INÍCIO

21 junho 2026

DOIS AMANTES DE ANTINOÓPOLIS

OS DOIS AMANTES DE ANTINOÓPOLIS:
UM ENIGMA DA EGIPTOLOGIA 




Pintura em placa de madeira. de múmia representando dois irmãos de Faium. Período egípcio e romano, c. 30 a.C. – século II d.C.(3). Essas pinturas em placa de madeira (tábua) representando dois irmãos, conhecidas como “Retratos de Faium” por terem sido encontradas na cidade de Faium, eram retratos realistas colocados sobre os corpos mumificados. Acredita-se que talvez mostrem o falecido em seu melhor momento, possivelmente até mesmo retratos que eram pendurados nas casas, antes da morte. No entanto, essa teoria não é comprovada. Esses retratos eram essencialmente usados ​​como substitutos das máscaras mortuárias da múmia. Os egípcios adotaram o estilo de retrato realista de seus governantes da época e o integraram às suas antigas práticas religiosas. Em vez de máscaras mortuárias, essas tábuas de madeira com imagens dos mortos eram colocadas sobre o corpo e envoltas em tecido.

1. Introdução 

Entre os vestígios arqueológicos mais instigantes e únicos do Egito romano está um retrato funerário em forma de tondo, pintura circular, encontrado em Antinoópolis, no médio Egito. Essa obra, geralmente chamada de “Tondo of the Two Lovers” ou “Tondo of the Two Brothers”, representa duas figuras masculinas pintadas lado a lado sobre um painel de madeira e foi usada como placa facial de uma múmia. Este retrato é um dos exemplos mais raro e intrigante da arte funerária greco-romana associada ao culto de Antínoo, e permanece um mistério para a egiptologia moderna desde então. (1)


2. Retratos funerários em Antinoópolis: contexto e evolução

Depois que o imperador romano Adriano fundou Antinoópolis (Ἀντινόου πόλις) em 130 d.C. em homenagem ao seu jovem favorito Antínoo, que se afogou no rio Nilo e foi imediatamente deificado, a cidade nascente tornou-se um importante centro de culto ao novo deus e um pólo cultural no Egito Romano. (2)

Nessa região e em áreas próximas como o Oásis do Faium, era comum encontrar retratos funerários (Fayoum portraits), pinturas realistas de indivíduos, feitos sobre madeira que eram colocadas sobre as múmias. Esses retratos mostram com precisão a aparência individualizada dos falecidos e refletem a fusão de tradições egípcias e técnicas de pintura romanas. (3)

A maioria desses retratos representa um único indivíduo; por isso o Tondo com duas figuras masculinas é excepcional e tem atraído grande interesse e debate acadêmico. (1)


3. Quando o retrato foi pintado e seu contexto cronológico

O tondo foi datado por estudiosos entre cerca de 130 e 150 d.C., época em que o culto de Antínoo estava no auge em Antinoópolis e em partes do Egito e do Império Romano. Isso o coloca como um produto cultural direto do florescimento dessa religião local pouco depois da morte de Antínoo e da deificação oficial promovida por Adriano. (1)

A pintura é considerada contemporânea aos enormes investimentos artísticos e arquitetônicos que ocorreram na cidade logo após sua fundação, refletindo tanto influências egípcias quanto romanas. ([Tumblr][4])


4. A inscrição “15 Pachon” e o significado da data 10 de maio

No campo visual do retrato aparece uma inscrição discreta que registra uma data no calendário grego-egípcio “15 Pachon”. Essa data corresponde ao dia 10 de maio no calendário moderno. (1)

Até hoje nenhuma explicação conclusiva foi proposta para o significado dessa data. As interpretações possíveis incluem:

um possível dia de nascimento, morte ou outro evento marcante para os homens retratados;
um dia associado a rituais ou festividades privadas ligadas ao culto local de Antínoo;
uma comemoração particular independente das fórmulas litúrgicas oficiais. (1)

Dada a ausência de outros registros textuais ou arqueológicos que expliquem o contexto específico dessa data, ela continua um enigma, embora claramente fosse sagrada ou significativa para os envolvidos. ([honor the gods][5])


5. A presença de Antínoo no retrato e os deuses que acompanham as figuras

Um dos elementos mais notáveis do tondo são as pequenas imagens divinas pintadas acima de cada figura masculina, sugerindo um significado religioso ou cultual:

Acima da figura à esquerda aparece uma divindade identificada por muitos estudiosos como Osir-Antínoo, uma combinação sincrética entre o deus egípcio Osíris e Antínoo, que atua como deus patrono de Antinoópolis e símbolo de renascimento e proteção na vida após a morte. ([Antinoos][6])

Acima da figura à direita está representado Hermanubis, uma divindade híbrida associada ao submundo e à condução das almas. Hermanubis é uma fusão de Hermes (mensageiro dos deuses, também associado a guiar almas) e Anúbis (deus egípcio dos mortos), possuindo papel protetor no além. ([Antinoos][6])

