TORSO DO BELVEDERE
O Torso do Belvedere (conhecido em italiano como Torso del Belvedere ou Toso Belvedere, forma arcaizante ainda encontrada em alguns textos) é uma das esculturas mais célebres da Antiguidade clássica preservadas até a atualidade.
Torso do belvedere (Google imagens).
Essa obra possui este nome: Torso do Belvedere, porque, quando foi descoberto no final do século XV, foi levado para o Cortile del Belvedere (Pátio do Belvedere), uma área do complexo do Vaticano. A palavra “Belvedere” vem do italiano e significa literalmente (bel, bello+vedere) “bela vista” ou mirante. É um termo arquitetónico comum para designar uma construção ou local (terraço, torre ou pavilhão) que oferece um panorama agradável, belo da paisagem. Portanto, o nome da escultura refere-se à sua localização inicial no Vaticano, e não a uma descrição da obra em si, que é um fragmento de uma estátua maior. A escultura, que se acredita representar o herói grego Ajax meditando sobre o suicídio, ou possivelmente Hércules sentado depois de ter realizado seus doze trabalhos, tem sido muito admirada e estudada por artistas, como Michelangelo e Rafael, desde sua descoberta. Atualmente, ela continua exposta nos Museus do Vaticano.
Torso do Belvedere (WP)
Torso do Belvedere (WP)
O Torso Belvedere é uma escultura de mármore mutilada, assinada pelo escultor ateniense Apolônio de Atena, do século I a.C., e conservada no Salão das Musas do complexo do Museu Pio-Clementino, nos Museus Vaticanos. Obra autografada em estilo neo-ático, tem notável importância na recepção cultural da arte grega na era moderna, devido à influência que exerceu (juntamente com o Grupo de Laocoonte e o Apolo Belvedere) no desenvolvimento da história da arte no período posterior à sua descoberta, graças à fortuna e fama que desfrutou entre escultores e pintores de várias épocas, a partir da arte renascentista.
O Barco de Dante, de Eugène Delacroix (1822), retrata Flégias de costas com um remo na mão (WP).
Trata-se de um fragmento escultórico em mármore, representando o tronco masculino sem cabeça, membros ou extremidades, hoje conservado nos Museus Vaticanos, onde exerce, desde o Renascimento, um papel central na história da recepção da arte antiga no Ocidente.
Do ponto de vista estilístico e cronológico, o Torso do Belvedere é geralmente atribuído ao período helenístico tardio, datado entre o final do século II e o início do século I a.C. A obra é assinada na base por Apollônios de Atenas, filho de Nestor (Απολλώνιος Αθηναίος, Νέστορου, Apollōnios Athēnaios, Nestórou), o que constitui um dado excepcional, pois poucas esculturas antigas preservam a identificação de seu autor. A assinatura sugere a atuação de um escultor grego ativo em Roma, em um contexto de intensa circulação de obras e artistas helênicos no mundo romano.
Formalmente, o Torso do Belvedere exemplifica de maneira paradigmática a estética helenística: a figura apresenta uma complexa torção do tronco, com forte dinamismo muscular, tensão interna e uma concepção escultórica que privilegia o movimento potencial e a expressividade corpórea. O corpo não está em repouso clássico, mas em um estado de energia contida, sugerindo uma ação interrompida. A musculatura é vigorosa, quase excessiva, tratada com profundo conhecimento anatômico e com acentuado chiaroscuro, o que reforça a sensação de volume e vitalidade orgânica.
Quanto à identificação iconográfica, não há consenso definitivo. Diversas hipóteses foram propostas ao longo da história, entre elas a de que o torso representaria Héracles (Hércules) em repouso após um de seus trabalhos, Ajax em um momento de desespero ou ainda uma figura heroica genérica. A ausência de atributos e membros impede uma leitura conclusiva, mas essa ambiguidade contribuiu para a potência simbólica da obra, que passou a ser admirada não como representação narrativa, mas como essência formal do corpo heroico.
A importância histórica do Torso do Belvedere ultrapassa em muito sua condição fragmentária. Redescoberto em Roma no século XV, provavelmente no Campo de Marte, ele se tornou objeto de veneração entre artistas e intelectuais do Renascimento. Michelangelo Buonarroti, em particular, demonstrou profunda admiração pela escultura, recusando-se a restaurá-la por considerá-la perfeita em sua condição incompleta. A influência do Torso é visível em diversas obras michelangelescas, como os nus da Capela Sistina e as figuras inacabadas dos Prigioni (prisioneiros ou escravos), nas quais a tensão muscular e a luta da forma para emergir da matéria ecoam diretamente o modelo antigo.
