terça-feira, 23 de dezembro de 2014

SOBRE AS IMAGENS


SOBRE AS IMAGENS

As imagens que posto são imagens com grande significado para mim. Normalmente as uso para pensar a arte e meu fazer dentro desse campo tão vasto. São como um diário visual, uma enciclopédia de ideias-imagéticas, uma vez que imagens são possuidoras de muitos significados (sobrepostos, superpostos, justapostos, contíguos e associados) e também possuem muitas camadas de significado e ideias ligadas. Somente para citar um exemplo: tomo a imagem do crânio abaixo; muitas espécies de primatas. Não tem somente uma ideia de morte (a mais básica de tidas), normalmente as pessoas param aí é dão grande valor a essa primeira aproximação. Mas há outros andares de significação igualmente interessantes e até mais abrangentes. Há a ideia de uma infraestrutura compartilhada, uma ideia de passado, a própria vida (com V maiúsculo), ideia de simplicidade (depois da decomposição (ideia de coisa composta "res compositae"), há uma ideia de criação (como um demiurgo platônico), há ainda uma ideia de manutenção. Outros conceitos que eu associo a essa forma são: saber, conhecimento, superestrutura na qual podemos ver além invocando conceitos abstratos como "sede sapientiae", espírito, alma, elã, entelequia (Aristóteles), vis vitalis. Há uma ideia de peso e leveza, de beleza e de sua deformação (o grotesco). Há uma ideia "capítulo" que organiza todo um conjunto de outros subconjuntos de conceitos como igualdade, pensamento, sentimento, saudade. Outro conceito que eu também trabalho e que articula um conjunto de ideias dessa imagem arquetípica é um ponto de início e fim (ponto de fuga), perspectiva (arquitetônica e metafórica), "alpha et ômega, primus et novissimus, initium et finis qui ante mundi principium"...

Uma ideia do "cogito" cartesiano do "cogito et ego sum"; e por isso mesmo uma ideia de homem em toda a sua complexidade e beleza, mas também de todos os males e atrocidades deixados na história como um rastro do homem. É também um rastro, resto, sinal, pegada, evidência, de uma entidade específica (Linnaeus). É também uma caixa de guardados! Memória e tempo. Espaço sagrado das ideias "είδος" (eidos) as formas de Platão. Mas também uma ideia de aparecimento nobre e grandioso, de fenômeno, physis (φύσις: surgir) 

Noite (que supõe a luz, ardor, o fogo (πϋρ), de Heráclito, e a luz absoluta; (φάος: luz, φώς: claridade, φαίνω: brilhar, aparecer). Que para aparecer deve necessariamente ter força (φύσεωσ ἰσχύσ) força de poderes naturais.  

φύσισ [ῠ], ἡ, φύσεως, poet. φύσεοσ φύσιοσ: dual φύσει, (φύω): origem, originar, nascer. A forma natural ou a constituição de uma pessoa ou coisa como resultado do desenvolvimento ou crescimento. 

Uma clareira. Que se revela na verdade, na άλήθεια, o nome da verdade. O substantivo, o substantivo-adjetivado do que sempre aparece quando deixamos de ser. Mas também é e está no que somos. Natureza. Caráter. (φυσειν κοινή) princípio de crescimento no universo...

Substância elementar (... πῦρ καὶ ὕδωρ καὶ γῆν καὶ ἀέρα πρῶτα ἡγεῖσθαι τῶν πάντων εἶναι καὶ τὴν φύσης...)


(Thomas de Aquino. in Librum Aristotelis: περὶ γενέσεως καὶ φθορᾶς, (Peri geneseôs kai phthoras) De generatione et corruptione - expositio; Livro I).

De certa forma todas as imagens mantém entre si ou compartilham um passado no qual suas raízes se encontram na primeira imagem (o primeiro lampejo de luz que trouxe o "mundo" para dentro de nossa alma (ou mente) transformando-se na matéria mesma de nossa memória). 

Assim, mesmo tendo sido (não podemos ter certeza de que são aquilo que mostram (ícone, índice, símbolo), e não podendo nos mostrar a coisa em si nem sua essência, sua existência cai num espaço-tempo distinto. Não são testemunhas fidedignas de um passado verdadeiro, absoluto; são como uma esperança que disputa lugar em nossa lembrança...

Mesmo a fotografia de um desenho representando um crânio lança a imagem num abismo. Do paradigma artesanal, manual, do desenho que é a expressão do artista e o fruto de sua habilidade manual e pesquisas, sucede o paradigma industrial da fotografia, que é a captura das aparências de uma coisa por uma máquina (André Rouillé,2008). 

Entretanto, sendo nosso mecanismo de visão exatamente delineado como uma máquina fotográfica em nossa memória ou vice-versa (a máquina fotográfica que é delineada compondo mecanismo orgânico de ver) nossas memórias, restos, de uma realidade passada se assemelham a um registro fotográfico. 
Em nossa memória as imagens formadas pela retina (imagens retinianas) guardadas, gravadas e evocadas, transformadas, são como um fotograma, enquanto a fotografia perdeu esse status de uma sombra do real para ser ícone, índice, símbolo de algo que não sabemos se é real. Por isso as imagens estão encharcadas de significados, de diferentes estratos temporais. Elas são camadas geológicas que ao olho e à mente ganham vida, sendo, i.e., pode-se afirmar que foram algo. 

Como para os entes, a máxima afirmação que se pode fazer é o verbo ser declinado no presente continuo (É) as imagens pertencem ao passado onde sua afirmação máxima só pode ser declinada no pretérito perfeito (simples). Isto aconteceu, isto foi, isto ocorreu.
Isso posto uso as apropriações dessas imagens, muitas vezes alteradas, para acentuar um dos significados ou alguns significados ou camadas de significados. Em trabalhos em serigrafia uso essas imagens sobretudo alteradas ou parte dessas imagens para dar ênfase a uma ideia ou a um conjunto de ideias ou conceitos que quero mostrar. 



Comparação entre a forma do crânio de diversos primatas 

Imagem da silhueta de uma cabeça humana mostrando a vascularização (com os principais vasos)

Tipo de ilustração representando um crânio humano com rosas

Imagem de TV - mostrando parte do esquleto humano

Foto da Lua (s/fonte)

Still do filme: Laranja Mecânica (A Clockwork Orange) 1971- Stanley Kubrik Film.  




Moldes da parte interna de crânios fósseis mostrando a vascularização do tipo Homo sapiens pré-históricos. 

Collage com diversos elementos (fonte: internet)

Bombus sp. Insecta - ordem Hymenoptera





Cidadão portoalegrense toma banho num chafariz no centro da cidade


Philippe de Champaigne (1602-1674) - Natureza morta com crânio (Vanitas)



Pieter Claesz, Stil life, 1628

Pieter Claesz, Stil life, 1634

 Bailey's skull with flowers


Pietr Claesz, Still life with a quill, 1628
Damien Hirst - For the love of God



Bibliografia

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