sábado, 6 de setembro de 2014

XXXI BIENAL DE SÃO PAULO


"INFERNO" NA XXXI BIENAL DE SAMPA

Filme de Yael Bartana simula a destruição do Templo de Salomão
    Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S. Paulo

A mais importante exposição de arte da América Latina, criada em 1951, inaugura amanhã sua 31.ª edição sob o signo da polêmica. Uma carta aberta à Fundação da Bienal de São Paulo, assinada na semana passada por 55 artistas dos 86 participantes, exigiu explicações sobre o apoio financeiro de Israel à mostra, por acreditar que esse dinheiro - depois dos conflitos em Gaza - comprometa a integridade dos artistas e autonomia dos curadores. O presidente da Bienal, Luis Terepins, em resposta, esclareceu que, nesta edição, foram 21 apoios internacionais, entre eles Espanha, Turquia, França e Israel, e que "todos os patrocínios à Bienal foram honrados". Nada mudou na política de apoios à instituição, garantiu Terepins.


Curiosamente, a obra que deverá provocar maior sensação entre os visitantes da Bienal de São Paulo, considerando a reação do público na preview do evento, é justamente um filme israelense, Inferno, da artista Yael Bartana, que já participou da mostra internacional (em 2006 e 2010).

O Inferno de Bartana explora manifestações religiosas de caráter híbrido que proliferam no mundo contemporâneo. No início do filme, três helicópteros sobrevoam São Paulo transportando, entre outros símbolos sagrados, uma Menorah gigantesca e uma réplica da arca da aliança. Na sequência, pagãos seguem em procissão para um ritual celebrado por um sacerdote andrógino. Os fiéis formam um bando de sibaritas reunidos num templo muito parecido com o de Salomão, que foi destruído pelas invasões babilônicas em 584 a.C.
Pelos ares. Cena final de "Inferno"
Um segundo templo foi erigido por Herodes em 64 d.C., também destruído pelos romanos. Dele sobrou o Muro das Lamentações. O foco da realizadora israelense, no entanto, é um terceiro templo (o último, segundo as profecias). Trata-se da réplica brasileira do Templo de Salomão, concebida pela Igreja Universal do Reino de Deus, que ela antevê transformado em ruínas no que chama de pré-encenação de uma tragédia anunciada. Tudo vai pelos ares no epílogo de sua ficção sobre a Nova Jerusalém paulistana. Não sobra nada da utopia messiânica no debochado filme de Yael Bartana, conhecida por investigar a busca de identidade cultural num mundo cada vez mais uniformizado. 
A construção de um templo bíblico de arquitetura retrô numa megalópole secular seria, segundo a cineasta, "uma das estratégias da indústria da fé na luta por capital simbólico". Várias obras expostas na Bienal, aliás, confrontam as religiões. O coletivo argentino Etcétera revisita um antigo trabalho do herege León Ferrari (1920-2013), Palabras Ajenas (1967), para construir seu libelo político Errar de Deus. Como o próprio título indica, trata-se de um manifesto surrealista do movimento criado pelo grupo, o Internacional Errorista, que elege o erro como experiência fundamental. Ferrari criou um clube de ímpios, hereges e blasfemos em 1998, que chegou a pedir a extinção do inferno ao papa João Paulo II. O Vaticano negou o pedido. Anteontem, os integrantes do Etcétera entregaram uma nova carta à Santa Sé, pedindo o mesmo ao conterrâneo papa Francisco. Em 2004, o então cardeal de Buenos Aires classificou de blasfema uma mostra de Ferrari - algumas peças dessa exposição estão agora na Bienal. Enquanto o papa decide se acaba ou não com o inferno, ele vai continuar funcionando no pavilhão da Bienal.

INFERNO

Thriller do filme INFERNO de Yael Bartana 


YAEL BARTANA'S INFERNO
INFERNO 1/2

INFERNO 2/2


OUTROS HEREGES


'Dios Es Marica'
Quatro artistas do Peru, México e Chile mostram desde travestis vestidos com roupas de santas a uma encenação da Última Ceia num prostíbulo de Santiago.

'Línea de Vida'
Imagens do Museu Travesti do Peru, criado pelo filósofo e drag queen Giuseppe Campuzano (1969-2013) contam como a Igreja reprimiu índios andróginos no século 17 e continuou perseguindo gays nos séculos seguintes.

