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07 junho 2021

SUB ROSA

SUB ROSA 

UT ROSA FLOS FLORUM, SIC EST DOMUS ISTA DOMORUM


“[R]edimir na própria a pura língua, exilada na estrangeira, liberar a língua do cativeiro da obra por meio da recriação, essa é a tarefa do tradutor” (W. Benjamin, in Buck-Morss, 2002: 5)

Sub rosa expressão latina para "sob a rosa" embaixo da rosa, denota sigilo ou confidencialidade. A rosa tem uma história antiga como símbolo de sigilo, do que é secreto e místico.

A rosa também simboliza a perfeição, o amor, o coração, o coração de Cristo, a paixão, a alma, o romantismo, a pureza, a beleza, a sensualidade, o renascimento. 
Simboliza também o secreto, é o emblema de tudo que é secreto, misterioso e místico. 
E, de acordo com sua cor, pode simbolizar a lua (branca), o sol (amarela) ou o fogo (vermelha). Universalmente, essa flor complexa e aromática representa o símbolo do amor e da união, famosa por sua beleza e seu perfume. Não obstante, o desabrochar do botão da rosa simboliza o segredo e o mistério da vida.









Moeda grega de Rodes 



Rosa spp

O gênero botânico Rosa, do grego ρόδον, rhódon (Aeólico: βρόδον, wródon, foi tomado emprestado do persa antigo wrd, wurdi = rurdi.

Primavera
Sandro Botticelli (1445-1510) 


Aphrodite

A rosa vermelha é afiliada a Afrodite, a deusa do amor. Na mitologia grega, é dito que roseiras cresceram do solo a partir das lágrimas de Afrodite e do sangue de seu amante, Adônis. Os romanos, que transformaram Afrodite em sua deusa Vênus, mantiveram a rosa como seu símbolo de amor e beleza.

Aphrodite de Capua sec. IV a.C. Lisipo. Cópia romana.

De acordo com o mito grego, Afrodite quando nasceu das espumas do mar, tal espuma tomou forma de uma rosa branca, assim a rosa branca representa a pureza e a inocência. Conta o mito que quando Afrodite viu Adônis ferido, ja nos braços da morte, a deusa foi socorrê-lo e se arranhou num espinho de roseira e seu sangue coloriu as rosas que lhe eram consagradas, de brancas passaram a ser vermelha. Assim, na Antigüidade as rosas passaram a ser colocadas sobre os túmulos, sendo uma cerimônia chamada pelos antigos de “Rosália”. Todos os anos no mês de maio enfeitam-se os túmulos com rosas.
 
Afrodite ou Vênus de Cnido. 
Cópia da obra-prima da maturidade de Praxíteles, tido como um dos mais renomados escultores da Grécia Antiga, e é possivelmente a mais famosa e a mais reproduzida obra de Praxíteles, sendo uma das primeiras representações de uma deusa totalmente nua.


Na Alquimia, a rosa representa a Alma. No símbolo da Rosa Cruz, a Cruz representa o trabalho interno e o aperfeiçoamento e a Rosa, o desabrochar espiritual. 

As rosáceas das catedrais góticas foram dedicadas a Maria como emblema do feminino em oposição à cruz.

O significado simbólico da rosa é amplo, embora raramente seja compreendido em profundidade. Exemplos de significados mais profundos encontram-se na linguagem das flores e como uma rosa pode ter um significado diferente nos arranjos. Exemplos de significados comuns de rosas de cores diferentes são: amor verdadeiro (vermelho), mistério (azul), inocência ou pureza (branco), morte (preto), amizade (amarelo).

Cores das rosas e seu significado

Amarela: amor incondicional, lealdade, amizade e fraternidade
Azul: amor profundo e espiritual, sentimento de transcendência e harmonia
Branca: inocência, pureza, paz a a humildade
Champanhe: admiração, simpatia, elegância e graciosidade
Rosa: gratidão, delicadeza, afetividade e sensibilidade
Vermelha: paixão, energia, determinação e força
Laranja: entusiasmo, discernimento e foco
Verde: esperança, vitalidade e equilíbrio
Violeta: serenidade, autodomínio, dignidade, nobreza de caráter e conexão espiritual
Pretas: separação, tristeza e luto cinzentas: tristeza, passividade, frieza e racionalidade
Coral: imaginação e idealização


Na mitologia helenística e posteriormente na mitologia romana, as rosas eram associadas ao sigilo porque Cupido (Eros) deu uma rosa a Harpócrates (o deus helenístico do silêncio) para que ele não revelasse o segredo de Vênus. 

Harpócrates (Ἁρποκράτης) era o deus do silêncio, dos segredos e da confidencialidade na religião helenística desenvolvida na Alexandria ptolemaica e também uma personificação da esperança, de acordo com Plutarco. 

Harpócrates foi adaptado pelos gregos do deus egípcio Hórus, que representava o sol recém-nascido, nascendo todos os dias ao amanhecer. O nome de Harpócrates era uma helenização do egípcio Har-pa-khered ou Heru-pa-khered, que significa "Hórus, o Menino".