A colocação desses deuses sobre os ombros dos retratados indica que o objetivo do retrato não era apenas memorizar seus rostos, mas ligar cada indivíduo à sua identificação cultual e espiritual, como seguidores ou devotos das divindades associadas ao culto de Antínoo. ([Antinoos][6])

Esse detalhamento iconográfico é especialmente significativo porque, de acordo com especialistas, este pode ser o único retrato sobrevivente de Antínoo, via sincretismo com Osíris, e o único retrato conhecido de fiéis do seu culto. ([Antinoos][6])


6. Quem são as duas figuras e por que estão juntas

A questão mais debatida é a identidade dos dois homens e o motivo por estarem retratados juntos:

Hipóteses tradicionais

Irmãos
A primeira explicação sugerida por estudiosos é que o tondo retrata dois irmãos, possivelmente mortos ao mesmo tempo e enterrados juntos. Essa leitura baseou-se em práticas familiares e na forma de apresentação do retrato. ([Antinópolis][1])


Interpretações contemporâneas

Lovers (amantes)
Pesquisadores mais recentes argumentam que não há evidências familiares visíveis no retrato, como semelhanças físicas marcantes ou indicadores textuais de parentesco, e que a presença das divindades sincréticas pode sugerir que esses homens pertenciam igualmente ao culto de Antínoo e tinham uma relação pessoal profunda fora do contexto familiar estrito. Por isso, alguns consideram que eles podem ter sido amantes ou companheiros espirituais, refletindo uma ligação que lembra a relação idealizada entre Adriano e Antínoo na mitologia cultual. ([honor the gods][5])

Outra possibilidade é que tenham sido mentor e discípulo, ou simplesmente dois devotos próximos unidos no culto e na morte. Atualmente, não existe consenso absoluto, e o retrato continua a ser interpretado de múltiplas maneiras, todas válidas dada a escassez de dados explícitos. ([honor the gods][5])

O Tondo dos Dois Amantes de Antinoópolis permanece como uma obra única dentro da arte funerária egípcia sob a influência greco-romana, não apenas por seu formato e técnica, mas pelo significado cultual que apresenta. Pintado durante o auge da Religião de Antínoo, ele nos oferece uma janela rara para a experiência religiosa e íntima de pessoas reais de Antinoópolis, ligadas ao culto de um deus que foi ao mesmo tempo humano, amante e divindade oficial. ([Antinópolis][1])


Principais fontes acadêmicas e referências para consulta

Ann E. Haeckl, “Brothers or Lovers? A New Reading of the Tondo of the Two Brothers”, Bulletin of the American Society of Papyrologists, 2001.

Allard Pierson Museum catalog. The Antinoopolitan Lovers portrait (Museu do Cairo, número CG 33267).

Fayoum Portraits (contexto artístico no Egito romano).
Museus nacionais (Cairo Museum, Met Museum). Bases online sobre Antínoo e retratos romanos-egípcios. ([Antinoos][6])

1)

2)


3)

4)

5)

6)

Outros 






Dez de maio (10/V), a Religião de Antínoo homenageia o retrato funerário dois homens chamado de: Dois Amantes de Antinoópolis, que viveram na Cidade Sagrada de Antinoópolis, cuja religião venerava o Belo Jovem, e cujo retrato conjunto é um dos mistérios da egiptologia.

Esse retrato circular, chamado de “tondo” devido ao seu formato redondo, foi utilizado como placa facial de uma múmia. A região de Antinoópolis e do Oásis de Faium é famosa por centenas desses retratos de múmias, que nos oferecem um vislumbre inestimável de como realmente se pareciam os habitantes da Cidade Sagrada. Acredita-se que esses retratos tenham sido exibidos nas casas das pessoas em vida e depois sepultados com o falecido, como um lembrete ao seu Ka de quem ele foi durante a existência mortal.

O tondo, porém, é único, pois apresenta dois rostos. Os arqueólogos não possuem uma explicação definitiva para o motivo de alguém desejar que a placa facial de uma múmia mostrasse os rostos de dois homens. A explicação convencional é que talvez fossem irmãos e que, quando um deles morreu, o irmão sobrevivente insistiu em sepultá-lo com o retrato conjunto, como demonstração de amor fraternal.

Entretanto, um simples olhar para o retrato revela que os dois homens guardam pouca semelhança física entre si.

Ainda mais marcante é a diferença na coloração da pele. Ao longo da arte egípcia, os homens eram tradicionalmente representados com pele de tom castanho-avermelhado, enquanto meninas e mulheres eram retratadas com pele clara e cremosa, essa era a regra iconográfica clássica da arte egípcia antiga. Essas cores não representam os tons reais da pele das pessoas, assim como os traços idealizados dos faraós não refletem sua aparência verdadeira.

