INÍCIO

13 abril 2021

O PAPA QUE DECRETOU LOCKDOWN EM ROMA

O papa que decretou "lockdown" em Roma para salvar população da peste no século XVII


(Modificado de Edison Veiga)
De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil

Reportagem BBC

Retrato do Papa Alexandre VII 
(Por Giovanni Battista Gaulli Baciccio)


Alexandre VII nasceu em Siena, (*13/II/1599 ♰ 22/V/1667) membro da ilustre família bancária da Toscana e seu pai era sobrinho do Papa Paulo V (1605–1621),
Fabio Chigi teve uma excelente educação de um preceptor privado sob a supervisão de sua mãe. Posteriormente estudou na Universidade de Siena, onde obteve três diplomas (o primeiro em Utroque iure, depois em filosofia e teologia), alcançando um vasto conhecimento que ia da literatura à filosofia, da história local à arquitetura. Desde muito jovem mostrou acentuado don religioso e literário, sendo descrito como austero e zeloso na fé. Depois de se formar em 1626, mudou-se para Roma, onde iniciou sua carreira na Cúria em dezembro de 1626. Iniciou sua carreira diplomática em 1629, enviado pelo Papa Urbano VIII (Maffeo Vicenzo Barberini) como vice legado de Giulio Cesare Sacchetti em Ferrara; em seguida foi enviado a Sé em Malta, onde ocupou o cargo de inquisidor.
Foi ordenado sacerdote em 1634 e em 8 de janeiro de 1635, Chigi foi nomeado bispo de Nardò no sul da Itália e permaneceu na diocese até 1639, quando foi nomeado núncio extraordinário em Colônia/DE. Nomeado cardeal no consistório de 19 de fevereiro de 1652, o Papa Inocêncio X o nomeou Secretário de Estado.

1626-1627: referente do Tribunal da Signatura Apostólica;
1627-1632: vicelegado papal em Ferrara;
1634: é inquisidor e visitador apostólico em Malta;
8 de janeiro de 1635 - 11 de junho de 1639: nomeado bispo de Nardò (em Salento);
11 de junho de 1639 - outubro de 1651: foi núncio apostólico em Colônia/DE;
Outubro de 1651 - 7 de abril de 1655: nomeado Cardeal Secretário de Estado pelo Papa Inocêncio X;
No consistório de 19 de fevereiro de 1652: nomeado cardeal presbítero;
12 de março de 1652: assume o título de cardeal de Santa Maria del Popolo;
13 de maio de 1652 - 7 de abril de 1655: é chefe da diocese de Imola com o título pessoal de Arcebispo;
7 de abril de 1655: é eleito Pontífice Romano com o nome de Alexandre VIII.

Papa Inocencio X
Papa Inocêncio X, nascido Giambattista Pamphili, ou Pamphilj (Roma, 6 de maio de 1574 — Roma, 7 de janeiro de 1655) foi Papa de 15 de setembro de 1644 até à data da sua morte. Inocêncio nasceu em Roma, de uma família de Gubbio, na Úmbria, que havia chegado a Roma durante o pontificado do papa Inocêncio IX, Pamphili foi treinado como advogado e formado no Collegio Romano. Ele seguiu um cursus honorum convencional , seguindo seu tio Girolamo Pamphili como auditor da Rota e, como ele, alcançando a posição de cardeal-sacerdote de Santo Eusébio, em 1629. Antes de se tornar papa, Pamphili serviu como diplomata papal em Nápoles, França e Espanha. Pamphili sucedeu o Papa Urbano VIII (1623-1644) em 15 de setembro de 1644 como papa Inocêncio X, após um conclave papal contencioso que apresentava uma rivalidade entre facções francesas e espanholas.

Alexandre VII 
"Padroeiro do Lockdown"
"Padroeiro da Vida Humana"

O papa Alexandre VIII decretou medidas sanitárias que, para pesquisadores, contribuíram para que a letalidade de uma peste no século 17 fosse muito menor.



Brasão Papal de Alexandre VII no obelisco na Piazza Della Minerva, Roma

Praça de São Pedro em Roma, ladeada pela colunata de Bernini, 
comissionada pelo Papa Alexandre VII


Ele era intelectual, fã de arquitetura e arte, doutor em filosofia, teologia e direito. Quando o italiano Fabio Chigi (1599-1667) se tornou o papa Alexandre VII, nem em seus piores pesadelos poderia vislumbrar que teria de enfrentar uma epidemia de peste.

A resposta dele, no entanto, foi contundente.

Fabio Chigi como Nuntius papal nas negociações de Paz para a Vestfália. 
(Obra de Anselm van Hulle, circa 1646).

Papa Alexandre VII, nascido Fabio Chigi (Siena, 13 de fevereiro de 1599, Roma, 22 de maio de 1667), foi o 237º papa da Igreja Católica de 7 de abril de 1655 até
sua morte. Seu motto era "Montium custus", do latim: "O guardião dos montes"

Embora a ciência só tenha descoberto o bacilo causador da peste em 1894, graças ao bacteriologista Alexandre Yersin (1863-1943), o papa decretou medidas sanitárias que, para pesquisadores, contribuíram para que a letalidade da doença fosse muito menor na população romana do que em outros lugares afetados pela mesma doença.

De acordo com levantamento realizado pelo historiador italiano Luca Topi, professor da Universidade de Roma La Sapienza, entre 1656 e 1657 a peste matou 55% da população da Sardenha, metade da população de Nápoles e 60% dos que habitavam Gênova.

Em Roma, contudo, foram 9,5 mil mortos em um universo de 120 mil pessoas, menos de 8%. Essas conclusões foram publicadas em uma revista científica italiana em 2017.

Calcula-se que a peste tenha dizimado cerca de metade da população europeia, em diversas ondas. Fazia um ano que Alexandre VII havia sido eleito papa quando começaram a chegar relatos de mortes pela doença no então reino de Nápoles.

Alexandre VII não era somente o líder do catolicismo. Se hoje o papa é soberano de um estado diminuto encravado em Roma, o Vaticano, na época comandava os chamados Estados Pontifícios que compreendiam Roma e boa parte dos arredores, praticamente todo o centro da Itália atual.

A fascinante história a seguir mostra como medidas que geram controvérsia no Brasil da pandemia de covid-19, como proibição de circulação de pessoas, fechamento de fronteiras e de templos, rastreamento de casos, auxílio emergencial, debates sobre jejuns religiosos e outras, foram aplicadas há mais de 400 anos, e tiveram bons resultados.

Alexandre VII

Quais foram as medidas do papa?

Nos domínios papais, esse surto ocorreu de maio de 1656 a agosto de 1657.

Assim que as primeiras notícias da peste chegaram a Roma, Alexandre 7º colocou em alerta a então Congregação da Saúde, que havia sido criada em um surto anterior.

As medidas de contenção foram implementadas gradualmente, conforme a situação se tornava mais perigosa.

Em 20 de maio, foi promulgado um decreto que suspendia toda atividade comercial com o reino de Nápoles — já fortemente afetado. Na semana seguinte, o bloqueio se estendeu: ficava proibido também o acesso a Roma de qualquer viajante vindo de lá.

No dia 29, a cidade de Civitavecchia, dentro dos domínios dos Estados Pontifícios, registrou a chegada da peste e foi imediatamente colocada em quarentena.

"Nos dias e meses seguintes, muitas outras localidades dos Estados Papais foram colocadas em isolamento", detalha o historiador Topi, em seu artigo. Em Roma, a decisão foi radical: quase todos os portões que então davam acesso à cidade foram fechados. Apenas oito permaneceram abertos, mas eles eram protegidos 24 horas por dia por soldados, supervisionados por "um nobre e um cardeal".

A partir de então, qualquer entrada tinha de ser justificada e registrada.

Em 15 de junho, Roma teve o primeiro caso: um soldado napolitano que morreu em um hospital. As normas passaram a endurecer cada vez mais. Em 20 de junho, uma lei passou a obrigar que todo aquele que soubesse de um doente informasse autoridades.

Na sequência, um novo dispositivo papal passou a obrigar que todo pároco e seus ajudantes visitassem, a cada três dias, todas as casas de suas circunscrições para identificar e registrar os doentes.

Era a maneira, na época, de rastrear os infectados.

Papa Alexandre VII

Alexandre VII, de Domenico Guidi.

Aí veio a notícia de mais uma morte, um pescador que estava hospedado na região de Trastevere. "Toda a família que teve contato com essa vítima também se infectou e muitos foram a óbito", conta Raylson Araújo, membro do Núcleo de Diálogo Católico-Pentecostal e estudante de teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que também pesquisou o assunto.

A primeira ideia foi tentar isolar a região. Na noite do dia 22 para o dia 23 de junho, sob as ordens de três cardeais, trabalhadores ergueram um muro de contenção após nove horas de trabalho.

O endurecimento das regras impostas pelo papa Alexandre VII
 foi gradual até chegar a um lockdown completo
(Crédito: Domínio público)

"O papa era também a autoridade civil. Conforme a doença começou a se espalhar, ele passou a implementar medidas de isolamento. Depois que proibiu o comércio com Nápoles, passou a decretar outros meios de distanciamento social: foi proibindo encontros, procissões, todo o devocional mais popular", pontua Araújo.

O endurecimento das regras foi gradual até o lockdown completo.

"Conforme o tempo foi passando, ele (o papa) foi adotando novas proibições. Congregações [da Igreja] foram suspensas, todas as visitas diplomáticas também, encontros religiosos e reuniões públicas… Estradas foram vigiadas", enumera Araújo. "Todas as aglomerações civis acabaram suspensas."

"Foram banidas várias atividades econômicas e sociais. Festas e cerimônias públicas, civis e religiosas foram canceladas", diz o seminarista Gustavo Catania, filósofo pelo Mosteiro de São Bento de São Paulo. "Mercados foram suspensos e algumas pessoas que moravam na rua foram retiradas, porque podiam ser causas de contágio. A travessia noturna do Rio Tibre foi proibida."


"Com quase toda a cidade fechada, os cultos inevitavelmente se transformaram em privados. Quase todos tinham alguém da família com a doença", completa Catania.

O papa também determinou que naquele período ninguém deveria fazer jejum, numa tentativa de que as pessoas não se privassem de alimentos e, assim, se mantivessem mais saudáveis para o caso de serem infectadas.

Todos aqueles que tinham pelo menos um contaminado na família eram proibidos de sair de casa. Para garantir a assistência, Alexandre VII separou os padres e os médicos em dois grupos — aqueles que teriam contato com os doentes e os que não teriam, encarregando-se de zelar pelo restante da população.

"Havia uma preocupação que os padres não se transformassem em vetores da doença", diz Araújo.

"Os médicos foram proibidos (por lei) de fugir de Roma", atenta Catania, lembrando que muitos tinham receio de se contaminarem com a peste. Como os doentes eram isolados, foi montada uma rede de apoio assistencialista. "Houve a previsão de ajuda financeira às famílias que não podiam sair de casa e algumas pessoas recebiam comida pela janela", diz o seminarista.

Nos meses de outubro e novembro, quando a incidência da doença foi maior, chegou-se a prever pena de morte para quem descumprisse as regras.


Negacionistas e fake news

Mas nem todos acreditavam na gravidade da situação.

Havia quem desdenhasse e até as hoje chamadas fake news foram espalhadas. "O papa chegou a ser acusado de ter inventado a doença em benefício próprio, para ganhar popularidade", conta a vaticanista Mirticeli Medeiros, pesquisadora de história do catolicismo na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.

"[Muitos] não queriam que o pontífice adotasse tais medidas [de restrição] para não alarmar a população", complementa. "Até seus colaboradores mais próximos o aconselharam a não fazê-lo. Temiam que, a partir do momento em que ele levasse a público a gravidade da situação, por meio de decretos e divulgação, a economia passasse a sentir os efeitos desse tipo de postura. No entanto, ele [o papa] foi firme e seguiu com sua política sanitária."

Talvez Alexandre VII possa ser considerado uma espécie de padroeiro do lockdown.

Araújo compara o acontecido no século 17 com o "movimento de hoje, com a resistência das pessoas" a aceitarem a gravidade da pandemia de covid-19. "(Na época), primeiro os comerciantes quiseram aconselhar o papa para que ele não adotasse as medidas, pois [o fechamento] iria prejudicar o comércio, a colheita", comenta o pesquisador. "Parte do povo foi murmurar contra as decisões do papa."

"Grupos procuraram o papa, aconselhando-o para não decretar medidas de isolamento. Queriam que ele acobertasse, maquiasse um pouco a doença para que o pânico não se espalhasse e o comércio não fosse fechado", prossegue.

Há relatos de que um médico teria divulgado fake news acerca das reais motivações do lockdown. "Ele espalhou que essas decisões do papa escondiam interesses políticos", diz o historiador Victor Missiato, professor do Colégio Presbiteriano Mackenzie Brasília, membro do Grupo de Estudos e Pesquisas Psicossociais sobre o Desenvolvimento Humano da Universidade Presbiteriana Mackenzie (Brasília) e pesquisador na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

"Foi acusado de calúnia e acabou condenado a trabalhar em um hospital voltado para a cura da peste."

Outro caso emblemático foi o do religioso Gregorio Barbarigo (1625-1697). Quando foi eleito, o papa Alexandre VII nomeou-o prelado da Casa Pontifícia, conselheiro e, em seguida, referendário do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica. Isso tudo em 1655, mesmo ano em que Barbarigo havia se tornado sacerdote.

Mas o conselheiro acabou sendo uma voz contrária ao lockdown de Alexandre VII. "Ele questionava as medidas, dizia que elas provocavam mais mortes do que a peste, porque causavam mortes pela fome e pelo medo. Mesmo próximo ao papa, ele tinha um olhar crítico", frisa Araújo.

Alexandre VII não parece ter guardado rancor. Tanto que, anos mais tarde, em consistório de abril de 1660, fez de Barbarigo cardeal.


Vitória contra a doença

Quando esse surto foi vencido em agosto de 1657, a celebração foi à altura.

Alexandre VII demonstrou o renascimento da Igreja com monumentos que marcam o Vaticano até hoje, como o conjunto de colunas da Praça de São Pedro, obra do escultor e arquiteto Gian Lorenzo Bernini (1598-1660).

Por cima da colunata o Brasão de Armas do Papa Alexandre VII, 
na Praça de São Pedro em Roma.


Papa Alexandre VII




Obras de Papa Alexandre VII marcam o Vaticano até hoje, como o conjunto de colunas da Praça São Pedro, do escultor e arquiteto Gian Lorenzo Bernini
Crédito: Édison Veiga


Obelisco de Bernini com o Brasão de Alexandre VII

"Era muito comum, nesse período, que os papas tornassem visíveis a sua soberania e o seu poder. Os grandes monumentos de Roma, nesse período, foram construídos a partir dessa motivação", contextualiza Medeiros.

"É o caso das Quattro Fontane da Piazza Navona, Fontana di Trevi, entre outros."

A embaixada brasileira em Roma fica em frente às esculturas da famosa Piazza Navona.

"Alessandro VII era apaixonado pela arte, amigo de Bernini. O início de seu pontificado foi marcado, justamente, pela peste", explica.

"A forma que ele encontrou, de certa forma, de apagar aquele período sombrio, foi investindo em obras colossais. As colunatas que ele mandou construir representam os braços abertos da Igreja. A catedral do apóstolo Pedro foi restaurada, o símbolo do poder temporal, não só espiritual."

Outros casos


Não foi este o único momento histórico em que a Igreja, no passado, fechou suas portas por conta de surtos e epidemias. Mas, como destaca Medeiros, foi o único de forma oficial "e contando com uma estrutura de Estado para tal".

"Ocorreram (em outros momentos) casos isolados em algumas dioceses da Itália, sobretudo no século XIX durante a epidemia de cólera", lembra ela. "Nesses lugares, adotaram-se medidas restritivas semelhantes."

Por outro lado, Medeiros lembra que no surto de peste do século XIV, ocorreu "totalmente o contrário".

"O papa Clemente 6º, isolado no palácio pontifício de Avignon, na França, não parecia muito preocupado com o que ocorria fora dos muros da sua casa", aponta a vaticanista. "Como na mentalidade do homem da época a doença nada mais era do que um castigo divino, procissões e outras formas de aglomeração aconteciam, na tentativa, segundo a mentalidade religiosa da época, de extirpar aquele mal."

"Mas já nessa época, assim como na época de Alexandre VII, existiam os dormitórios para isolar os infectados. Esses "lazarettos", como eram chamados, estavam sob a responsabilidade dos [religiosos] franciscanos", contextualiza. "Os viajantes, seguindo as normas sanitárias de alguns lugares, deveriam evitar o convívio com outras pessoas por 40 dias, daí que surge o termo quarentena."

No século anterior, a região de Milão foi fortemente acometida pela peste. O cardeal arcebispo de lá, Carlo Borromeo (1538-1584), também estabeleceu medidas sanitárias rígidas em sua circunscrição.

"Ele fez a proposta de uma quarentena geral, que foi adotada [pela região]", diz Araújo. "Foi publicado um decreto que determinava que as pessoas se mantivessem em casa até que a situação fosse controlada. Só podiam sair os que estavam cuidando espiritual e materialmente da população."

O pesquisador conta que até as missas foram realizadas em um formato "à distância", conforme as possibilidades da época. "Um padre ia para a esquina e celebrava na rua. Os fiéis assistiam de suas janelas, de dentro de casa", explica ele.

A tumba do Papa Alexandre VII, de Gianlorenzo Bernini


Fé e ciência

Ao analisar esses episódios do passado, muitas vezes semelhantes ao vivenciados hoje, dois pontos precisam ser levados em conta.

Este era um mundo em que a ciência ainda não era valorizada como hoje. E no qual religião e política estavam intrinsecamente mesclados.

"No século XVII, absolutismo era muito forte na Europa e estava ligado ao poder da Igreja. Poder político e poder religioso, naquela época, ainda estavam muito misturados", explica Missiato.

"Naquele período, a Revolução Científica ainda não havia sido difundida nas diversas sociedades do mundo europeu. A crença no divino enquanto ente definidor da paz e do caos ainda era vista como o caminho para a salvação."

Por isso, o lockdown imposto por Alexandre 7º se torna ainda mais interessante.

"[O ocorrido] mostra um alinhamento entre fé e ciência", diz Araújo. "Uma fé que tem os pés no chão. Com base no que Roma já havia sofrido com a peste em outros momentos, [a experiência faz com que] eles passam a saber que essas medidas são importantes. Existem pastores sensíveis."


Morte de Alexandre VII

Alexander VII morreu aos 66 anos de insuficiência renal. Ele mantinha o caixão em seu quarto e uma caveira (esculpida pelo famoso escultor Bernini ) em sua mesa de escrever, porque ele sempre sabia que um dia morreria. Um panfleto do século XVII creditado a Ayres, intitulado Um breve relato da vida e da morte do papa Alexandre VII, contém muitos detalhes fascinantes sobre a morte de Alexandre. De acordo com este panfleto, Alexandre, apesar de acamado, queria celebrar a paixão para se preparar para sua morte iminente. Nem o cirurgião nem o confessor conseguiram convencê-lo a economizar suas forças. Ele abençoou a grande multidão de pessoas na Páscoa, a última vez que o veriam vivo.



Idiossincrasias

Alexandre VII não gostava dos negócios do estado, preferindo literatura e filosofia; uma coleção de seus poemas latinos apareceu em Paris em 1656, sob o título Philomathi Labores Juveniles

Ele também incentivou a arquitetura e a melhoria geral de Roma, onde casas foram demolidas para endireitar e ampliar ruas e onde ele teve a oportunidade de ser um grande patrono de Gian Lorenzo Bernini: as decorações da igreja de Santa Maria del Popolo, igrejas titulares para vários cardeais Chigi, Scala Regia, Presidente de São Pedro na Basílica do Vaticano. 

Em particular, ele patrocinou a construção  da bela colunata de Bernini na praça da Basílica de São Pedro.

Alexandre VII escreveu um dos documentos de maior autoridade relacionados à questão do heliocentrismo. 

Ele publicou seu Index Librorum Prohibitorum Alexandri VII Pontificis Maximi jussu editus, que apresentava novamente o conteúdo do Index of Forbidden Books, que condenara os trabalhos de Copérnico e Galileu. 

Segundo alguns autores, ele prefaciou isso com a bula Speculatores Domus Israel, afirmando suas razões: "para que toda a história de cada caso seja conhecida". "Para esse fim", afirmou o pontífice, "fizemos com que os índices tridentinos e clementinos fossem adicionados a este índice geral, e também todos os decretos relevantes até o presente momento, emitidos desde o índice de nosso predecessor Clemente., que nada lucrativo para os fiéis interessados ​​em tais assuntos possa parecer omitido." 

Entre os incluídos, estavam os decretos anteriores, que colocavam várias obras heliocêntricas no Índice ("... que devemos considerar como se estivessem inseridas nesses presentes, juntamente com todas e, singularmente, as coisas nela contidas...") e usando sua autoridade apostólica, vinculou os fiéis ao seu conteúdo ("... e aprova com autoridade apostólica o teor desses presentes, e: ordena e ordena a todas as pessoas em todos os lugares que produzam neste índice uma obediência constante e completa..."). 

Assim, Alexander se voltou definitivamente contra a visão heliocêntrica do sistema solar. Após o pontificado de Alexandre VII, o Índice passou por várias revisões. 

"Em 1758, a proibição geral de obras que defendiam o heliocentrismo foi removida do Índice de livros proibidos, embora a proibição específica de versões sem censura do Diálogo e De Revolutionibus de Copérnico tenha permanecido. 

Todos os vestígios de oposição oficial ao heliocentrismo pela igreja desapareceram em 1835, quando estes os trabalhos foram finalmente retirados do Índice".
O índice foi abolido inteiramente em 1966.

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JORNAL: SEMANÁRIO DA ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO


A Igreja em tempos de epidemia: Alexandre VII e a Peste de Roma

18 de maio de 2020


Tratamos em artigo anterior sobre a Peste Negra e de dois exemplos de santos que entregaram suas vidas para o cuidado físico e espiritual dos doentes. Entretanto, para compreender com mais profundidade a atitude da Igreja em tempos de peste seria-nos muito útil estudar como um Papa reagiu e tomou medidas para impedir o avanço da doença e para garantir o cuidado espiritual dos que morriam por ela.

Esse estudo se nos revela mais interessante se entendermos que, à época do surto da Peste do qual hoje falaremos, o Sumo Pontífice possuía não apenas a autoridade espiritual, mas também a autoridade política para tomar decisões de caráter sanitário que afetavam o comércio e a vida privada dos que viviam nos Estados Pontifícios.

O exemplo de Alexandre VII e da peste de Roma de 1656 poderá esclarecer muitas questões em discussão atualmente, principalmente no que se refere às medidas de quarentena e ao funcionamento dos templos.

Alexandre VII

Alexandre VII, nascido Fabio Chigi, foi papa do ano de 1655 a 1667. De uma família ilustre de Siena, antes de ser Papa, foi Vice-Legado papal na cidade de Ferrara, onde enfrentou um surto da peste, o que certamente lhe deu experiência para enfrentar a doença em seu pontificado.

Ele também foi responsável por acompanhar a assinatura da Paz de Westfália, que colocou fim à Guerra dos Trinta Anos. Depois, foi nomeado Secretário de Estado dos Estados Papais por Inocêncio X.

Eleito Papa no Conclave de 1655, que durou 80 dias, Alexandre VII tornou-se célebre por sua condenação à heresia jansenista e pela defesa da Imaculada Conceição, dogma que apenas viria ser declarado pelo Papa Pio IX, aproximadamente 240 anos depois.