'Capital'
Wilhelm Sasnal pinta o busto coroado de um arcebispo polonês empalado numa picareta, como se fosse um troféu de guerra.

31ª BIENAL DE SÃO PAULO 

Pavilhão da Bienal. Av. Pedro Álvares Cabral, Pq. do Ibirapuera, portão 3; 5576-7600. 3ª a dom., 9 h/ 19 h; sáb. até 22 h. Até 7/12.

Cinco circuitos temáticos para visitar a 31ª Bienal de São Paulo


A partir deste sábado (6), artistas de todo o mundo expõem suas obras na 31ª Bienal de São Paulo 
Cerca de 100 artistas expõem suas obras na Bienal. 
A partir deste sábado (6), artistas de todo o mundo expõem suas obras na 31ª Bienal de São Paulo 



Cerca de 100 artistas expõem suas obras na Bienal. 
Foto: Clayton de Souza/Estadão 

Celso Filho

A 31ª Bienal de São Paulo, que será aberta ao público no sábado (6), quer falar sobre “coisas que não existem”. O que pode incluir coisas que até existem, mas não são tão evidentes, não ganham atenção. Ou coisas que poderiam existir, se a sociedade fosse transformada. Assim, dá pra entender o tom engajado presente em vários trabalhos expostos nesta edição do evento. “A arte pode imaginar outras possibilidades, outros caminhos a serem tomados; tornar visível o que não é”, analisa Benjamin Seroussi, que faz parte da equipe de curadoria, liderada por Charles Esche. 

Os cem artistas, vindos de 34 países, compartilham, nas obras, suas visões de mundo, suas contestações – que, por vezes, chegam a ser atos públicos. “Partimos da ideia da arte que não olha de cima, mas que está dentro das redes que pretende discutir”, diz Seroussi. 
Neste ano, as cerca de 250 obras expostas estão agrupadas em 81 projetos – feitos de forma coletiva entre dois ou mais artistas. 

“É muito difícil ter uma narrativa clara do que acontece no mundo atual. Então abrimos a possibilidade de leituras diferentes”, justifica o também curador Pablo Lafuente. 

A seguir, você acompanha cinco possibilidades de visitas que criamos com a ajuda de Seroussi e Lafuente. São algumas entre as tantas que a arte permite descobrir. 
Pavilhão Ciccillo Matarazzo. Pq. Ibirapuera, Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, portão 3, 5576-7600. 9h/19h (4ª e sáb., 9h/22h; fecha 2ª). Inauguração: sáb. (6). Grátis. Até 7/12. 

Bate-papo com o curador 

Líder da equipe curatorial, o britânico Charles Esche – que também esteve por trás da 9ª Bienal de Istambul, em 2005 – falou ao Divirta-se: 
De onde vêm essas coisas ‘que não existem’, mencionadas no tema da 31ª Bienal ?
Queríamos mostrar um mundo maior do que aquilo que vemos na mídia ou no cotidiano. Existe uma distância entre o que nós sentimos e o que nós vivenciamos. E é isto que nós queremos investigar na Bienal. 
E como os artistas trabalharam essa proposta?
Eles estão engajados em entender esse momento de transição – que pode ser tanto social quanto artística. Fizemos uma exposição sobre essas transições, e não só sobre assuntos restritos à arte. 
Além dos artistas, participam desta edição alguns movimentos sociais. Como surgiu a ideia?
Durante a organização da Bienal, vivemos o clima de contestação no Brasil. Queríamos mostrar essas pessoas e suas causas. Tentamos dar voz a quem tinha ideias inteligentes para abordar essa condição contemporânea, sem critérios econômicos. 

Foto: Pedro Marinello

PARA CONTESTAR 


Abordando questões sexuais, políticas ou econômicas, a crítica social e a transgressão permeiam a obra desses artistas. Vale a pena refletir com eles. 


Política teatral. Baseada na obra ‘Palabras Ajenas’, de León Ferrari (1920-2013), o grupo Etcétera…, da Argentina, montou a instalação ‘Erro Deus’. Primeiro, são expostas criações de Ferrari. Depois, o visitante tem acesso a uma sala, onde há uma espécie de tribunal com áudios de discursos de líderes religiosos e políticos. Com um dos telefones que estão na bancada e um roteiro, é possível interagir com a obra, nessa ‘disputa de poder’. 


