segunda-feira, 7 de setembro de 2015

PEQUENA E RESUMIDA BIOGRAFIA


Esta é a única e resumida biografia que escreverei
Sei que não durarei muito tempo. 
Essa vida é curta para todos os sonhos, desejos e aspirações. 
Nasci no mês de junho no inverno de 1965. Não lembro muito dos meus primeiros anos, apenas alguns fatos que mais parecem retalhos unidos a um longo tecido branco. O que forma uma colcha com umas manchas, um deserto com alguns oásis distantes. 
Mais parece um palimpsesto que foi raspado e sobre o que havia antes fora reescrito e desenhado uma outra história tentando corrigir a antiga. 
Logo após meu nascimento fui para casa com meus pais. Minha avó paterna e meu pai sempre moraram em uma fazenda; e meus avós maternos sempre trabalharam para outros nunca possuindo a terra onde moravam. Lembro que aos dois anos brincava entre as folhas de uma alameda que havia em frente de casa formada por gigantescas árvores de plátanos. 
Lindos e perfumados, sua sombra e seus galhos era tudo que eu conhecia do mundo até então. Do outro lado da estrada havia uma imensa encerra para o gado, construída de grandes tábua já desgastadas pelo tempo.  Aos três anos andava na margem do lago que havia no sítio e lá tomei banho pelado com os guris que trabalhavam na fazenda com meu pai. Lembro nitidamente que havia um trapiche de madeira e a cor de chá da água calma e profunda parecia me ameacar. Lá os caras ficavam deitados nus ao sol da tarde no verão. Essa foi a imagem mais fortemente gravada em minha memória a do corpo molhado cheio de gotas e dos músculos ao sol da tarde que termina. A imagem indelével da beleza do corpo masculino. 
Corri entre os infindáveis mal-me-queres (flor-das-almas) nas coxilhas, nas primaveras sempre temendo que de uma hora para outra pudesse aparecer um touro furioso, e ai sim eu teria que correr para valer e me atirar por debaixo da cerca de arame farpado que separavam o campo da estrada. Aos cinco anos explorava um riacho que passava calmo, pelo vale, onde ficava minha casa, buscando conchas de caramujos. Eu seguia o riacho até que minha casa ficasse pequena e desaparecesse da vista. 
Sentia medo por estar sozinho e voltava correndo, antes que minha mãe me chamasse, pois se isso acontecesse era castigo na certa. Meu mundo sempre foi feito de silêncio e pensamento. 
Quando chegou a idade de ir para o colégio tive muito medo das outras pessoas, eu era tido como estranho por meus colegas por não falar muito; mas fiz alguns bons amigos nessa primeira experiência escolar. Brincava mais com as meninas porque elas me convidavam e conversavam comigo e a maioria dos outros meninos só tentavam me espancar. Embora, sempre que eu revidasse eu vencesse a luta, acabava usando demasiada força. Costumávamos ir, meu irmão e eu, em grupo com outros meninos, a um rio próximo aos trilhos do trem na estrada para a Cidade-dos-meninos, um colégio que ficava nas montanhas, e sempre acabava sozinho pois sempre havia outros que tentavam me afogar ou me bater. Um dia tive que correr muito para não ser derrubado dentro da parte mais profunda, até que não ouvi mais as vozes dos meus perseguidores, que me chamavam de "menininha" pelos meus cabelos compridos. 
Me escondi em um tronco e fiquei ali, brincando sozinho na areia, e desde então não mais convidei nem fui com grupos tomar banho de rio. 
Sentado, ficava observando o rio construir seu caminho entre pedras e areia. Admirava espantado como a água esculpia as rochas e construía as curvas e meandros ora violenta em alguns locais por entre pedras, ora calma e caudalosa em outros, espraiando-se em areias brancas. 
Decidi então desenhar os riachos e afluentes desse rio que eu tanto gostava de tomar banho. Fiz um cadernos de folhas brancas, peguei caneta, lápis e borracha, coloquei tudo numa mochila improvisada com um saco de pano, cortei um cajado e todo final de semana lá estava eu explorando e desenhando o rio, as flores as rochas, as árvores. Assim, o tempo foi passando, longe das pessoas com quem eu gostaria de estar. Mas me resignava pois naturalizei que os outros eram assim, e a melhor forma era mater distância. 
Sempre soube que queria ser professor e ensinar aos outros coisas boas e importantes e lindas e edificantes que tornassem a vida melhor. 
Lembro que tive um primeiro grande amor que por ela estar em outro estágio de desenvolvimento não me deu muita atenção, o que me levou a ficar pela primeira vez com um amigo da quinta série.  Essa foi minha primeira paixão homoafetiva, hoje penso. Mas nos separamos quando mudei de colégio. Tive outros amores sem o envolvimento do outro (eram somente amores platônicos de minha parte, eu era muito tímido para falar e o mundo muito preconceituoso para aceitar). 
Eu passei para o segundo grau (atual ensino médio) e fui fazer o curso técnico da universidade. Lá conheci outro grande amor (não importa se somente eu sentia o amor) ele era meu amigo e isso já me deixava muito feliz. 
Sempre quis revelar o que para mim era um grande segredo, um segredo mortal pois "pecaminoso" e destrutivo, mas toda vez esbarrei nos preconceitos dos outros. 
Meus tios e até meus pais diziam que seria humilhante para eles terem filhos "diferentes". Eles nem ousavam dizer "a" palavra pejorativa. 
Então, a única saída era o silêncio. 
Um silêncio duradouro e frustrante.  
Com isto, nunca tive o benefício de trocar carinhos com outra pessoa de forma saudável nem construí relações afetivas por medo. Medo da condenação, medo de apontarem o dedo em minha direção e me classificarem com nomes  terríveis, medo de ser espancado. Somente depois da faculdade fui encontrar alguém interessante que treinava comigo na academia. Nos tornamos grandes amigos, amigos inseparáveis por um bom tempo, ele tinha 20 anos e eu 27. Era calmo, carinhoso, amigo antes de tudo. Aqueles foram os mais luminosos anos da minha vida. Andávamos de bike juntos, acampávamos, viajávamos para a praia... Dormíamos juntos, ríamos juntos. 
Mas ele começou a fumar e usar drogas, com seus amigos do quartel, hábitos que eu não tinha e não queria nem mesmo experimentar. Por fim nos separamos. Sofri muito, chorei como nunca antes em toda minha vida... Nunca mais o vi desde então. Ainda sonho com ele, desejo vê-lo outra vez, mas é impossível. Conheci alguns outros mas nunca foi sério o suficiente. 
Desde então, eu me apaixonei pela ideia que eu tinha do outro... até que nunca mais sai para encontrar ninguém. Há dez anos vivo sozinho. Nunca mais beijei ninguém, nunca mais toquei em ninguém.  Sou como aquela mosca da fábula de Esôpo que diz que tendo já comido, já bebido e já tomado banho que importava então a morte. 
Agora a minha única grande espera é o dia final. 
Parece estranho que minha vida termine apenas nesse lugar escuro e silencioso, nesse lugar horrível, mas por muitos anos houve sorriso e felicidade, houve abraços e desejo e eu não tive que prestar contas a ninguém nem procurar ninguém que me completasse, pois ali, do meu lado, estava alguém com quem eu desejava passar o resto da vida. 
Desde então eu venho elaborando a ideia de que morrer é mais agradável do que essa dor da perda, essa dor da solidão, essa dor que não passa. 
Na morte meus átomos se misturarão com outros e talvez nesse outro lugar encontrem a felicidade que busquei. 
A verdade é que o amor para mim se foi. Passou como passam as flores-das-almas em novembro, passou como passam as nuvem num céu num dia de vento. Passou deixando consternados  todos os meus pensamentos. 
Ele se foi na ponta dos pés como veio, numa tarde de sol no verão, sentou e me convidou para vermos o por do sol.  
Ele se foi e me deixou sozinho. 
E eu não sei o que fazer. Ele levou consigo o meu amor, levou junto a alegria de viver que uma vez eu conheci. Sinto-me vazio da vida que conheci, da vida que experimentei. 
Terá nossa história individual esse esquema? 
Seguirá esse caminho, esse padrão? 
É triste se constatar que sofreremos no fim; que no fim estaremos tão sozinhos como nunca antes estivemos.  
Não tenho como fazer você acreditar em minhas palavras, uma vez que tudo pode  ter se passado em minha mente doentia.  
Me sinto desolado mas a vida, eu aprendi, é assim mesmo. 
Estar perto do fim, permite-me senti-lo aproximando-se como feito fosse de matéria escura ou um buraco negro... não se pode percebê-los a menos que já se esteja orbitando esse "dies irae", esse ponto ômega; o principium et finis em Latin, ou initium et finis, ou primus et novissimus (o último momento, o primeiro e único).
Todavia, não diminui a solidão nem o desejo de sentir novamente aquele toque que legitima a existência. 
Quero, então, quando chegar o fim, reter esses momentos felizes que vivi, e que no último segundo da minha vida, eles invadam minha memória, então, fecharei meus olhos, meu coração baterá uma última vez e dormirei nessas lembranças felizes para sempre. 
(ACP 6/IX/2015) 








Nenhum comentário: