DOMESTICAÇÃO DO MILHO NO BRASIL
Apresento um resumo detalhado, seguido de destaque dos principais métodos, achados e implicações do estudo:
Archaeological findings show the extent of primitive characteristics of maize in South America (Costa et al., 2024) (science)
(DOI:10.1126/sciadv.adn1466) ([Science][1])
Com uma nálise das figuras disponibilizadas no artigo.
Resumo do artigo
Este estudo investigou restos arqueológicos de milho (Zea mays L. 1753) no Vale do Peruaçu, em Minas Gerais, Brasil, com o objetivo de verificar a presença de características morfológicas primitivas que indiquem que o milho chegou à América do Sul em estado apenas parcialmente domesticado, ou seja, antes de completar o processo de domesticação que se consolidou na Mesoamérica. (2)
Os autores reportam que esses materiais arqueológicos apresentam traços morfológicos “primitivos” (por exemplo, poucas fileiras de grãos, características próximas das plantas selvagens-parentes como a teosinte), que foram mantidos por um período bastante longo (entre aproximadamente 1010 e 570 anos antes do presente) e em local bastante distante do centro de origem do milho (~7.000 km do vale do Rio Balsas, México) e também distante dos centros secundários de diversificação (como a Amazônia Ocidental). (2)
Por meio de análises morfológicas (fragmentos de sabugos, espigas, grãos) e comparações com raças modernas de milho de várzea na América do Sul, bem como com teosintes (parentes selvagens), os pesquisadores argumentam que a dispersão do milho para a região de baixada da América do Sul se deu quando ele ainda mantinha traços primitivos e que ali esse estado persistiu por milênios, antes de evoluir para as formas mais domesticadas que hoje conhecemos. (3)
Além disso, os resultados reforçam a hipótese de que o processo de domesticação do milho foi mais complexo do que uma única origem seguida de dispersão linear, eles apoiam a ideia de uma domesticação estratificada ou gradual, com manutenção de diversidade genética e morfológica em regiões de baixada da América do Sul, contribuindo para a diversificação regional de raças de milho. (Cultivar 4)
Métodos
Amostras arqueológicas: o estudo fez uso de 282 fragmentos de espigas/sabugos, 12 grãos e 2 espigas completas, provenientes de escavações no Vale do Peruaçu. (ResearchGate 5)
Amostras comparativas: foram utilizados também 22 acessos de teosinte preservados no Museu Peabody de Arqueologia e Etnologia (Harvard), para comparação morfológica. (PubMed 2)
Caracterização morfológica: foram registrados descritores quantitativos e qualitativos, número de fileiras de grãos, forma da espiga, tamanho, etc. Por exemplo, os materiais arqueológicos com “traços primitivos” tinham quatro a seis fileiras de grãos por espiga, comparados aos oito ou mais observado em milho plenamente domesticado da região. (Cultivar 4)
Análise estatística multivariada: foi feita uma Análise de Coordenadas Principais (PCoA) e análise de agrupamento (cluster) usando morfologia e dados genômicos (mais de 5.000 SNPs) para posicionar essas amostras no contexto da diversidade de milho moderno. (ResearchGate 5)
Datação e contexto arqueológico: as amostras foram consideradas com idades entre ~1010 e ~570 anos antes do presente, o que indica a persistência destas formas “primitivas” até o período pré-colombiano tardio. (PubMed 2)
Principais Achados
Encontraram-se espigas/sabugos arqueológicos no Vale do Peruaçu que apresentam traços morfológicos muito próximos aos da teosinte (planta selvagem que deu origem ao milho), por exemplo, 4-6 fileiras de grãos (em contraste com 8+ em raças mais domesticadas). (Cultivar 4)
Tais amostras localizam-se muito mais distante do centro de domesticação (México) do que o esperado, e em ambiente de baixada da América do Sul — o que expande o alcance geográfico e temporal da manutenção de traços primitivos do milho. (Agência Fapesp 6)
As análises genéticas e morfológicas (PCoA, clusters) mostram que essas amostras arqueológicas se agrupam com raças de milho de várzea (floury maize races) da América do Sul, e em certa medida próximas aos teosintes, o que sugere que a dispersão do milho em estado parcialmente domesticado permitiu a diversificação regional. (Science 1)
Os resultados reforçam a hipótese de que o milho não se domesticou de uma vez, ou seja, não há simplesmente “milho domesticado no México → dispersão”. Ao contrário, parece ter havido formas intermediárias, introduções múltiplas ou lenta fixação de caracteres de domesticação em regiões periféricas. ([PMC][3])
Implicações
Evolução da domesticação agrícola: o estudo amplia nossa compreensão sobre como culturas importantes do mundo moderno, como o milho, foram domesticadas e dispersas. Ele mostra que regiões “marginais” (em termos de domesticação clássica) podem ter mantido formas primitivas muito tempo, servindo como reservatórios de diversidade genética.
