domingo, 29 de janeiro de 2012

O EU QUE SE ESCONDE



O eu que se esconde





Quem é você?

Quem é esse ser que me olha nos reflexos do cotidiano?
Que habita o meu corpo todos os segundos da existência?
Você nasceu, foi amado, cresceu foi cuidado. Você entra para a escolinha, leva merenda brinca no recreio com os amiguinhos. Você joga bola, brinca de pega-pega, esconde-esconde e joga cartas. Mas eis que um dia pensamentos novos e naturais você pensa.
Você cresce. Dúvidas acumuladas ao longo do tempo ressurgem e você se descobre diferente. Você sofre. Por não saber o que o torna diferente.
Você imagina que todos aqueles que o olham sabem algo de você que nem mesmo você sabe... ou algo que você luta para esconder. Você nega a situação.
Tenta ser como todos os seus amigos.
Estuda, joga bola, acampa com amigos, faz natação, ama, ri, cuida e é cuidado, até tenta namorar aquela mina que sempre deu bola para você...
Mas não da certo, alguma coisa não funciona como deveria. Você dá o fora, chora arrependido. Você esquece, deixa pra la...
É feliz ou tenta ser. Mas nada disso é o REAL EU que habita em você.
Você tem lança e escudo de guerreiro, vai à luta, cai e levanta, às vezes demora na batalha, em outras, a justa é rápida; às vezes perde batalhas por escolhas e estratégias errôneas e assim demora a se reestabelecer. Algumas vezes os amigos o erguem outras vezes é erguido pelo pai tempo ou por algum desconhecido. Trabalha, briga com a mãe e com os irmãos, e até mesmo com o vizinho. Toma chope nos “happy hour” com colegas da faculdade, faz um esquenta na casa dos amigos, vai a baladas, bebe cerveja, toma energéticos, se interessa por um “gato” um “pedacinho”... Fica triste por não ser amado da mesma forma e intensidade que amou... Mas seu amigo esta lá para ouvir e dar apoio.
Ele até oferece a casa para você levar o seu encontro casual...
Você desenha, escreve poemas, faz um blog. Vai para academia, treina toda semana... Conversa com os colegas e conhecidos, da uma informação para uma pessoa perdida na rua.
Você sonha...
Vai ao cinema, emocionado, chora.
Mas olham para você estranhamente, ou o discriminam, segregam ou o aceitam “com ressalvas mudas, inconscientes”...
Você se imagina diferente; muito diferente;
até pode pensar que não merece ser como os outros...
que fez algo errado ou que persiste em algum erro...
Nasci assim não sei ser de outra forma, você pensa.
É como dizer a um peixe que respirar dentro d´agua é errado...
Você faz o melhor todo dia, lê jornais, livros, vê noticiário na tv, pensa criticamente, atualizando-se sempre, você ensina tudo o que sabe...
Você trabalha para o mundo ser melhor cada minuto do dia.
Mas você se conforma em ser um cidadão de segunda categoria, para que os outros falem com você...
para que os outros o vejam humano e igual a todos e não coloquem antes de tudo, aquela diferença, que o transforma em um retalho do humano que é.
“Eu não sou um pedaço, um retalho, uma parte, um trapo, um lixo, você pensa enfaticamente”.
 Mas o outro não o vê como ele.
E para ter amigos, você se conforma;
Concorda com as piadas, a ironia...
Voce fala do que as pessoas falam para não ficar calado
Para ter com quem falar
Mas nunca fala do que gostaria de falar
Do que toca o seu coração... Do que tem na memória...
Você ajuda sua família; esteve presente todo tempo.
Riu com eles, se alegrou e chorou quando seu irmão teve um bebezinho.
Agora você tem um sobrinho. Vinte e cinco por cento de voce esta lá naquele novo integrante da família. Mas você nunca será como eles, não que você não seja totalmente humano exatamente como eles, mas porque simplesmente eles não o vêem como um igual.
Você espera. Procura. Olha em todos os lugares. Vasculha.
Espia nos bares, nos gestos, nas opiniões, na rua...
Nas leituras que seus olhos fazem das pessoas e dos encontros... Imagens.
“Existirá alguém que me encontrará e por mim se interessará como eu por ele?”
Você pensa... Afinal humanos se olham, se encontram, se conhecem.
Fazem sexo. Planejam, dividem a vida juntos...
Amam-se e se desejam mutuamente...
Estando separados, esperam que o tempo passe logo para estarem juntos quando a noite cai...
Mas para você o tempo apenas passou.
Agora voce deseja que ele passe rápido... Assim, o fim estará mais próximo.
Afinal quem se esconde por trás da sua pele? Dentro dos teus ossos?
E nas células do teu cérebro? Nos riscos dos papéis deixados nos dias solitários?
No sangue que corre em tuas artérias e veias?
Quem se esconde nos teus pensamentos e nos teus olhares?
Quem é esse ser “estranho” que os outros vêem e você não conhece?
Quem afinal voce conhece?
Quem se esconde, se mostrando aos outros?
Quem se esconde tornando-se visível?

(8/ago/2010)
















2 comentários:

Fernando Munhoz disse...

Lindíssimo texto!

Luck® disse...

Gostei da auto(?)biografia... Acho que é biografia de muitos, de milhares, talvez.

Hoje, mais maduro, eu penso que o problema não é rever as dúvidas/ incertezas acumuladas e se descobrir diferente por si ou através dos olhos dos outros...

De fato não é isso que atrapalha no "processo". O que atrapalha é que a gente também é adestrado a querer ser como os outros. O fato é que nem um "outro" é igual a outro "outro" (lamento pela redação repetitiva). Se soubéssemos desde a primeira tentativa que a saída (única possível, se optarmos pela/ enxergarmos a verdade) é crescer querendo ser diferente, porque diferente somos todos.

O segundo imbróglio é incutir na mente daqueles que se julgam "identicamente normais" que não há: 1. identicamente e 2. anormalidade (para quase 100% dos casos que assim julgamos).