terça-feira, 9 de dezembro de 2014

IMAGEM DE UM ADEUS AO AMOR

ADEUS AMOR

"Chegando ao fim desta minha vida de pecador, enquanto, encanecido envelheço como o mundo à espera de perder-me no abismo sem fundo da divindade silenciosa e deserta", rápido relato esses acontecimentos que construíram o que sou.
Até onde me lembro a primeira vez que me apaixonei eu tinha 12 anos eu vivia com a menina na cabeça, povoando todos os pensamentos e imagens. Escrevi seu nome na última folha do meu caderno dentro de um coração... quando descobriram, cantaram bem alto "apaixonado, apaixonado" e ela descobriu-se objeto do meu amor... Do amor de um estranho.  Contudo, meu sentimento não era o que ela esperava e ela me espancou no anfiteatro da quadra de esportes da escola, e meu amor terminou ali, com meus ferimentos e o sangue que escorreu, coagulando em uma crosta que virou uma casca. Fiquei na rua até tarde para ninguém em casa me ver ferido. E chegando em fui direto para o banho na tentativa de apagar em mim o vestígio de um erro de uma falha minha. No outro dia, para meus colegas, disse que tinha escalado um barranco onde a linha do trem passava perto da escola e chegando ao topo despenquei lá de cima indo parar no fundo entre as pedras e espinhos; e todos ficaram contentes, rindo da minha coragem em escalar algo tão alto e perigoso. Para minha mãe disse que tinha sido numa partida de futebol uma bolada do time adversário que inclusive entortou meus óculos e me derrubou no cimento da quadra. 
Na segunda vez, ela era a rainha do baile da escola, Karol e eu tínhamos a mesma idade mas sua beleza era como uma montanha inexpugnável inatingível para um pobre mortal. E como todos sabem as garotas preferem meninos mais velhos e cheios de marra nessa idade. Passei um ano idolatrando aquela imagem de pele clara, cabelos lisos e lindas curvas, que dançava na quadra nas aulas de educação física. Dividíamos a mesma sala e fazíamos trabalhos de história juntos, ela escrevia  enquanto viajando no tempo imaginava-a como Cleópatra. 
Eu, o seu César, atravessando o Mediterrâneo tomava-a nos braços e seu amor e todos os tesouros do Egito antigo fluíam para a cidade eterna. Seu perfume ainda lembro, ela embarcou para uma viagem onde, depois soube, tornou-se modelo na capital. Apenas a possibilidade e um sonho distante e platônico restou em neu coração adolescente.  
Na terceira vez que me apaixonei não disse nada. Eu tinha 15 e ele 16. Era todo inteligente, curioso, sensível, afetuoso... Era o tipo de garoto que todas as mães querem como filho. Ele jogava futebol e eu basebol e nadávamos juntos toda ssegunda na piscina do colégio. Ele me ensinou a nadar borboleta, logaritmos e binômio de Newton e íamos juntos a todas as festas. Um dia muma festa no interior, lá pelas duas horas da manhã ele chegou para mim e disse que tinha beijado na boca pela primeira vez. Ela, uma menina morena de cabelos cacheados, linda e de olhos negros era minha melhor amiga. Comprimentei abrançando-o. Sai da festa dizendo que estava com dor de cabeça de tanto beber. Chorei muitas noites em silêncio soluçando e abafando o som da minha tristeza no travesseiro. Os dias tornaram-se noites e as noites pareciam eternas com sua soturna ausência da luz do sol do meu verão e o silêncio era um medonho redemoinho de desconhecidos e torturantes olhares. A proximidade virou distância e a distância virou caminhos para outras direções. 
A terceira vez eu tinha 25 e ele 18 durou algum tempo mas meu coração já estava cheio de rachaduras, crônicas dores e, mesmo a cola desse novo amor não foi suficiente para manter juntas as partes que importavam. Ele partiu e acho que chorei no banheiro olhando no espelho as lágrimas salgadas rolarem pelo meu rosto. 
Alguém disse que a vida é um longo adeus a tudo que amamos. Ahhh o verbo amar ... Está sempre colocado no início.  No princípio era Deus. Se Deus é amor, o verbo também é  amor; e estando o amor ligado à vontade, esta é a energia que guia minhas atitudes e decisão. 
Ora, sendo o amor pleno conhecimento da verdade, resulta então que o amor é a única verdade que importa e que é responsável por nossa vida interior. 
Nunca mais amei, talvez porque a vida me deu outros caminhos ou me senti vazio desse sentimento. Quem sabe se algum dia saberei a causa? 



Bibliografia

ECCO, U. O nome da rosa. Rio de Janeiro, RJ, ED. Nova Fronteira, 1983. 
SCHOEPFLIN, M. O amor segundo os filósofos. Bauru, SP, EDUSC, 2004

Nenhum comentário: