então, um nascer com, um co-nascer. É isso o conhecimento em sua determinação arcaico-originária: “co-gnoscere”, i.e., co-nascer ou nascer junto, nascer com. Ser sob esse modo, que é o interessado, fazer isso, é ser concreto, é crescer com… isso que cresce, emerge, flora e aflora, aparece, instaura-se é a vida o movimento vida”.
Diante da obra de arte, diante de uma ideia que nos ausculta, nos observa só há um movimento, a saber, um movimento interessado: investigar, pensar, atravessar a porta para um novo lugar, dar um salto ao um outro plano. É um salto para fora da ação cotidiana, pois os olhos não estão acostumados a investigar, logo se cansam e desistem. Se cansam e desistem porque estão muito dentro do mundo, tão próximo que nem percebem o mistério contido em cada obra em cada passo desse caminho.
Aparentemente (para o olho desacostumado) nada aparece como um fenômeno, um aparecimento, uma epifania. Tudo é ordinário e sem sentido. Heidegger diz que o olho da multidão não se inclina para perceber aquilo que se mostra num olhar para além. O olho das pessoas é cego para os sinais.
é como o oráculo em Delfos que não diz (explicita) nem oculta, mas dá sinais...
No fragmento 16 de Heráclito lemos: “to me dinon pote pos an tis lathói” = Το μη δυνον ποτε πως αν τις λαθοι = face ao que nunca declina ninguém pode manter-se encoberto. (Το μη δυνον ποτε πως= o que ja não declina δυνον (adentrar o encobrimento, declinar: láthoi = estar encoberto).
Ora, declinar, segundo Heidegger (como os gregos o pensavam) é adentrar ao encobrimento, mas não deixar de ser ou passar ao não ser. Assim, penetrar no que se oculta é o que Hegel chama de Universum = o que se descobre e se oferece para fruição (Heidegger, 2002). Para pensarmos como um pensador, devemos não apenas perguntar: o que é isso o que agora vejo, mas o que faz com que isso seja um conhecimento para mim. O que caracteriza “isto” que esta “sendo” na minha frente? Nesse momento já atravessei a soleira da porta e a vejo a partir de dentro da obra. Ali encontro como um fio de Ariadne, que deixado propositadamente me olha desse lugar onde só a ideia pode habitar, co-habitar, o nosso pensamento deve ultrapassar o que se mostra à fruição.
Nesse salto que damos, encontramos o sentido do ser da obra, o seu significado, escondidos nos estratos ocultos e misteriosos desse ser. Juntos agora vigoramos como um saber, como uma única ideia. O que aparece apartar de si mesmo ou surge por sua presença mesmo é o seu próprio ser, i.e., seu significado sua entidade, como particípio (o que é que caracteriza isso que tem sido ante meus olhos? ou gerúndio (o que distingue, põe em evidencia isto que esta sendo?). Devo experimentar essa inquietação que a presença desse “objeto que esta sendo” e no qual eu me detenho, para apressadamente iniciar a pensar (pensar sem descanso) esse sobressalto esse maravilhamento que me olha, que me fala desde sua singularidade. Eu devo então traduzir o que ela me diz e interpretar esse discurso que acontece no tempo e para o tempo, para juntando tudo amalgamar-me com o que é. As sentenças que surgem são interpretações dos diferentes significados contidos ali naquela ideia feito obra. Ela diz o que quer dizer para quem quiser ver e ouvir.
Bibliografia
Heidegger, M. Heráclito. A origem do pensamento ocidental. Rio de Janeiro, R. Relume Dumará, 1998
Souza, José Cavalcante. Os pensadores - Pré-Socráticos Vol. I. São Paulo, SP; Ed. Nova Cultural; 1989.
Rezende, A Org. Curso de Filosofia. Rio de Janeiro, RJ. Jorge Zahar Editor/ SEAF; 1986. Rio de Janeiro; Nova Fronteira, 1999.
Manguel, Alberto. Lendo imagens. São Paulo, SP, Companhia das Letras, 2003.
Ferreira, Aurélio B. H. Novo Aurélio Século XXI.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Heráclito (visitado em 27/12/2014)
http://biblehub.com/greek/5316.htm (visitado 27/12/2014)
http://en.wikipedia.org/wiki/Rational_animal (visitado em 28/12/2014)
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http://www.gemenetzis.gr/images/article_pdf/vcdb20120320.pdf (visitado em 28/12/2014)
O estatuto das paixões segundo Aristóteles. Juliana S. de Almeida, in: Revista Eletrônica de Filosofia: Polymatheia.
http://www.uece.br/polymatheia/dmdocuments/polymatheiav3n3_estatuto_das_paixoes_segundo_aristoteles.pdf (visitado em 29/12/2014)
http://pt.wikipedia.org/wiki/No_princ%C3%ADpio_era_o_Verbo (visitado em 29/12/2014)
23 dezembro 2014
SOBRE AS IMAGENS
SOBRE AS IMAGENS
As imagens que posto são imagens com grande significado para mim. Normalmente as uso para pensar a arte e meu fazer dentro desse campo tão vasto. Este blo como um todo funciona como um diário visual, uma enciclopédia de ideias-imagéticas, uma vez que imagens são possuidoras de muitos significados (sobrepostos, superpostos, justapostos, contíguos e associados) e também possuem muitas camadas de significado e ideias ligadas. Somente para citar um exemplo: tomo a imagem do crânio abaixo; muitas espécies de primatas. Não tem somente uma ideia de morte (a mais básica de tidas), normalmente as pessoas param aí é dão grande valor a essa primeira aproximação. Mas há outros andares de significação igualmente interessantes e até mais abrangentes. Há a ideia de uma infraestrutura compartilhada, uma ideia de passado, a própria vida (com V maiúsculo), ideia de simplicidade (depois da decomposição (ideia de coisa composta "res compositae"), há uma ideia de criação (como um demiurgo platônico), há ainda uma ideia de manutenção. Outros conceitos que eu associo a essa forma são: saber, conhecimento, superestrutura na qual podemos ver além invocando conceitos abstratos como "sede sapientiae", espírito, alma, elã, entelequia (Aristóteles), vis vitalis. Há uma ideia de peso e leveza, de beleza e de sua deformação (o grotesco). Há uma ideia "capítulo" que organiza todo um conjunto de outros subconjuntos de conceitos como igualdade, pensamento, sentimento, saudade. Outro conceito que eu também trabalho e que articula um conjunto de ideias dessa imagem arquetípica é um ponto de início e fim (ponto de fuga), perspectiva (arquitetônica e metafórica), "alpha et ômega, primus et novissimus, initium et finis qui ante mundi principium"...
Uma ideia do "cogito" cartesiano do "cogito et ego sum"; e por isso mesmo uma ideia de homem em toda a sua complexidade e beleza, mas também de todos os males e atrocidades deixados na história como um rastro do homem. É também um rastro, resto, sinal, pegada, evidência, de uma entidade específica (Linnaeus). É também uma caixa de guardados! Memória e tempo. Espaço sagrado das ideias "είδος" (eidos) as formas de Platão. Mas também uma ideia de aparecimento nobre e grandioso, de fenômeno, physis (φύσις: surgir)
Noite (que supõe a luz, ardor, o fogo (πϋρ), de Heráclito, e a luz absoluta; (φάος: luz, φώς: claridade, φαίνω: brilhar, aparecer). Que para aparecer deve necessariamente ter força (φύσεωσ ἰσχύσ) força de poderes naturais.
φύσισ [ῠ], ἡ, φύσεως, poet. φύσεοσ φύσιοσ: dual φύσει, (φύω): origem, originar, nascer. A forma natural ou a constituição de uma pessoa ou coisa como resultado do desenvolvimento ou crescimento.
