quinta-feira, 17 de setembro de 2015

AQUI ESTOU...


Eis-me aqui
Inexpugnável, terrível e sublime matéria-onipresente. 
Quero deixar aqui, ante vós, em teu alter, meu quinhão de matéria.
Gostei muito de usá-la !
Fui ha muitos lugares que queria que todos os humanos vissem... Lugares simples que supunha universais. 
Senti todos os sentimentos, e os que mais deixaram marcas em minha memória foram os sentimentos amorosos e afetivos, abstratos em essência. 
Dei graças por todos os 18.250 nasceres do sol 
E todos os dias encontrei vontade para acordar e sair da cama. 
Fiz muitas pessoas sorrirem e acredito que nunca fiz ninguém chorar por algum ato ou gesto meu, embora eu tenha chorado por muitas pessoas as quais amei. Mas isso foram as flores da vida. Embora eu tenha visto um deserto durante toda vida eu me esforcei até meu último átomo para criar nesse deserto um oásis, um campo vicejante com flores perfumadas e árvores verdes frondosas, insetos, aranhas, tatuzinhos-de-jardim, formigas, abelhas atarefadas. 
Quero deixar aqui essa matéria, que alguém, algum dia irá usar. 
Quero entregar essa matéria que ascendeu muitas fogueiras no passado, vendo as fagulhas subirem para o infinito. Fogueiras que iluminaram e aqueceram. 
Fogueiras geradoras de proximidades. 
Matéria que apertou muitas mãos 
Que ajoelhou, que meditou, que chorou, que perdeu, que encontrou, e perdeu para sempre, restando só a lembrança daqueles momentos...
Entrego essa matéria, para estar no teu seio e nunca mais partir. 
Para todo sempre estarei colado nesse torrão cujo orbe eu tanto amei. 
Estarei eternamente vendo o desenrolar da nossa história como matéria física e biológica. 
Asseguro que nenhuma outra porção física deste mundo sentiu o perfume dos lírios e de todas as outras flores na primavera e ficou tão feliz por poder ser um com o próprio perfume que também é feito de átomos. Ou que encontrou cores em todos os olhares. Muitas  vezes o meu próprio eu se perdeu nas nuances eletromagnéticas dos entes. 
Entrego essa matéria que respirou, andou, correu, nadou, desejou, estudou, que almejou amor, e que conheceu o amor como o meu mais estimado filósofo, que na origem mesmo do "nosso" pensamento disse "Physis kryptesthai philein"  (φύςις κρύπτεσθαι φιλει) [o] "surgimento favorece o encobrimento" embora Platão tenha separado "ser" e "aparência", para Heráclito "aparecer" é a forma constitutiva da presença, é o modo como o ser se dá. Ele se dá no encobrimento. No dia mesmo de minha concepção eu adentrei ao encobrimento, entrando e estando para sempre na physis que "é".
Aqui está minha parte matéria que adentra ao encobrimento, como o sol que declina (se põe) no mar ou atrás das montanhas. 
Como dizem as equações quânticas antes do surgimento da matéria não existia nem mesmo o tempo e por isso não haveria tempo nem espaço para a ação de "entes". Logo, eu entrego aqui a minha matéria de volta ao universo. Agradecido por cada momento que vivi. 
Entrego este "quanta, esse mol" de matéria sei que minhas irmãs as bactérias, que estudei e amei tão profundamente, serão as primeiras, fico feliz por entregar a elas, esta minúscula porção de matéria, já usada; a elas que foram as primeiras a chegar nesta Terra. 
Entrega minha matéria ao fogo que foi o primeiro a existir. Ele mesmo dando a luz a novas formas de existência e servindo de modelo físico e simbólico para nossa subsistência na terra. Entrego ao fogo que cria destruindo e destrói criando. 
Aqui está a porção que eu usei todos esses dias. 

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