Logo em seu segundo ano de pontificado, entretanto, a Peste chegou a Roma e lhe obrigou a tomar medidas duras para evitar a disseminação da doença.


A Peste em Roma e as medidas do Papa

A Peste, em 1656, chegou à península itálica por Nápoles. Atingiu de tal maneira a cidade que, no seu auge, morriam aproximadamente 2 mil pessoas diariamente. Ao fim do surto, metade da população foi dizimada pela doença. Em uma população de 150 mil pessoas, 75 mil morreram. Em Genova, foram 50 mil mortes numa população de 100 mil habitantes.

O primeiro caso da Peste em Roma naquele ano foi o de um pescador cujo cadáver carregava sinais da doença e que estava hospedado em um hotel em Trastevere, bairro de Roma. Um médico foi chamado para averiguar os sinais do corpo e verificar se se tratava de fato da peste. Apesar dos muitos testemunhos de pessoas próximas que afirmavam ser a peste, o médico negou. Entretanto, pouco tempo depois, a responsável do hotel e sua família foram mortos pela peste, o que ensejou o início das medidas tomadas por Alexandre VII.

Com a morte da família, o Papa determinou que se isolasse o bairro de Trastevere por meio da construção de um muro, como forma de evitar que a doença se espalhasse por toda a cidade. O muro foi construído com a máxima urgência, em menos de um dia, e as obras foram acompanhadas por três cardeais.

Apesar da agilidade no isolamento do bairro, a doença se espalhou. Uma das parentes da responsável do hotel, que fora cuidar da família doente, escapou do bairro por não querer se submeter às medidas de quarentena.

Foi decretado que todos os que estiveram no hotel se apresentassem para ser isolados. A parente não se apresentou, temendo mais os incômodos da quarentena do que a pena prevista no decreto. Depois de um tempo, essa parente e seus filhos foram vítimas da peste.

Logo de início, portanto, Alexandre VII, a partir de sua experiência anterior com a peste, decretou medidas de isolamento e quarentena para impedir a propagação da peste. Muitos, entretanto, aconselharam o Papa a não divulgar a gravidade da doença para não causar um medo desmedido na população. Com a divulgação, o comércio seria afetado, e a colheita prejudicada. O Papa não concordou com tal opinião e respondeu que não convinha ao governante esconder a gravidade da doença que poderia devastar províncias inteiras. Além disso, segundo o Papa, se acobertasse a doença, perderia a confiança dos súditos por verem o grande número de mortos.

O Cardeal Gregório Barbarigo, que depois seria canonizado, por sua vez, achou que as medidas restritivas do Papa poderiam causar “mais mortes do que a peste, pela fome e pelo medo”. Vê-se, claramente, que as discussões da época assemelham-se com as da atual pandemia.

No caso da Peste de Roma, as medidas tomadas pelo Papa surtiram efeito, e, numa cidade de 120 mil habitantes, morreram pela peste 9,5 mil, proporção muito menor que a de outras cidades.

Além de medidas de isolamento dos doentes, com a instalação de diversos Lazaretos – lugares onde se cuidavam dos doentes -, o Papa proibiu qualquer reunião religiosa ou profana na cidade de Roma e determinou, com severas penas, que fosse denunciado qualquer indício da doença para que as medidas de isolamento pudessem ser tomadas.

O auxílio espiritual dos doentes também deveria seguir determinadas regras, pois não seria prudente expor todos os padres à peste, deixando a maioria saudável sem os sacramentos. Assim, o Papa tomou extremos cuidados para que tivessem contato com os doentes apenas sacerdotes designados, para não privar a cidade de padres, ao mesmo tempo garantindo sepultura cristã e o sufrágio da Igreja aos mortos. Os párocos tinham de cuidar do povo saudável, e os padres de ordens religiosas foram designados para cuidar dos doentes, mas, mesmo assim, apenas os mais saudáveis entre eles. Muitos destes faleceram pela peste.

O Papa também proibiu procissões e súplicas públicas em razão do contágio, mas incentivou a oração particular e familiar pelo fim da peste.

Desenho relativo à grande peste na Itália no século XVII 
(Reprodução da internet)


A quarentena trouxe dificuldade ao comércio, pois Alexandre VII determinou seu fechamento em toda a cidade. No entanto, o Papa preocupou-se em garantir o comércio essencial para não que faltasse comida nem o necessário para o cuidado dos doentes. O povo, apesar de uma ou outra agitação, permaneceu calmo e a cidade não sofreu desabastecimento de itens básicos nem inflação. O Papa também estimulou a esmola e a caridade dos nobres para sustento dos mais pobres.

Concretamente, o Papa proibiu o comércio com lugares infectados do Reino de Nápoles. Os habitantes de Nápoles não podiam entrar em Roma, e para garantir a efetividade dessa ordem, o Papa determinou que as estradas vicinais fossem constantemente vigiadas e algumas, inclusive, foram desfeitas. Os navios tinham de ser inspecionados acerca de sua origem. Objetos tinham de ser desinfetados, como cartas e dinheiro. As ruas eram limpas constantemente. O bairro dos judeus, a pedido do próprios judeus, foi fechado para permanecer em estrita quarentena.

O Papa proibiu o comércio entre Roma e outras cidades dos Estados Pontifícios, como forma de evitar que a peste lá chegasse. O trabalho das Congregações e dos Tribunais foram suspensos, com exceção daquilo que era urgente. As visitas diplomáticas também foram suspensas.

A Congregação da Saúde, instituição responsável pela saúde em Roma, se reunia todos os dias para discutir o avanço da peste e tomar conhecimento de cada novo caso na cidade. O Papa designou novos membros à Congregação, que tinham experiência no combate à peste. Um prelado por bairro da cidade foi designado para supervisionar o avanço da doença e tinha de visitar todas as casas todos os dias para tomar conhecimento dos doentes.

As casas em que se averiguava a existência do doentes eram marcadas na porta, e ninguém poderia sair ou entrar nelas sob graves pena. O Papa determinou que se desse uma quantia em dinheiro para as pessoas responsáveis por cuidar dos doentes nessas casas, como forma de sustento durante a peste. Além disso, duas vezes por dia eram levados mantimentos para que as pessoas reclusas se mantivessem.

Parte do povo murmurou contra as decisões do Papa, e um médico espalhou que a peste esconderia interesses escusos do Papa. Pela calúnia difundida, esse médico foi condenado a trabalhar em um lazareto para cuidar dos doentes. A maioria do povo, entretanto, aceitou pacificamente as medidas de Alexandre VII.

Os médicos foram proibidos de sair da cidade. Como fez com os sacerdotes, o Papa separou um grupo para cuidar das outras doenças que não a peste, para que a população não empestada não ficasse privada de médicos. Estes, por sua vez, designados para os lazaretos, receberam uma maior remuneração e tinham de viver em um lugar separado, em quarentena.

Depois de um ano e meio de luta contra a doença, a peste finalmente foi debelada e Roma pôde voltar à sua vida normal.

Aprendizados

A atitude do Papa Alexandre VII durante a peste alinhou uma fé sólida com o conhecimento que se tinha à época acerca da peste e do seu modo de proliferação. As medidas tomadas foram alvo de polêmica, entretanto, pode-se dizer que foram bem sucedidas pelo menor número de mortos na cidade de Roma em relação a outras cidades.

Suas medidas não se reduziram ao campo sanitário, mas se preocuparam pelo cuidado espiritual dos doentes e do resto do povo não atingido pela peste. Para tanto, designou sacerdotes para atender os empestados para que os outros pudessem continuar seu ministério, evitando, sempre, aglomerações que pudessem ocasionar contágios. Com prudência, o Papa demonstrou que é possível enfrentar qualquer epidemia com espírito de fé e com a razão, partindo da correta compreensão de que ambas devem andar juntas.

Fontes: Vita de Alessandro VII, Cardeal Sforza Pallavicino; Dicionário de erudição histórico-eclesiástica desde São Pedro até os dias atuais, Gaetano Moroni



Fonte







































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