sexta-feira, 14 de novembro de 2014

TEMPO ALTERNATIVO

Pós-moderna nostalgia

Eu estou aqui nesse lugar de incertezas. Daqui olho para o passado e com tristeza sinto saudade. 
Quero levá-los a um outro espaço-tempo onde eu formei meu espírito. 
Nesta utopia passada corro o risco de glamurizar o ontem, pensarão. Sei disso. 
Mas vamos lá. 
Quando eu era criança no interior do estado, havia verde por todo lado. Era um mar de diversos tons de verde. Eu corria pelos campos na maioria das vezes sozinho. Havia inúmeros tipos de flores, arbustos, árvores e muitos bosques e riachos e rios serpenteantes entre as colinas.  Quando chegou o tempo da escola tive alguns amigos. Mas todos eram muito distantes. Mas no ensino médio tive alguns muito bons amigos com os quais tive ideais em comum. Ideais de esclarecimento, Iluminismo, conhecimento, arte entre outros assuntos. Nossos trabalhos eram feitos lendo livros nas bibliotecas, comparando e reescrevendo nossos achados e discutindo nossas ideias e as inconsistências dos textos. 
Formamos um clube com os amigos, inicialmente o clube era administrado por um conselho de três, mas quando cresceu tornou-se presidencialista com um "board" administrativo e um departamento científico que englobava desde exobiologia, geologia, biologia, química, física, astronomia e astronáutica, botânica e peontologia. Além de esportes como futebol e voleibol. 
Saíamos juntos para acampar e explorar as montanhas os rios, pescar e coletar espécies de animais e plantas e depositá-los em nosso museu. 
Além disso fazíamos reuniões uma vez por semana as vezes com fogueira ao relento sob um céu estrelado do hemisfério sul. Discutíamos sobre todas as coisas que líamos nos jornais, revistas, que víamos na tv, e inclusive sobre o que estudávamos nas aulas, pois boa parte de nós éramos colegas na mesma escola. 
Todo ano fazíamos uma grande festa junina próximo ao solstício de inverno, com uma das maiores fogueiras de nosso bairro, com musica, casamento na roça, bebidas e comidas tradicionais. 
Fazíamos experiência de química em nosso laboratório comprado com dinheiro de torneios. Criamos um pequeno parque de limnologia onde colocamos peixes e estudamos o efeito das algas e aguapés. Tentamos despoluir  um grande açude com aguapés e desviamos um córrego para que não entrasse em nosso açude e passasse por alguns tanques com plantas despoluidoras. Montamos uma grande coleção de rochas do nosso bairro e redondezas e do nosso município. 
Além disso promovíamos palestras com pesquisadores da universidade (UFSM) em espaços que eram conseguidos através de diplomacia. Fomos os primeiros a criar um festival de rock no bairro chamada "Rock Garagem" onde algumas bandas se apresentaram. 
O que era necessário para que tudo isso acontecesse? Diálogo, coordenação, liderança setorizada, consciência e espírito de grupo e orgulho por pertencer a algo criado por nós mesmos. 
E hoje eu experimento um individualismo muito exacerbado. Não há trabalhos em conjunto, não mais coletividade. Não há mais diálogo. O diálogo passou a ser mediado pela internet e se tornou um diálogo frio e distante. Não há mais construção comum de um objetivo. As pessoas construíram um muro alto ao seu redor. 
Não estou dizendo que a internet seja ruim, muito pelo contrário, ela facilitou muito do trabalho intelectual, aproximou ideias e pessoas, melhorou processos e é uma fonte de criatividade. Mas só ela não constrói algo no mundo físico. A internet não substitui o contato, o olho no olho, o aperto de mão.  
É necessário usar nossas forças e construir com as próprias mãos um futuro que sonhamos. 
É necessário ser autor. Autor de ideias, de textos, de projetos e de sonhos. 
Autor de amizades, de coletivos; ser a alma do grupo, uma alma partilhada entre todos os membros que participam do coletivo. 
É necessário ser autor da coexistência entre pensamentos e ideias divergentes e colocar toda força na realização de um objetivo comum
É necessário construir o sonho independente de quem teve a ideia.  
É necessário sonhar junto.  
Como educador tento desenvolver nos alunos esse pensamento que une a internet, a autoria e a coletividade no mesmo momento criador, que é revolucionário. 























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