Uma clareira. Que se revela na verdade, na άλήθεια, o nome da verdade. O substantivo, o substantivo-adjetivado do que sempre aparece quando deixamos de ser. Mas também é e está no que somos. Natureza. Caráter. (φυσειν κοινή) princípio de crescimento no universo...
Substância elementar (... πῦρ καὶ ὕδωρ καὶ γῆν καὶ ἀέρα πρῶτα ἡγεῖσθαι τῶν πάντων εἶναι καὶ τὴν φύσης...)
(Thomas de Aquino. in Librum Aristotelis: περὶ γενέσεως καὶ φθορᾶς, (Peri geneseôs kai phthoras) De generatione et corruptione - expositio; Livro I).
De certa forma todas as imagens mantém entre si ou compartilham um passado no qual suas raízes se encontram na primeira imagem (o primeiro lampejo de luz que trouxe o "mundo" para dentro de nossa alma (ou mente) transformando-se na matéria mesma de nossa memória).
Assim, mesmo tendo sido (não podemos ter certeza de que são aquilo que mostram (ícone, índice, símbolo), e não podendo nos mostrar a coisa em si nem sua essência, sua existência cai num espaço-tempo distinto. Não são testemunhas fidedignas de um passado verdadeiro, absoluto; são como uma esperança que disputa lugar em nossa lembrança...
Mesmo a fotografia de um desenho representando um crânio lança a imagem num abismo. Do paradigma artesanal, manual, do desenho que é a expressão do artista e o fruto de sua habilidade manual e pesquisas, sucede o paradigma industrial da fotografia, que é a captura das aparências de uma coisa por uma máquina (André Rouillé,2008).
Entretanto, sendo nosso mecanismo de visão exatamente delineado como uma máquina fotográfica em nossa memória ou vice-versa (a máquina fotográfica que é delineada compondo mecanismo orgânico de ver) nossas memórias, restos, de uma realidade passada se assemelham a um registro fotográfico.
Em nossa memória as imagens formadas pela retina (imagens retinianas) guardadas, gravadas e evocadas, transformadas, são como um fotograma, enquanto a fotografia perdeu esse status de uma sombra do real para ser ícone, índice, símbolo de algo que não sabemos se é real. Por isso as imagens estão encharcadas de significados, de diferentes estratos temporais. Elas são camadas geológicas que ao olho e à mente ganham vida, sendo, i.e., pode-se afirmar que foram algo.
Como para os entes, a máxima afirmação que se pode fazer é o verbo ser declinado no presente continuo (É) as imagens pertencem ao passado onde sua afirmação máxima só pode ser declinada no pretérito perfeito (simples). Isto aconteceu, isto foi, isto ocorreu.
Isso posto uso as apropriações dessas imagens, muitas vezes alteradas, para acentuar um dos significados ou alguns significados ou camadas de significados. Em trabalhos em serigrafia uso essas imagens sobretudo alteradas ou parte dessas imagens para dar ênfase a uma ideia ou a um conjunto de ideias ou conceitos que quero mostrar.
Comparação entre a forma do crânio de diversos primatas
Imagem da silhueta de uma cabeça humana mostrando a vascularização (com os principais vasos)
Tipo de ilustração representando um crânio humano com rosas
Imagem de TV - mostrando parte do esqueleto humano
Foto da Lua (s/fonte)
Still do filme: Laranja Mecânica (A Clockwork Orange) 1971- A Stanley Kubrik Film.
Moldes da parte interna de crânios fósseis mostrando a vascularização do tipo Homo sapiens pré-históricos.
Collage com diversos elementos (fonte: internet)
Bombus sp. Insecta - ordem Hymenoptera
Cidadão portoalegrense toma banho num chafariz no centro da cidade
Figura humana
Philippe de Champaigne (1602-1674) - Natureza morta com crânio (Vanitas).
Pieter Claesz, Stil life, 1628
Pieter Claesz, Stil life, 1634
Bailey's skull with flowers
Pietr Claesz, Still life with a quill, 1628
Damien Hirst - For the love of God
Bibliografia
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