INÍCIO

01 maio 2025

O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO

O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO











OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO 
(Vinicius de Moraes 1959)

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa 
- Garrafa, prato, facão 
- Era ele quem os fazia 
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão. 
Ah, homens de pensamento 
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela 
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia 
- Exercer a profissão 
- O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia. 
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava. 
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita 
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução. 
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário 
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo 
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não. 
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia 
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria. 
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas. 
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não! 
- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu? 
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração 
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão. 
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido 
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.


Hoje é dia do trabalhador. Nosso dia! Dia daqueles que levantam cedo, fazem a higiene pessoal, preparam o café e saem antes das sete horas da manhã todas as manhãs e na maioria das vezes até sábado. 
Hoje trarei um poeta que escreveu sobre os trabalhadores seus trabalhos suas lutas, seus sonhos e sua vida. 


Vinícius nasceu em 19 de outubro de 1913, no Rio de Janeiro. Foi cantor, compositor, jornalista e diplomada. É um dos poetas mais populares do Brasil, carinhosamente chamado de “poetinha” pelo amigo Tom Jobim. (coletivocopel)
Embora ligado à canção brasileira, ao teatro e ao cinema, Vinícius sempre teve a poesia como sua principal vocação. A junção da poesia com a música o levou a parcerias que fazem parte da história da MPB, com Tom Jobim, Chico Buarque e Toquinho, entre outros.
Aos 20 anos, em 1933, o “poetinha” lança seu primeiro livro, intitulado O caminho para a distância, mas é dois anos mais tarde, ao lançar Forma e exegese que vai ser reconhecido como poeta, com o livro recebendo elogios do poeta Manoel Bandeira.
Em 1941, Vinícius começa no jornalismo e nos estudos para a carreira diplomática. Em 1946 assume o primeiro posto diplomático, em Los Angeles, EUA. Em 1954, Orfeu da Conceição, sua peça para o teatro, é encenada pela primeira vez, vindo depois a ser adaptada para o cinema. Nessa peça, Vinícius se inspira no drama da mitologia grega para recriá-lo no ambiente do carnaval brasileiro.
Com o golpe militar de 1964, se coloca ao lado dos que lutaram pela democracia. Em 1968, quando da edição do Ato Institucional No 5 – AI5, realizando um show em Portugal, Vinícius faz do palco um ato de protesto, lendo seu poema “Pátria Minha”. Foi exonerado dos serviços no Itamaraty no ano seguinte, por ordem direta de Arthur Costa e Silva.
Em 1979, em plena greve dos metalúrgicos no ABC paulista, Vinícius de Moraes lê, em uma das assembleias lotadas de gente, “O Operário em Construção”, sendo aplaudido por milhares de trabalhadores. O poeta faleceu no ano seguinte, no dia 9 de julho, em sua casa na Gávea, vítima de embolia pulmonar. O parceiro Toquinho estava a seu lado.
“Operário em Construção” foi escrito em 1956, do começo ao fim falando da tomada de consciência de um operário da construção civil, mas remetendo a consciência de todos os trabalhadores.
O poema é escrito no melhor estilo rimado das poesias do cordel popular e é totalmente inspirado na passagem bíblica do Evangelho de Lucas, em que Jesus, no deserto, enfrenta as tentações do demônio. A passagem é transcrita por Vinícius antes de iniciar o poema, tal e qual: 

“E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. 
E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.

E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.

Lucas, cap. IV, vs. 5-8.

No poema, esse embate é transferido para o patrão, que tenta comprar a consciência do operário e para seu “não” como resposta. Mas nesse embate está toda riqueza do poema. Vinícius mostra a consciência como uma conquista de visão e de conhecimento do trabalhador: “o que via o operário, o patrão nunca veria”.

Poucas são as criações da literatura que deram conta de mostrar, de forma tão consistente e bonita, a lógica das relações de trabalho, incluindo a percepção da exploração pelos trabalhadores e a noção de que não acontece com um apenas, mas com todos:

“O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.”

Também estão ali a delação de companheiros que preferem unir-se aos interesses dos patrões e delatar o companheiro, mas acima de tudo está a consciência histórica:

“E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.”

Pode-se dizer que Vinícius nesse poema foi um pedreiro mestre no ofício. Casa palavra colocada no prumo, assentada no todo. Uma verdadeira obra prima.
Como se trata de um longo poema, aqui publicamos seus trechos principais.





Fonte 











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