INÍCIO

07 dezembro 2023

MORTE

Assim morre um professor


Morre
Depois de ler um livro. 
E reclinando-se para trás, na poltrona,
considerando como expressá-lo em palavras

Morre
Depois de trabalhar numa ideia, 
Num conceito…
Numa passagem filosófica
que julgou importante


Morre…
 depois de encontrar uma rocha sedimentar com fósseis 
E imaginar que seus alunos iriam aprender muito 
se lhes mostrasse (esse achado)

Morre
Depois de uma boa ideia,
Com um bom vinho
para elevar o dia-a-dia
Melhorando vidas

Morre,
depois de pensar que poderia salvar todas as almas da ignorância…
Subtraindo-as das trevas do obscurantismo 
E trazendo-as para a luz do conhecimento, 
para a luz da ciência 
que nunca se apaga…

Morre,
Depois de uma vida inteira com esperança 
em um mundo melhor 
construído pelos alunos… 
num outro (mundo) possível 

Morre de saudades de estar com aquelas jovens almas 
que representam o novo, 
o maravilhoso, 
a revolução, 
pois todo jovem é revolucionário 
Tem o dever de ser…
Possibilidades

Morre de tristeza 
Por gestores que sucateiam escolas 
Que lentamente asfixiam universidades 
centros de construção do saber. 

Morre todos dias 
pela incompreensão 
e pelo fascismo diário 
Pela indiferença 
Pelo descaso

Morre a cada hora 
pelo retrocesso 

Morre a cada minuto 
pelo conservadorismo e pela ignorância 
pela arrogância 
de gestores autoritários 
Diretores néscios
Estúpidos 
Boçais…

Morre, 
a cada momento 
pelo controle 
… pelas mãos dos burocratas…
Por atos de chefes abusivos


Morre num átimo 
Deixando tudo inacabado.

Se vai 
devagarinho 
deixando uma lembrança, 
Papéis manuscritos, 
Uma Biblioteca 
Um Blog,
Um perfil nas redes sociais 
Um livro inacabado
Uma tese
Um diário cuja última frase não pode colocar um ponto

Morrem 
deixando lembranças de suas aulas, 
de suas leituras 
De suas lições peripatéticas 
pelos campos e parques 
Pelas ruas e praças 
Nas quadras de esportes que ensinaram

Se vão 
Deixando saudades em alguns, 
de suas perguntas
De suas inquirições…
Questionamentos…
De seus voos de imaginação 
desenvolvendo a lógica, 
o senso crítico, 
a ciência, 
o pensamento científico. 
O movimento correto
O exercício ideal

A verdade, é que
Partem de madrugada 
Quando todos dormem…
Partem sem avisar ninguém 
Como partiram os mestres de nossos mestres.

A verdade é que se vão…
Sem alarde 
Sem dizer uma palavra, 
(e) Sem aviso.

É como quando fazem a chamada, 
havendo um silêncio 
O mestre se pergunta, 
por que este aluno está ausente…

os mestres se vão na ponta dos pés…
Sem ruídos…
Para não incomodar ninguém 

Partem, 
Como alguém que inesperadamente chegasse 
em uma manhã de domingo 
E a tarde no meio do inverno 
Num dia chuvoso… 


Eles vão sozinhos
Assim como chegaram, 
Cheios de lembranças 
e sonhos

Levam tudo o que viram
Dias chuvosos, 
E ensolarados
Noites escuras 
Enluaradas

Afastam-se levando consigo
imagens de tudo, 
da praia, do campo, 
montanhas e vales
Trilhas e passagens
Animais e plantas, rochas 
e estrelas do céu… 
Quadras, bolas, pincéis, tintas,
e pessoas em um baile de formatura…
cheios de desejos e esperança…
Sonhos

Eles se vão, 
deixando o espanto no rosto dos que ficam 

Se vão 
deixando uma interrogação 
no semblante discente 

“Eu poderia e queria ter conversado mais…
 quantas coisas mais ele poderia ensinar?”
Quanto mais poderia aprendeu eu…


Morrem a todo minuto 
quando ainda há tanto a expressar… 
(e)
o tempo foi curto,
a conversa atrapalhou,
o assunto se desviou,
A aula acabou
o currículo foi mais importante
 

Morrem …
e vão para um outro céu 
Mais sereno e justo, 
onde só a igualdade importa 
Onde outro Sol brilha desde sempre. 
Onde as flores não murcham 
e o campo é sempre verde de ideias…

Morre em cada aula 
Em toda lição preparada e ministrada
Em cada fórmula deduzida.

 Cada ideia e palavra
E cada pensamento e gesto
Cada esquema no quadro negro
é um 
memento mori

Sua alma expira 
em todo “bom-dia alunos”…

Num seráfico momento 
Sua alma escapa do corpo
Como uma borboleta na brisa,  
Um sopro
Deixando sem vida aquela 
Frágil nave 
Que logo é comida pelos vermes… 

Mas os vermes não tocam nas ideias
Mal sabem eles que um dia ali havia sinapses de fogo, 
imagens únicas 
Movimentos perfeitos
Notas musicais,
Técnicas aprimoradas
Desenhos-desejos
Que um dia pularam pelas palavras 
Viajaram nas frases
Para outros neurônios 
outras mentes 
Para mentes que se abrem ...
Sementes

Se vão em silêncio
Como a neblina que se dissipa
Numa manhã ensolarada

“O meu corpo que ensina alunos, desaparecerá. 
E o estado é o culpado. Toda culpa recairá sobre os agentes sentados na cadeira que devia emanar a vida e realização para todos os trabalhadores dessa nação tão grande mas tão pequena”.






A.P. MSc, BSc, MM

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