Michelangelo Buonarroti, 1542; Prisioneiros (escravos).
Michelangelo Buonarroti, 1542; Prisioneiros (escravos), (Google imagens).
Do ponto de vista historiográfico, o Torso do Belvedere desempenhou um papel decisivo na formulação moderna da ideia de fragmento como valor estético. Ele contribuiu para deslocar o ideal de beleza da completude formal para a expressividade estrutural, influenciando não apenas o Renascimento, mas também o Neoclassicismo, o Romantismo e reflexões modernas sobre a ruína, o corpo e o tempo histórico. Johann Joachim Winckelmann, fundador da história da arte como disciplina, via no Torso uma manifestação suprema da “nobre simplicidade e grandeza serena” da arte grega, mesmo em sua dramaticidade helenística.
Assim, o Torso do Belvedere ocupa uma posição singular na história da arte: simultaneamente obra-prima da escultura antiga, testemunho do virtuosismo helenístico, matriz formativa da arte moderna e símbolo duradouro da continuidade, e da ruptura, entre a Antiguidade clássica e as tradições artísticas do Ocidente.
Os Prisiobeiros (escravos) de Michelangelo na
Galleria Dell’Accademia em Florença.
Na Galeria da Academia em Florença, adjacente ao corredor que leva ao renomado David de Michelangelo, estão quatro esculturas majestosas também criadas por Michelangelo, conhecidas como “Prisioneiros” ou “Escravos”. Estas são quatro figuras masculinas parcialmente concluídas emergindo de blocos de mármore.
Essas esculturas são comumente conhecidas como Escravos, Prisioneiros ou Cativos. Conforme retratado nas fotos mencionadas acima, essas estátuas são representações inacabadas de figuras masculinas iniciadas por Michelangelo. Originalmente encomendadas para o túmulo do Papa Júlio II della Rovere, o projeto foi infelizmente abandonado devido à falta de apoio financeiro.(accademia)
(…)
O tema iconográfico dos Prisioneiros evoca muitas imagens e sugestões: eles lembram os prisioneiros representados nos monumentos triunfais da Roma antiga, uma exibição do butim de guerra do imperador e uma celebração de sua grandeza, mas também simbolizam a reflexão platônica sobre a alma humana, sobrecarregada pela gravidade do corpo e escravizada pela força das paixões. Os de Michelangelo são corpos poderosos, no entanto atormentados e sofredores, na impressão de uma luta extenuante exaltada ainda mais pela incompletude das obras.(accademia)
Os Prisioneiros da Galeria da Academia de Michelangelo, em seu estado inacabado, permitem-nos compreender a técnica escultórica de Buonarroti, completamente diferente daquela de todos os outros artistas: o procedimento habitual previa estabelecer as medidas e poses da figura e desbastar progressivamente a pedra até chegar a um esboço, ou a uma figura ainda cercada por um excedente de material.
Esse excedente tinha que ser removido com cautela, verificando constantemente a conformidade com o design ou modelo inicial. Por outro lado, Michelangelo trabalhou para atingir um estado quase finalizado para algumas partes, enquanto outras ainda estavam encerradas no bloco de pedra, como havia sido extraído.
A capacidade sobre-humana de imaginar a estátua dentro da pedra e de mudar as figuras mesmo durante a construção com base nas partes já esculpidas também foi acompanhada pelo uso completamente original das ferramentas: Michelangelo usou o cinzel e o arreio até a pele das esculturas, enquanto a prudência aconselhou todos a confiar em ferramentas finas para não correr o risco – com um golpe errado – de arruinar irreparavelmente a obra.(accademia)
De todos os Prisioneiros de Michelangelo, o Atlas representa emblematicamente a técnica de Michelangelo: enquanto o lado esquerdo do corpo e o braço estão quase terminados, a cabeça e o lado direito ainda estão incorporados na pedra, que pesa com sua forma paralelepipédica, lembrando o mito do deus grego. Na reflexão platônica sobre a alma humana e a busca pela verdade absoluta da arte, o inacabado de Buonarroti torna-se evidência de uma batalha feroz com a matéria, implacavelmente cavada para libertar a ideia aprisionada nela.(accademia)
Essa tensão, e duelo físico, é testemunhada pelas palavras com que Michelangelo falou de seu trabalho como escultor em Rima 152, onde comparou seu procedimento à elevação espiritual da alma em relação à carne.(accademia)
Junto com os Prisioneiros, na Galeria da Academia, você pode admirar a escultura de San Matteo, encomendada a Michelangelo em 1503, quando o Mestre trabalhava no David, como o primeiro de uma série de doze apóstolos destinados às Capelas da Tribuna da Catedral de Florença: o projeto permaneceu inacabado, assim como a estátua, esculpida apenas na parte frontal. Os Prisioneiros e São Mateus constituem – na disposição da Galeria da Academia no século XIX – uma espécie de guarda de honra e prelúdio à estátua de Davi, colocada no fundo da Galeria, no centro de uma êxedra de luz.
Rima 152
Rima 152 de Michelangelo Buonarroti é um célebre soneto que começa com os versos "Sì come per levar, donna, si pone" (Assim como, tirando, senhora, se põe). O poema explora a sua filosofia da arte, comparando a criação da escultura com a remoção do excesso de mármore para revelar a forma que já existe dentro da pedra.
Texto Original (em Italiano)
Sì come per levar, donna, si pone
tempo e fatica in una viva e intera
effige, che, se ben circunda e serra,
qualche sua parte, non men che d'altre, buone;
o come, per sminuir, si fa, che sole
di pietra viva, ov'è 'l miglior, si scerra
una figura, e 'n quella parte serra
qualche sua parte, non men che d'altre, buone.
Non c'entra 'l vivo, ch'ogni alter pregio
di novo acquisto, amor, toglie, e ritira
l'animo, che per sé nel ciel vola.
Per che 'l mio foco, amor, non ha vigore,
se non quel che la mia virtù ne tira
dal tuo bel volto, e che nel cor m'avola.
Tradução (em Português)
Assim como, tirando, senhora, se põe
tempo e fadiga numa viva e inteira
efígie, que, se bem circunda e serra,
alguma sua parte, não menos que outras, boas;
ou como, por diminuir, se faz, que só
de pedra viva, onde está o melhor, se escolhe
uma figura, e nessa parte serra
alguma sua parte, não menos que outras, boas.
Não entra o vivo, que todo outro preço
de novo adquirido, amor, tira e retira
a alma, que por si ao céu voa.
Pelo que o meu fogo, amor, não tem vigor,
senão aquele que a minha virtude dele tira
do teu belo rosto, e que no coração me eleva.
Este soneto reflete a ideia central da estética de Michelangelo, onde a forma ideal já está contida na matéria (mármore) e o artista a liberta através do processo de subtração, uma metáfora para o amor e a alma humana.
Com relação ao Torso de Belvedere, não existe uma reconstrução digital oficial ou universalmente aceite do Torso do Belvedere na sua forma original e completa, uma vez que a identidade exata da figura (Hércules ou Ajax, por exemplo) e sua pose original são objeto de debate. A escultura, datada do século I a.C. e admirada precisamente pelo seu estado fragmentário, nunca foi restaurada intencionalmente, nem mesmo por Michelangelo, que a considerava perfeita como estava.
No entanto, é possível encontrar modelos digitais em 3D do torso na sua condição atual para estudo e visualização: Modelos 3D para visualização: Várias plataformas de modelos 3D, como o Sketchfab e MyMiniFactory, disponibilizam digitalizações do torso que permitem a interação e a observação de detalhes de todos os ângulos.
A escultura é frequentemente utilizada em estudos académicos sobre a arte antiga e a sua influência, havendo publicações e teses que exploram a reconstrução digital no contexto da preservação do património cultural, embora sem focar numa “reconstrução” da peça em si. Portanto, a “reconstrução digital” mais comum refere-se à criação de modelos 3D do fragmento existente, e não a uma reintegração especulativa de braços, pernas e cabeça.
Fonte

























































