Sombra e luz. Em ‘Histórias de Aprendizagem’, a chilena Voluspa Jarpa imprime, em placas de acrílico, documentos oficiais sobre as ditaduras na América Latina. Suspensos por fios e contra a luz, os textos e os riscos da censura se destacam em sombras geradas na parede. “A obra trabalha com esse elemento do contraste. São peças em que a escuridão é uma forma de visão; uma maneira de recontar a história”, explica o curador Lafuente. 


Sem economia. A colombiana Johanna Calle expõe dois trabalhos em série, nos quais utiliza elementos gráficos e desenhos para fazer um reflexão sobre questões econômicas. Em ‘Perímetros’, folhas datilografadas de livros com matrículas de posse formam uma grande árvore. Já em ‘Imponderábles’, vários fios de cobre sobre um fundo branco remetem a tabelas contábeis. Mas alguns deles se ‘revoltam’ – deixam as linhas retas e criam novas figuras. 


Apelo sexual. Com potencial de gerar polêmica entre os mais conservadores, o projeto ‘Deus É Bicha’ reúne obras de Nahum Zenil (México), Ocaña (Espanha), Sergio Zevallos (Peru) e Yeguas del Apocalipsis (Chile). Em pinturas, fotografias, vídeos e esculturas, eles discutem a homossexualidade de forma sarcástica, retratando figuras travestidas com elementos religiosos e políticos – como na obra ‘Las Dos Fridas’, do grupo Yeguas del Apocalipsis (foto acima). 


Foto: Yuri Firmeza/Divulgação


MISTICISMO E FÉ
Seja em rituais de cura ou em tradições ligadas à Igreja Católica, as crenças místicas e religiosas aparecem em vários trabalhos que ocupam o Pavilhão
Celebração religiosa. A cidade de Alcântara foi a primeira capital do Estado do Maranhão. Hoje, vive de promessas de desenvolvimento que nunca foram concluídas. No filme ‘Nada É’ (foto acima), Yuri Firmeza mostra essa realidade de fé e esperança, no cenário da Festa do Divino Espírito Santo, que movimenta a vida dos moradores todos os anos. Na Bienal, o artista também expõe o trabalho em fotografia ‘A Fortaleza’, no qual discute a memória pessoal.
Cidade de médiuns. O vídeo ‘A Família do Capitão Gervásio’, de Tamar Guimarães e Kasper Akhøj, registra a forte presença da mediunidade na cidade de Palmelo, em Goiás. Lá, está o Centro Espírita Luz da Verdade, onde são feitas sessões de cura por meio do espiritismo.
Feitiço natural. De Israel à Amazônia, Michael Kessus Gedalyovich pesquisou sobre o curandeirismo. Em ‘The Placebo Scroll’, ele registra as técnicas em um pergaminho. Em ‘The Name Giver’, os métodos ganham forma em uma vitrine de objetos, que inclui pílulas falsas.
Mistério de pedra. A norte-americana Jo Baer expõe seis pinturas inspiradas em uma misteriosa pedra irlandesa, que possui um furo atravessando seu centro. A lenda conta que ela chegou ao local arremessada por um gigante. Na série ‘In the Land of the Giants e Outros Trabalhos’, o objeto é representado junto a outros elementos místicos, como caveiras, corvos e estrelas.
Foto: Danica Dakic/Divulgação


OLHAR EXTERNO

Muitos dos artistas estrangeiros que vieram para a Bienal não quiseram apenas expor seus trabalhos -

mas criar obras a partir de temas ligados ao País.
Sem intermédios. Para ocupar um espaço com cinco mesas semicirculares, a nigeriana Otobong Nkanga convidou movimentos sociais brasileiros a mostrar como cada um aborda a relação do homem com a terra. “Eles vão montar uma pequena mostra durante a Bienal e trabalharão ali. A ideia é que o público tenha contato direto com os representantes”, diz Seroussi.
Regiões de contraste. A indiana Sheela Gowda contrasta a elasticidade da borracha com a rigidez do ferro descartado de esquadrias. Em ‘Those of Whom’, suas esculturas são resultado de um trabalho com seringueiros do interior do Acre e em terrenos de demolições em São Paulo.
Finito ou eterno. O holandês Jonas Staal uniu universos distintos – a racionalidade da arquitetura de Brasília e as crenças do espiritismo. Com vídeos, cartografias e maquetes, seu projeto aborda similaridades e diferenças entre a capital federal e a cidade mística Nosso Lar.
Memórias do circo. Roger Avanzi é o último palhaço Picolino de sua família, formada por artistas circenses. Sua história é contada pela bósnia Danica Dakic no filme ‘Vila Maria’ (foto acima), que foi gravado durante a apresentação dele no desfile da Unidos de Vila Maria, no Carnaval de São Paulo deste ano.
Foto: Eustachy Kossakowski

