terça-feira, 16 de setembro de 2014

HORTUS HESPERIDES

Tarde te encontrei

Tarde te encontrei

Todos os dias de solidão que vivi, todas as leituras dos clássicos e todos os sonhos de liberdade e encontros que desejei até então, formaram parte do que vc ama em mim.  Todavia, eu trocaria tudo o que já vivi, desejei ou senti para ter te encontrado de mochila nas costas, de manhã cedinho, caminhando em direção às montanhas, depois de uma semana de provas na escola.  
Adoraria ter passeado com você nas praias desertas no inverno do sul, nas dumas além do Mampituba... 
Na orla dos pântanos salgados ao fim calmo da tarde com o zumbir dos insetos que tornam tudo vibrante e fugaz.  
Amaria poder ter te apresentado pela primeira vez uma nova cafeteira e ter me sentido um pouco adulto por poder te convidar para tomar um  café nas sextas de outono. 
Queria ter vivido com você  na época pré-smartfones, pré-whatsapp, pré-redes sociais, pré-skype, que tomam tempo, atenção e diminuem a convivência o diálogo e o toque.  
Queria ter sido da tua turma e sentado ao teu lado nas manhãs frias de inverno, você me olharia com aquele olhar de pena e pegaria minhas mãos geladas e as aqueceria em meio as suas. 
Queria ter estudado contigo para as provas e cochilado no teu ombro sem peso na consciência enquanto voce resolvia as equações propostas e problemas de cinemática... 
Dormiria nas aulas de matemática porque passei a noite estudando para a prova de biologia molecular que terminavam inexoravelmente com um seminário onde cada aluno teria de emitir seu entendimento baseado no que leu; e voce gentilmente passaria teu caderno com anotações e eu falaria confiando nos teus escritos.  Queria ter sentado na tua frente para olhar para trás e voce me explicar como as espécies evoluem graças a ação da seleção natural que é a integral de todos os eventos de seleção da vida de um organismo vivo. 
Queria ter sentado atrás de voce para que voce tivesse a sensação de que eu estivesse necessitando de cola. 
Queria ter feito muitas cadeiras com voce, ser do teu grupo estudos ou de seminários só para opinar diferente e então discutiríamos até voce me convencer de que estava certo, pois sempre esta correto em suas argumentações profundamente embasadas. 
Por vezes, não concordaria só para ficarmos discutindo a tarde inteira de sexta e todo dia do sábado só para concordar com voce a noitinha e então nos reconciliaríamos rindo e jantando juntos. E juntos ficaríamos em silêncio vendo a lua derramar seus lânguidos raios prateados sobre o lago, desaparecendo nas profundezas obscuras. E no zênite dos céus do inverno meu sentimento se confundiria com as estrelas que distantes brilham silenciosamente vivendo seu passado em nosso presente. 
Queria ter tido a sorte de ter te encontrado cedo em minha vida para poder perder-te, só para sentir a inefável alegria de reencontrá-lo novamente.  
Então, depois dos exercícios da aula de educação física iríamos para casa cansados e sorridentes e em meu nariz eu tentaria capturar e definir a tua particular fragrância, mas ela fugiria como faz uma "labareda", a ninfa dos carvalhos, escapando da rede de um colecionador. 
E nos acampamentos nas montanhas depois de uma árdua caminhada de meio dia sob o sol do verão, faríamos fogo e cozinharíamos arroz com salame e aquele aroma do campo no prato, permaneceria para sempre na memória. 
Nas festas da faculdade teria sempre a desculpa para minha falta, pois estar contigo já era sempre uma festa para meus olhos e minhas mãos que acariciam teu rosto e teu corpo.  
Tarde te amei oh beleza sem tempo...
Tarde te amei...
Você teria sido a porta de saída de minha casa e o portão de entrada para o jardim do teu coração... O horto das Hespérides onde ninfas guardam com zelo a árvore sagrada de Hera.  
Voce, a estrada para um mundo que só tua imaginação anteviu.
Terias sido a chave que abre a porta da felicidade onde não existe mais fronteiras entre o teu corpo e o meu...  

(15/IX/2014)



Ortus hesperides, xilogravura em papel, 2014. 





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