Na arte egípcia antiga, mesmo quando dois indivíduos aparecem vestidos de forma quase idêntica, com perucas e vestes fluidas, é possível distinguir os papéis de gênero pela cor da pele.

Pele avermelhada indica masculino. Pele clara indica feminino.

Isso torna ainda mais intrigante o Tondo dos Dois Amantes, pois um dos homens apresenta coloração de pele escura, típica do “tipo masculino”, enquanto o outro possui pele muito clara, do “tipo feminino”. Esse contraste de cores era tradicionalmente reservado apenas a casais heterossexuais na arte egípcia.

Mesmo quando penteados e vestimentas são praticamente indistinguíveis na arte egípcia, a diferença nos tons de pele funciona como um indício visual de papéis de gênero. Qualquer egípcio da época perceberia imediatamente esse “jogo visual” e dificilmente o consideraria acidental. O artista que pintou o Tondo dos Dois Amantes parece ter deixado uma pista sobre a natureza da relação entre os dois homens.

O tondo foi datado entre 130 e 150 d.C., o que os colocaria como quase contemporâneos de Antínoo, vivendo em sua Cidade Sagrada no primeiro florescimento da Religião de Antínoo. O historiador francês da arquitetura **Jean-Claude Golvin** produziu esta impressionante reconstituição pictórica de Antinoópolis em seu auge.

De ainda maior significado são as pequenas imagens de divindades greco-egípcias posicionadas acima dos ombros dos dois homens. O homem de pele mais escura é protegido por uma figura que alguns especialistas identificam como Hermanúbis, um deus do submundo venerado na cidade vizinha de Hermópolis. Seu nome é interpretado de diversas formas como “Hermes/Anúbis” ou “Hórus-como-Anúbis”, dependendo se se adota a leitura latina ou egípcia.

O culto de Hermanúbis estava em ascensão em Roma nesse período, sendo interpretado como uma divindade solar que, assim como Hermes/Mercúrio e Hórus, conduzia os mortos através da escuridão rumo à luz eterna. Uma rachadura atravessa a figura, tornando sua identificação menos segura. Em determinado momento, Hermanúbis contou com um culto significativo na própria Roma, e seu rosto figurou em moedas imperiais. Contudo, esse culto foi suprimido quase tão rapidamente quanto surgiu, por razões moralistas difíceis de reconstruir hoje.

O jovem de pele mais clara e vestes mais refinadas é protegido por Antínoo, o deus patrono de Antinoópolis, que empunha um cetro dionisíaco e usa a coroa divina SWTY (Duas Plumas), símbolo de seus múltiplos e sagrados poderes. É irônico que os cristãos tenham posteriormente suprimido o culto de Antínoo por razões moralistas, assim como o culto de Hermanúbis fora suprimido anteriormente pelos romanos. Teria havido uma conexão sexual ou moral entre os dois cultos?

De todo modo, isso faz do Tondo dos Dois Amantes o único retrato pintado de Antínoo que sobreviveu, bem como a única imagem conhecida de dois prováveis seguidores de sua religião.

A tênue inscrição abaixo da imagem de Antínoo indica 15 Pachon, uma data do calendário grego que corresponde ao dia 10 de maio. Ninguém sabe ao certo qual é o significado dessa data, talvez um aniversário.

A figura mais jovem veste um magnífico manto vermelho, preso por um impressionante broche de ametista engastado em ouro, possivelmente uma relíquia de família. O artista dedicou grande cuidado à sua representação. O bordado da túnica branca é extremamente delicado, e um símbolo oriental de boa sorte em forma de suástica está costurado na manga direita.

Talvez o retrato tenha sido encomendado para o dia, 10 de maio, em que ele vestiu, pela primeira vez, as vestes masculinas, ao completar, 16 anos, conforme o costume romano. A penugem visível em seu rosto lhe confere o aspecto de um adolescente.

O homem mais velho (que poderia ter cerca de trinta e poucos anos) posiciona-se atrás dele, como se simbolicamente expressasse seu amor e apoio ao jovem companheiro. Ele poderia ser um irmão mais velho ou um tio, talvez até o pai do rapaz, já que a expectativa de vida era menor na época, e as pessoas se casavam cedo, tornando-se avós ainda na casa dos trinta.

Mas é possível que a composição e as sutis nuances dos tons de pele sejam pistas deliberadas do artista, indicando que esses dois homens compartilhavam uma relação entre um homem mais velho e um mais jovem, uma relação do tipo erastés/erómenos, característica da Grécia clássica, semelhante à de Adriano e Antínoo. Afinal, essa cidade foi fundada a partir do amor de Adriano por Antínoo.

O Templo de Antínoo homenageia esses dois homens no dia 10 de maio, o dia que foi tão especial para eles, por razões conhecidas apenas por eles próprios e pelos deuses que veneravam… Hermanúbis e Antínoo.













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