OUTRAS HISTÓRIAS 


A maioria dos projetos expostos na Bienal é recente – ou foi feita especificamente para a mostra. Mas também há espaço para (re)apresentar obras mais antigas. 


Registros arquitetônicos. Nos anos 1960, o artista Asger Jorn (1914-1973), ao lado do fotógrafo Gérard Franceschi (1915-2001), visitou igrejas e prédios antigos para catalogar traços da cultura pré-cristã na arquitetura europeia. Parte dessas imagens estão no projeto ‘10.000 Ars Nordisk Folkekunst’. 


À frente. Com uma estética, na época, de vanguarda, o granadino José Val del Omar (1904-1982) foi representante de uma geração espanhola formada por nomes como Luis Buñuel e Federico García Lorca. Na Bienal, são exibidos dois vídeos do artista: ‘Aguaespejo Granadino’ (1953-1955) e ‘Fuego en Castilla’ (1958-1960). Realizados no contexto da ditadura franquista, as produções abordam elementos como religião e forças naturais. 


Nu artístico. O corpo é personagem principal no trabalho de Hudinilson Jr. (1957-2013). Em ‘Zona de Tensão’, detalhes da anatomia masculina, como pênis e mamilos, são escaneados em máquina de xerox e dispostos em mosaicos. Feitas nos anos 1980, as obras foram reunidas a partir do acervo pessoal do artista. 


Performáticas. O polonês Edward Krasinski (1925-2004) reciclava objetos do cotidiano e os transformava em esculturas. Algumas dessas obras eram manuseadas durante suas performances, como na foto acima. Criadas na década de 1960, as peças não são mais usadas – mas estão expostas em uma sala dedicada à obra do artista. Também é possível ver fotografias que registram suas ações, feitas por Eustachy Kossakowski. 


Foto: Clayton de Souza/Estadão



ENTRE E PARTICIPE 


Nos projetos abaixo, você tem de percorrer trajetos, desvendar ambientes. Porque eles não foram feitos só para contemplação – sua presença é parte da obra. 


Festa aberta. Em ‘Los Incontados: un Tríptico’, o grupo colombiano Mapa Teatro lhe convida a visitar o cenário de uma peça – em três perspectivas. Primeiro, você é espectador da cena (o fim de uma festa). Depois, acessa o palco e o backstage, em meio a uma desordem que reflete sobre as mazelas do país. 


Fique à vontade. Com plantas e móveis antigos distribuídos em cômodos, Arthur Scovino criou a ‘Casa do Caboclo’. O espaço servirá como ambiente de trabalho do artista. Se passar por lá – e tiver sorte -, você pode encontrá-lo em uma de suas performances. 


Caminho obscuro. Intrigado pela falta de espaços dedicados às atrocidades cometidas no Brasil, Yochai Avrahami, de Israel, criou seu próprio ‘museu da violência’. Como em um trem fantasma, ele convida você a seguir por sua instalação, que discute a morte e a memória. 


Por dois ângulos. Na instalação ‘Arqueologia Marinha’ (foto acima), o senegalês El Hadji Sy propõe uma discussão sobre o trajeto feito pelos escravos que chegavam ao Brasil. Em um grande corredor, de um lado, estão desenhados corpos ‘presos’ no oceano; de outro, uma rede sustenta a figura de um baobá feito com sacos de café. Quem está longe vê as pernas dos visitantes que circulam pela passagem. “Você é tanto espectador quanto parte da arte”, explica Lafuente. 


Outras dicas: 

- Para chegar, o ônibus 909A/10 é direto e parte, a cada 15 min., do metrô Paraíso.

- Para visitas guiadas, a equipe educativa reúne grupos na entrada do pavilhão. 

- Saraus e performances são quinzenais, sempre de domingo à tarde e de 4ª à noite. 

Bibliografia

Jornal: O Estado de São Paulo





Nenhum comentário: