Expresso do amanhã
Snowpiercer
https://youtu.be/x4lzz3Fvsc4
Filme
A narrativa é uma literal Jornada do Herói do ponto A, os últimos vagões do trem, até o ponto B, a locomotiva.
Proloff é esse homem que é preso quando chega em algum lugar na metade dos 1.0001 vagões que compõem esse último bastião da humanidade.
Mas essa jornada encontra como obstáculo algo menos palpável que outras, mas talvez muito mais difícil de se escapar, o determinismo social que o relegou aos vagões fundistas, onde falta tudo, de comida à higiene mais básica, de calor à espaço para andar. Sua prisão quando ele alcança o meio, onde a história começa, é menos em razão de ele ter chegado lá e mais porque a ascensão social é, nessa sociedade, intolerável.
Proloff é ajudado por Adeline Belleau, uma jovem “do meio” que faz parte de um movimento para integrar as populações separadas por classes, reduzindo o abismo sócio-econômico existente. Ainda que seus propósitos sejam nobres e ela, aprisionada com Proloff, acabe tendo um relacionamento amoroso com ele, Lob inteligentemente torna tudo muito enevoado, combinando as motivações da moça com sentimentos de uma culpa que ela carrega por ser mais privilegiada (ainda que menos do que os habitantes dos luxuosos vagões da frente) que o fundista que ela tenta salvar, em uma crítica ferina ao assistencialismo, mas sem simplesmente dizer que esse aspecto não é importante, pois seria leviano.
E os dois, juntos, passam, então, a caminhar até a locomotiva desse trem utópico em uma narrativa simples e literalmente em linha reta que tem sua parcela de ação, ainda que muito limitada e por vezes confusa e simplista demais.
É também, por vezes, um “passeio turístico” por esse microcosmo criado por Lob que é obviamente muito representativo do mundo real em que vivemos, mas sem que o autor carregue as críticas para esse ou aquele sistema econômico, preferindo abordar a questão de maneira mais filosófica, convertendo Proloff em uma espécie de messias, de profeta, que passa a ser encarado por todos, fundistas e frentistas, como uma fusão de esperança de mudanças e ameaça ao status quo.
A arte em preto-e-branco de Jean-Marc Rochette é dura, com traços firmes e fortes, expressões faciais desalentadas e desesperançosas e uma pegada razoavelmente realista do interior do trem em perpétuo movimento.
Os elementos claramente sci-fi são mantidos no mínimo possível, ao passo que a sensação de enclausuramento e, claro, claustrofobia, são amplificados ao máximo, literalmente trazendo para a Nona Arte a representação do determinismo social.
Como se sabe desde o início, a história é finita. O foco é decididamente pessimista e até niilista e, em tese, não permitiria uma continuação, ainda que as portas não sejam fechadas de maneira absoluta. Seja como for, O Perfuraneve ou "Expresso do amanhã" é um excelente estudo antropológico-filosófico da estratificação social em um ambiente controlado que repercute muito fortemente no panorama mundial da época em que foi escrito e, infelizmente, talvez até hoje em dia. Uma bela, mas triste, visão de futuro.
EXPRESSO DO AMANHÃ
https://youtu.be/zstihByJe9I
Não poderia haver momento mais favorável para a estreia da série Expresso do amanhã, produção em 10 episódios que a Netflix lança nesta segunda-feira (25). A distopia reimagina um mundo confinado, em que os 3 mil sobreviventes de um apocalipse climático na Terra vivem em um trem que roda o planeta sem parar. Mais: traz como chamariz o cineasta mais falado deste ano e do anterior (em).
O sul-coreano Bong Joon-ho, de Parasita, grande vencedor do Oscar 2020, com quatro estatuetas (incluindo as de melhor filme e diretor), é um dos produtores-executivos da série, desenvolvida a partir de seu filme homônimo, lançado em 2013. Expresso do amanhã é o primeiro longa-metragem de Joon-ho falado em inglês (em).
Série e filme têm como ponto de partida uma célebre graphic novel francesa, O Perfuraneve (1984), da dupla Jacques Lob e Jean-Marc Rochette. A Editora Aleph publicou em 2015 uma edição completa dessa narrativa, incluindo a inicial e suas duas sequências – O explorador (1999) e A travessia (2000) –, essas duas de autoria do francês Benjamin Legrand (em).
Ainda que mudem o formato e o tratamento, a gênese da narrativa é a mesma. Perfuraneve em português, Snowpiercer em inglês, é um trem com 1.001 vagões (16 quilômetros de comprimento) que parte de Chicago para tentar salvar a humanidade. Ele roda o globo sem paradas – caso deixe de se movimentar, será dominado pelo gelo que consumiu a Terra após um desastre ambiental. Só que, para que a experiência seja bem-sucedida, lei, ordem, hierarquia, divisão social, nada pode estar fora do lugar.
O responsável pela série é Graeme Manson, mais conhecido por outro drama sci-fi, Orphan black (2013-2017). Para ganhar o formato serial, a narrativa original desenvolveu subtramas e nuances novelescas. O elenco é encabeçado por Jennifer Connelly, em ótimo momento como uma mulher competente e machucada, e Daveed Diggs, ator, rapper e produtor mais conhecido pelo musical Hamilton, da Broadway, que lhe rendeu um Tony e um Grammy. A dupla reprisa os papéis que foram no cinema de Tilda Swinton e Chris Evans (em).
EMPRESÁRIO
No trem, os dois têm função semelhante, mas totalmente oposta. Connelly é Melanie Cavill, braço direito do Sr. Wilford, o empresário visionário que criou o Snowpiercer para salvar a humanidade. É a voz de Melanie que ecoa diariamente nos 1.001 vagões, ditando o dia e o horário, e as novidades. Ninguém vê o Sr. Wilford, tudo vem diretamente de sua porta-voz (em).
Com a voz suave, porém determinada, Melanie comanda os passageiros da primeira, segunda e terceira classes. As duas primeiras são ocupadas por pessoas que compraram passagens. A terceira, pelos trabalhadores que fazem a máquina funcionar, seja labutando na agricultura ou na pecuária (sim, o mundo lá fora cabe no Snowpiercer).
É no fundo, literalmente, que reside o problema, pelo menos aos olhos dos ocupantes das classes superiores. Quando o trem deixou a estação de Chicago, centenas de pessoas tentaram embarcar à força. Muitas não sobreviveram à ferocidade dos soldados. Mas 400 continuam ali, passados sete anos do embarque e a despeito das doenças, do frio, da fome. Não são a quarta classe, são os “fundistas” (em).
Não precisa ser um expert na obra de Boon Joon-ho para entender o que fascinou o cineasta. O abismo social, tema central da obra do sul-coreano, é o que move Expresso do amanhã. Se o filme trata de forma alegórica (e violenta) da relação daqueles que têm e daqueles que não têm, a série traz menos sutilezas.
No fundo, Andre Layton (Diggs) é uma figura respeitada, uma referência moral entre aqueles que se viram desprovidos de tudo. Eles querem fazer uma revolução, mas não há meios, pelo menos por ora. Uma ajuda do destino acaba colocando Layton fora das gaiolas do fundo.
Um corpo desmembrado apareceu na parte inicial do trem. Layton é o único policial entre os 3 mil passageiros (era detetive da polícia de Chicago antes do fim do mundo). É tirado de seu lugar para averiguar o ocorrido e logo se dá conta da presença de um serial killer no Snowpiercer (em).
Já adiantando um pouco, isto será apenas uma desculpa para que o personagem descubra o funcionamento e a hierarquia do trem. Layton quer é fazer uma revolução e libertar o povo do fundo. Vai aprender, na marra, que para fazer política é necessário bem mais do que um grande coração.
Com as cartas na mesa, Expresso do amanhã vai, a cada episódio, explorando uma nuance das relações humanas em uma situação extrema. No início de cada capítulo, um personagem faz uma pequena narração em off, antecipando o que será visto na hora seguinte(em).
Os dilemas morais (e a falta deles) estão em vários personagens secundários, que ganham e perdem protagonismo à medida que a narrativa avança. É fácil fazer uma relação com o mundo aqui fora, independentemente de onde estiver o espectador.
O Snowpiercer conta com uma força policial, que lida, principalmente, com o dia a dia do fundo. Estes não têm direito de portar armas de fogo. Acima deles estão os paramilitares, que chegam com toda a força e passam como um trator por cima daqueles que os ameaçam (e, sim, a série tem uma sequência de batalha que se esmera em membros arrancados e sangue jorrando). Para aqueles do fundo que tentam medir forças, só há duas opções: a morte ou, em casos mais comuns, a amputação de um dos braços (e essas são as cenas de maior violência que a série exibe).
A elite se entedia com a vida de fofocas no café-restaurante, e sua preocupação maior é se a carne está no ponto ou não. Há também o vagão-leito, uma boate/bordel com salas escuras que não servem exclusivamente para sexo, mas para tentar encontrar as memórias de um passado distante. Entre os terceiro-classistas está o submundo, com o tráfico de kronole, a droga existente no trem.
CLASSE
Mudar de classe é muito difícil, mas viável por meio de um relacionamento amoroso, por exemplo. Um contrato assinado pelas duas partes dá acesso ao mundo da classe superior, tal como se fosse um contrato de casamento. Democracia não há. No regime autocrático imposto por Wilford, quem tem direito é quem detém as posses. Quem está de fora só existe para manter a máquina em funcionamento. Expresso do amanhã chega ao final da primeira temporada deixando questões sem resposta e o caminho aberto para a segunda, já confirmada. Mesmo para quem já assistiu ao filme original, pautado por um combate contínuo, a série, ainda que com algumas situações banais e dramas que não chegam a empolgar, consegue expandir o universo da narrativa. Mais importante, a produção “conversa” com espectadores do mundo inteiro, que, a despeito das diferenças sociais, culturais, políticas e econômicas, encontram-se enclausurados neste momento.
Uma critica água com açúcar
EXPRESSO DO AMANHÃ
Série em 10 episódios na Netflix. Nesta segunda (25/maio/2020), estreiam os dois primeiros; os demais serão lançados semanalmente.
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CONTINUARÁ..
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