domingo, 12 de junho de 2016

QUE BOM QUE ERA PARTIR

Que bom que era partir como faço todas as manhãs quando levanto da cama, lavo rosto, tomo café e saio de casa fechando a porta, deixando tudo para traz, com se para sempre fosse... e tudo então cai no silêncio ao longo do dia. 
Queria partir como as aves que ficam por um tempo no campo criando filhotes e no por do sol de um belo dia batem asas levantando voo seguindo o instinto, desaparecendo no céu. 
Partir como um barco que na madrugada sai do porto e as águas ainda espelham estrelas prateadas na calma profunda. 
Que bom que era partir no calada da noite, na ponta dos pés, sem nem se despedir, e em silêncio para não acordar os que sonham, desaparecer no caminho. 
Que bom que era partir ao fechar os olhos à noite para nunca mais voltar da terra de Morpheu. 
Que bom que era partir, esperando numa hermida o deus dos caminhos, na certeza que não estaria mais sozinho. 
Que bom que era partir num sábado no meio da primavera cheia de flores perfumadas e com o canto dos pássaros na lembrança. 
Que bom que era pegar a estrada apenas com um livro de Hesse, um caderno e um lápis e desaparecer em meio ao rebuliço do mundo ...
Partir como quem cruza o campo ao longe deixando apenas uma interrogação e nenhum descontentamento...
Partir como quem diz até logo  todavia nos olhos levar a certeza da definitiva partida... 
Partir no crepúsculo, deixando tudo para trás, levando apenas saudade dos olhares amigos colhidos ao longo do dia. 
Queria partir como fazem os dias frios do inverno... que cedem lugar aos dias mornos e perfumados da primavera, até que o branco frio da geada fique apenas na lembrança, e odor da lenha queimada nas lareiras e fogões, seja uma imagem pálida e distante. 
Queria partir como quem vai viajar e se despede na estação, sabendo que nunca mais voltará. 
Queria beijar teus lábios pela última vez e te dizer adeus como quem se despede do único bem deste mundo. 
Que bom que era partir embarcando num avião,  e na janela ver o mundo diminuindo e se distanciando, desaparecendo atrás das nuvens. 
Partir como fazem fazem os salmões... Sua partida é o fim de sua jornada, é o começo do fim de sua existência.  
Partir como se o fim fosse um novo início, sem nenhuma regra ou cobrança. 
Que bom que era partir ficando apenas a lembrança do que vivi, do que senti e desejei, do que amei e acariciei sem ninguém saber.  
Partir sem nenhuma perspectiva de volta, partir sem retorno, sem lágrimas, sem medo. 
E logo ali na esquina desaparecer sem tristeza ou alegria, sem orgulho nem pesar... 
Partir como se voltando estivesse para o lar, eternamente aconchegante e compreensivo onde não há mais julgamentos nem discriminação... 
Partir para a derradeira casa, de onde todos sabem que de lá não há um caminho de volta. 

(16/II/2016)

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