terça-feira, 9 de dezembro de 2014

VALIDAÇÃO SUBJETIVA

Validação subjetiva: um vício da inteligência
Carlos Orsi  (8/12/2014)

Você acha que a imprensa está dominada pela direita golpista? Ou que as redações dos jornais estão infestadas por esquerdistas subversivos? Impressionou-se recentemente com a precisão do horóscopo, ou descobriu um significado especial em um sonho? Então talvez você seja vítima de um viés cognitivo – uma espécie de vício da inteligência – chamado validação subjetiva.
O nome costuma ser aplicado à tendência que todos temos de enxergar correlações e significados “profundos” em eventos na verdade não-relacionados, sempre  que essa correlação ou significado reforçar uma crença ou hipótese que nos é cara.
Por exemplo, imagine que você acredita em sonhos premonitórios e, um dia, sonha com um pássaro machucado. No dia seguinte, um avião cai. A validação subjetiva criará a tentação de ver o sonho como uma previsão (cifrada, mas ainda assim, válida) do desastre aéreo.  Ou que você está convencido que suco de abóbora cura gripe: cada vez que você souber de alguém que melhorou depois de tomar o suco, sua crença se reforça – a despeito do fato de que a maioria das gripes acaba passando sozinha de qualquer jeito.
A produção de correlações espúrias faz da validação subjetiva uma verdadeira usina de teorias de conspiração e, o que é mais grave, de reforço de preconceitos. Ninguém está livre de cometer uma barbaridade no trânsito ou de, eventualmente, acabar fazendo uma grosseria com alguém, mas se o barbeiro e/ou grosseiro tiver a etnia, orientação sexual, cor de cabelo, roupa, classe social, etc., “errada”, o evento será registrado como mais uma prova incontestável de que “esses aí” não prestam.
Validação subjetiva muitas vezes opera em conjunto com o bom e velho viés de confirmação, a tendência de buscar ativamente, e de valorizar em excesso, informações que reforçam nossas crenças e de menosprezar ou ignorar – muitas vezes, inventando para isso desculpas as mais criativas – tudo o que as contraria. Superar esses vieses requer sangue-frio, paciência e coragem.
Sangue-frio porque, principalmente em questões muito emocionais, como de paixão política ou de preconceito arraigado, pode ser penoso resistir à tentação de ver confirmações cabais em meras coincidências.
Paciência porque nunca é fácil imaginar que o que nos contradiz pode ter tanto valor quanto o que nos reafirma, e olhar com equanimidade para uma série de afirmações que, nosso coração garante, não passam de bobagem é um teste para a tolerância de qualquer um.
E, por fim, coragem porque, neste mundo de redes sociais polarizadas, é muito mais cômodo nos aconchegarmos junto à nossa turma e, caso algum argumento do “lado de lá” chegue a nos abalar, corrermos para os braços dos colegas de convicção, que geralmente acham um jeito de desqualificar, se não o argumento em si, pelo menos a fonte, que sem dúvida é “petralha” ou “neoliberal”, “gayzista” ou “machista”, quiçá “cientificista”, etc.
Talvez esse nem seja um esforço que possa ser sustentado de modo contínuo: imagino que todo mundo navega o dia-a-dia guiado, inconscientemente, por esses vieses, que podem até ser úteis – muitas de nossas crenças são mesmo verdadeiras, afinal, e se formos duvidar sistematicamente de tudo, avaliando cada mínimo passo de modo frio e racional, talvez nos víssemos sem motivo para sair da cama pela manhã – mas de vez em quando, principalmente em questões de forte apelo emocional, quando o juízo já chega turvado, ou na hora de decidir ações ou de formar opiniões que podem vir a ter um impacto grave e duradouro, vale a pena desconfiar da intuição e das vozes amigas, respirar fundo e ampliar o foco. Isso pode poupar tempo, dinheiro e, até, salvar vidas. Carl Sagan escreveu certa vez que se esforçava para não pensar “com as tripas”.  É uma boa política.
O ASTRÔNOMO CARL SAGAN, AO LADO DE UMA RÉPLICA DA SONDA VIKING, ENVIADA A MARTE NOS ANOS 70 (FOTO: REPRODUÇÃO).


Bibliografia 

http://revistagalileu.globo.com/blogs/olhar-cetico/noticia/2014/12/validacao-subjetiva-um-vicio-da-inteligencia.html


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