Harpócrates


Salas de banquetes costumavam ser decoradas com esculturas de rosas, supostamente como um lembrete de que as discussões que ocorriam ali, deveriam ser mantidas em sigilo. Isso foi herdado no simbolismo cristão posterior, onde rosas eram esculpidas em confessionários para significar que as conversas permaneceriam secretas.

A conotação de segredo também remonta à mitologia grega, Afrodite deu uma rosa a seu filho Eros (Cupido), o deus do amor; ele, em contrapartida, deu-a a Harpócrates, o deus do silêncio, com o fito de garantir que as indiscrições de sua mãe (ou as dos deuses em geral) fossem mantidas debaixo dos lençóis. Pinturas de rosas no teto de salas de jantar romanas são também uma lembrança de que coisas ditas sob a influência do vinho (sub vino) deveriam também permanecer sub rosa.

Na Idade Média era tradição colocar uma rosa no teto da sala de reuniões como sinalização que os assuntos a serem tratados ali deveriam ser mantidos em segredo. Com o tempo esse costume, foi modificado e ao invés de usar rosa de verdade, passou-se a pintá-la no teto das salas e, assim, esta flor começou a fazer parte da decoração de muitas casas de arquitetura clássica.

Ainda na Idade média, uma rosa suspensa no teto da cela de um concílio, assembléia, (também nas reuniões de bispos e cardeais presidida ou sancionada pelo Papa para deliberar sobre questões da fé, costumes, doutrina ou disciplina eclesiástica) similarmente obrigava todos os presentes (aqueles debaixo da rosa = sub rosa) ao segredo. Assim, o assunto tratado ali permanecia interdito até que se levantasse essa interdição ou fosse publicado em Bula papal. 

Em alguns países europeus, uma observação "sub rosa" é considerada como tendo conotações sexuais, ou indiscretas. Mais recentemente, a expressão atividades sub rosa tornou-se um sinônimo de operações secretas, normalmente utilizada por serviços de inteligência.

Sob as rosas do Verão
Quando o fragrante carmesim
Se esconde no lusco-fusco
Das impetuosas folhas vermelhas,
O amor, com as suas mãos pequenas,
Vem tocar-te
Com mil memórias
E põe-te
Belas perguntas que não têm resposta. 

(Carl Sandburg, Under the Harvest Moon)

Que tenha rosas o nosso banquete…

(Horácio, Odes, 1.36.15)


Como seria a festa da vida sem o «fragrante carmesim» e a casta simplicidade, a alegre exuberância e a serena compostura da rosa? 

Há pelo menos seis milénios que suas antepassadas selvagens com cinco pétalas e as suas milhares de descendentes cultivadas têm deleitado o olhar, aplacado a alma e testemunhado um sem número de ritos de passagem humanas. 

Atraindo arrogantes e humildes, as rosas evocam a evanescência da inocência e da juventude, coroam o vitorioso e homenageiam o mártir, são tecidas em bandeiras nacionais e nas insígnias das linhas genealógicas reais. Acima de tudo, as rosas significam amor, em todos os seus matizes terrestres e celestiais: aquilo ou aquele que amamos no presente; aquele que amámos e perdemos e o desejo de algo que não tem nome encarnado na forma e na cor das rosas e no perfume que “repentinamente paira no ar como a fama” (Rilke, 149), e que nos acena ao mesmo tempo que nos escapa.


As rosas estão em casa tanto quando são guardadas por anjos no Jardim do Paraíso como quando estão a decorar um florido presente no dia dos namorados.


A água de rosas, ou óleo de rosas, realçou a cor do rosto, foi usada contra a peste, lavou e purificou a Mesquita de Omar e foi integrada na preparação e no enterro dos mortos.


O perfume de rosas manteve-se mais popular, e pelo maior período de tempo, dentre todas as fragrâncias florais, evocando tanto a sedutora magia de amor de Cleópatra como o “odor da santidade” da Virgem Maria. 

Embora a rosa esteja associada a várias divindades, a maioria delas masculinas, ela é predominantemente a flor da Grande Deusa, evocando a sua sensualidade, a sua fertilidade e a sua régia compaixão.

Nascimento de Vênus.
Sandro Botticelli (1445-1510) 

Consagrada a Vénus (Afrodite), as rosas flutuam ao vento na mais famosa pintura de Botticelli, que representa a deusa nascendo do oceano; os devotos da frígia Cibele “seguem a Mãe e a sua comitiva com um mar de rosas” (Lucretius Carus, 2.627).


E no romance de Lúcio Apuleio do século II, o Asno de Ouro, embora as rosas sejam o antídoto contra uma furiosa magia que transformou o herói Lúcio num burro, elas estão sempre fora do seu alcance até serem estrategicamente colocadas numa procissão festiva em honra da deusa egípcia Ísis, que a seguir chama Lúcio para prestar serviço como sacerdote.


Para os alquimistas, todo o processo de transformação psíquica tem lugar sub rosa (sob a a rosa) no obscuro, no secreto. 

Indicando silêncio, a frase tem origem, supostamente, no episódio na oferta de uma rosa por Eros a Harpócrates, o deus do silêncio, em grato reconhecimento pela discrição deste relativamente aos amores ilícitos de Afrodite (a mãe de Eros).


Na alquimia, contudo, os ramos cruzados da rosa branca e da rosa vermelha não só aludem ao “caso amor roso» e ao «casamento» de naturezas opostas, e ao albedo e ao rubedo como compreensão e realização dos processos psíquicos, como também ao silêncio necessário à natureza interior do trabalho e ao ventre ou «rosa» dentro de cujas dobras de pétalas o Self é secretamente concebido. 

Rubedo é uma palavra em latim que significa avermelhado. Foi adotada pelos alquimistas para designar o quarto e último estado da alquimia: a iluminação. É precedido pelos estados nigredo (morte espiritual), albedo (purificação), e citrinitas (despertar).

Mas se as cativantes qualidades da rosa são inegáveis, também o é o seu conhecido carácter espinhoso.


Literalmente, os picos ou espinhos das rosas protegem-na, dissuadindo os predadores de se banquetearem com as suas deleitosas pétalas; também podem servir de depósitos armados para prevenir a desidratação nas hastes, sobretudo daquelas que, como a rosa-do-deserto, vivem em climas quentes. Embora isto sugira, a um nível psicológico, que certa quantidade de comportamento espinhoso é um atributo positivo, os espinhos também podem representar uma postura defensiva espinhosa que impede a intimidade.


No conto de fadas da «Bela Adormecida», o fuso que pica a bela adormecida e a põe para dormir durante um sono de cem anos é replicado na cerca de roseiras bravas que aprisiona, enredando e ferindo mortalmente, os seus pretendentes.


Por outro lado, no conto de fadas «Branca de Neve e Rosa Vermelha», as duas irmãs necessitam precisamente de uma agressividade fálica e espinhosa além do «espinho» da realidade, para poderem superar a melosa e «rosada» doçura e bondade desprovida de quaisquer sombras, que se derramam sobre o mundo idílico e exclusivamente feminino que partilham com a mãe.


Como símbolo de Dioniso, os espinhos da rosa, bem como o seu perfume sedutor, sugerem os potenciais perigos do aspecto subterrâneo da psique.


Por exemplo, na «Ode ao Rouxinol» de Keats, O «suave incenso na perfumada escuridão» da rosa-moscada e do pilriteiro sugere o caso amoroso melancólico do poeta com a morte.


Ao juntar tanto a graça terrena como a alheia a este mundo, além do forte pesar, a Virgem Maria, talvez mais do que qualquer outra figura religiosa, leva a alcunha de «Rosa mística». 

No poema «Quarta-feira de Cinzas», em que as duas, a Rosa e a Mater Dolorosa, são identificadas, T. S. Eliot capta a silenciosa eloquência tanto da Rainha do Céu como da Rainha das Flores:


Senhora dos silêncios
Calma e infeliz
Rosa da memória
Rosa do esquecimento
Exausta e estimulante
Inquieta e tranquila
A exclusiva Rosa
É agora o
Jardim
Onde todos os amores acabam.




Rainer Maria Rilke tem a fama de ser o mais intenso e lírico dos poetas alemães. Muitos críticos usaram a palavra “místicas” para definir suas obras. Viveu na passagem entre os séculos XIX e XX, e suas famosas cartas revelam quanto a chegada desta suposta modernidade, isto é, a instauração de um tempo de descrença, de solidão e de ansiedade, afetou a sensibilidade à flor da pele de Rilke. Ele tendeu a uma postura existencialista, às vezes melancólica, que influenciou artistas e escritores a partir da segunda metade do século XX, como Auden, mPynchon e até Wittgenstein. Vamos ouvir, de sua autoria, o poema que começa pelos versos Tu, Obscuridade de onde emana, em tradução de José Paulo Paes. (culturafm)



Tu, Obscuridade de onde emana
meu ser, amo-te mais do que à chama
que o mundo reduz
ao círculo da sua luz:
ali dentro, resplandece;
fora dali, ser nenhum a reconhece.

Mas na Obscuridade tudo se contém:
as formas e as chamas, os animais e eu também,
nela que consorcia existências e energias 

Pode bem ser que uma força sombria
se mova em minhas cercanias.

É às noites que minha alma se confia

(Rainer Maria Rilke)





Bibliografia

https://virusdaarte.net/afrodite-ou-venus-de-cnido/

https://geha.paginas.ufsc.br/files/2016/04/APULEIO-O-asno-de-ouro.compressed.pdf

https://www.greenme.com.br/informarse/significados/68397-o-significado-espiritual-de-rosa-todas-as-cores/



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