Genética e conservação de diversidade: encontrar formas primitivas tão tardias em regiões isoladas sugere que raças de milho da América do Sul têm valor especial como recursos genéticos (diversidade, tolerâncias, genes ancestrais). Isso implica políticas de conservação e possível reavaliação de origem/domesticação.
Arqueologia agrícola e antropologia: a presença de milho parcialmente domesticado até ~500–1000 anos atrás em uma região remota indica conexões entre culturas humanas, transporte de plantas e adaptação a diferentes ambientes — implicando que as sociedades indígenas de baixada tiveram papel maior nessa história do que muitas vezes reconhecido.
Direito genético e geopolítica: como apontado em resumos de divulgação, se raças domésticas acabaram sendo desenvolvidas ou mantidas no Brasil ou baixadas da América do Sul, isso pode ter implicações para direitos de propriedade, reconhecimento de diversidade agrícola tradicional e regimes internacionais de germoplasma. (Agência Fapesp 6)
Análise das Figuras
Segue abaixo uma breve análise das figuras principais do artigo:
Figura 1
– Mapa de distribuição: localização do vale do Peruaçu, vale do Balsas (México), Amazônia sudoeste, e registros arqueológicos de milho. Mostra a singularidade geográfica da nova evidência. (ResearchGate5)
– Fotografias de fragmentos arqueológicos: espigas, sabugos, grãos e endosperma farináceo encontrados no vale do Peruaçu. Apresenta comparativos visuais de espigas “primitivas” vs “totalmente domesticadas”.
Essa figura é importante porque oferece a evidência material visível que fundamenta os achados morfológicos.
Figura 2
– Caracterizadores morfológicos da teosinte: comparação entre subgrupos de teosinte (grupo 1 e 2) e amostras arqueológicas de milho com traços primitivos no vale do Peruaçu. Mostra número de fileiras de grãos, forma da espiga, etc.
Essa figura reforça a hipótese de que as amostras arqueológicas se aproximam da teosinte, ou pelo menos mantêm traços ancestrais.
Figura 3
Estrutura genética/morfológica das raças de milho de várzea da América do Sul: (A) PCoA com acessos modernos + amostras arqueológicas; (B) análise de agrupamento (Ward) morfológica; (C) clusterização baseada em ~5 313 SNPs; (D) mapa das ecorregiões.
Esses resultados mostram estatisticamente que as amostras arqueológicas ocupam posição intermediária entre teosintes e raças plenamente domesticadas, suportando a tese de dispersão em estado de domesticação parcial.
Figura 4
Relação de similaridade entre teosintes modernas, amostras arqueológicas e raças atuais de milho de várzea. Inclui dendrograma e fotos comparativas das espigas.
Refina o entendimento de que há continuidade entre as formas primitivas arqueológicas, as formas selvagens e as raças regionais modernas de milho — evidenciando uma genealogia complexa.
Considerações finais
Em síntese, o estudo de Costa et al. (2024) representa uma contribuição significativa para o entendimento da domesticação e dispersão do milho. Ele amplia o alcance geográfico e temporal de formas primitivas de milho na América do Sul, reforça a diversidade genética das raças sul-americanas e questiona modelos simplificados de domesticação linear.
Para futuros estudos, a aplicação de arqueogenômica plena (sequenciamento do genoma dessas amostras arqueológicas) poderá esclarecer com mais precisão as rotas de migração, introgressões e processos de seleção regional.
Fonte
https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.adn1466
[1]
https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.adn1466?utm_source=chatgpt.com "Archaeological findings show the extent of primitive ..."
[2]
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39231236/?utm_source=chatgpt.com "Archaeological findings show the extent of primitive ..."
[3]
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11373604/?utm_source=chatgpt.com
"Archaeological findings show the extent of primitive ..."
[4]
https://revistacultivar.com/index.php/news/Discovery-in-the-Peruacu-Valley-reinforces-theory-about-corn-domestication-in-South-America?utm_source=chatgpt.com
"Discovery in the Peruaçu Valley reinforces theory about corn ..."
[5]
https://www.researchgate.net/publication/383755155_Archaeological_findings_show_the_extent_of_primitive_characteristics_of_maize_in_South_America?utm_source=chatgpt.com "
(PDF) Archaeological findings show the extent of primitive ..."
[6]
https://agencia.fapesp.br/partially-domesticated-maize-is-found-in-caves-in-minas-gerais-state-brazil/53456?utm_source=chatgpt.com
"Partially domesticated maize is found in caves in Minas ..."
Milho ancestral é encontrado em cavernas de Minas Gerais e altera a ideia de que o milho foi domesticado apenas a partir do México.
Amostras de milho (grãos, espigas e palha) ainda não totalmente domesticado encontradas em cavernas no Vale do Peruaçu, no norte do estado brasileiro de Minas Gerais, foram determinadas como as mais distantes já encontradas do centro de origem da planta, o México.
Os resultados foram divulgados no dia 04 de setembro de 2024, em um artigo publicado na revista Science Advances, em trabalho liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que você pode conferir na íntegra nesse link: https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.adn1466 .
A descoberta reforça achados do grupo publicados em 2018, na revista Science, que mostrava evidências genéticas, em plantas atuais, de que o milho poderia ter finalizado sua domesticação também na América do Sul.
Faltava encontrar amostras de indivíduos semidomesticados no continente, que se revelaram em espigas, palha e grãos encontrados em escavações arqueológicas realizadas no Vale do Peruaçu em 1994, por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
“A princípio, essas amostras foram consideradas apenas exemplares de milho domesticado que não cresceram o suficiente. A partir da evidência genética de que o processo final de domesticação poderia ter ocorrido na América do Sul, reavaliamos o material e encontramos diversas características em comum com a planta que originou o milho no México, 9 mil anos atrás, e a que chegou no sudoeste da Amazônia, 6 mil anos atrás”, explica Flaviane Malaquias Costa, primeira autora do estudo, realizado durante doutorado e pós-doutorado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP, este último com bolsa da FAPESP.
A distância do México para o Vale do Peruaçu é de cerca de 7.150 quilômetros, enquanto do sudoeste da Amazônia, atuais Rondônia e Acre, em torno de 2.300 quilômetros. As amostras, portanto, são as mais distantes do centro de origem da planta já encontradas com essas características primitivas.
Embora as evidências arqueológicas registrem entre 10 mil e 9 mil anos atrás a presença de populações humanas no Vale do Peruaçu, o milho parece ter chegado à região apenas cerca de 1.500 anos atrás. As amostras da planta semidomesticada encontradas no local vão de 1.010 até cerca de 500 anos atrás, quando os europeus aportaram no continente.
“Isso mostra a importância das populações indígenas do passado, que selecionaram, manejaram e fixaram características que deram origem às raças de milho atuais da América do Sul. Seus descendentes continuam realizando esse trabalho ainda hoje, contribuindo para mantermos nossos recursos genéticos”, conta Fábio de Oliveira Freitas, pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília, coautor do estudo.
A partir da análise de diversas características do milho encontrado nas cavernas no Peruaçu, os pesquisadores determinaram um parentesco com a raça brasileira Entrelaçado, presente nos Estados do Acre e de Rondônia.
“Esta foi uma das raças que se originaram na América do Sul a partir da seleção de outras populações, cujas variedades atuais encontramos durante nosso projeto de pesquisa. Nele, rastreamos milhos em vários locais do Brasil e Uruguai”, lembra Elizabeth Ann Veasey, professora da Esalq-USP que orientou o doutorado de Costa e coordenou projeto apoiado pela FAPESP.
Fileiras ancestrais
Para diferenciar milhos domesticados daqueles que não tiveram esse processo concluído, os pesquisadores examinaram uma série de marcadores, características morfológicas que ajudam a determinar a distância da planta de sua versão selvagem.
Um desses traços é o número de fileiras de grãos, sendo abaixo de oito considerado de uma planta primitiva. Essa é a quantidade encontrada no teosinto, espécie forrageira (popularmente conhecida como dente-de-burro) que teria dado origem ao milho no México cerca de 9 mil anos atrás.
Enquanto raças de milho atuais de terras baixas na América do Sul podem ter de oito a 26 fileiras de grãos, as amostras arqueológicas do Peruaçu apresentam entre quatro e seis fileiras. As análises foram realizadas num total de 296 amostras, incluindo espigas, palha e grãos
“Fizemos uma viagem no tempo que vai de um passado distante até os dias de hoje, dos vestígios arqueológicos às raças e variedades mantidas e ainda sendo diversificadas pelos povos tradicionais, os protagonistas dessa história”, reforça Costa
As amostras agora passam por análises arqueogenéticas com parceiros internacionais, realizadas por meio de um conjunto de técnicas de última geração que, se bem-sucedidas, poderão sequenciar o genoma completo do milho encontrado no Peruaçu e determinar com precisão seu parentesco.
As cavernas do Vale do Peruaçu são algumas das poucas no mundo com pinturas rupestres de espécies cultivadas. Além de ilustrado nas paredes, o milho foi encontrado em cestos enterrados, provavelmente como oferenda aos mortos sepultados naqueles sítios.
A descoberta também tem um desdobramento geopolítico. Uma vez que se estabelece que raças de milho terminaram o processo de domesticação aqui no Brasil, esses recursos genéticos podem ser considerados não mais exóticos, o que implica a necessidade de esforços para sua conservação e direitos em tratados internacionais sobre o tema.










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