segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A FLOR DA SEMIÓTICA


 A FLOR DA SEMIÓTICA

Pode-se imaginar que uma flor seja a metáfora perfeita para a arte incluindo ai a semiótica. Antes de ser uma flor era um frágil botão floral com sépalas verdes que protegem o que esta no interior à espera, como uma possibilidade. Então com o passar do tempo as seplas se abrem expondo o colorido e o esplendor das pétalas ainda em botão. As pétalas têm muitas funções uma delas é a proteção das partes internas da flor: as anteras que produzem o pólen e o ovário que produz o óvulo. Além disso, as pétalas, por seu colorido atraem borboletas e abelhas, os insetos polinizadores que levam o grão de pólen de flor em flor, possibilitando a produção do fruto, portador da semente.
As flores sempre estiveram presentes na cultura e na arte, pode-se citar como exemplo o acanto, que na Grécia clássica foram incorporadas aos capitéis das colunatas adornado-as de uma aura de beleza sui generis,  e as rosas na antiga Assíria.
Todavia, indiferentes a todos os simbolismos humanos as flores continuam florescendo todos os dias em inúmeros jardins...
Flores simbolizam o amor, e foram presentes trocados quando nossos pais se conheceram e nós éramos apenas uma possibilidade futura. A elas damos a possibilidade de responder se o nosso amor nos ama ou não como no caso dos bem-me-quer-mal-me- queres. Elas também nos acompanham quando deixamos esse mundo, e ao fecharmos nossos olhos para sempre é com elas que nossos amigos nos homenageiam em nossa última morada.
Na arte as flores são onipresentes, veja-se o lírio, por exemplo, que é o símbolo da pureza como na obra de Leonardo, onde o anjo carrega no braço esquerdo um ramo de lírios brancos, e com ele saúda a vida que esta sendo gestada no seio de Maria, o símbolo do natal: o nascimento. E na virgem lita, Leonardo faz Maria segurar um cravo vermelho símbolo da paixão futura do menino.
Não se pode fugir da presença das flores. Elas estão abstratamente até nos mapas para condizir nossos passos; como na rosa dos ventos que está sempre a indicar a direção norte, acompanhando-nos ao longo dos caminhos e nas caminhadas durante nossa vida. 
Uma obra de arte também pode conduzir nosso entendimento é um norte um mapa qeu precisa ser decifrado... ela esta ali como o seio nu na praia para o senhor Palomar de Italo Calvino...
Elas também são metáforas para a maternidade de Maria como nas rosáceas centrais das antigas catedrais medievais.
Invoco a flor como metáfora para a arte, pois nas flores, o que esta no interior do botão, é mais importante do que a aparência externa, visível, retiniana. 
O que está escondido nos faz esperar da mesma maneira e do mesmo modo como Greimas, semioticista Lituano de origem Russa, se esforçou por mostrar em seu texto fundador sobre a semiótica do texto. É uma metáfora para estética evanescente.
Do mesmo modo que a flor não é um objeto estético feito pelo homem, mas um aparecer no mundo, e por isso revestido de uma beleza inefável a obra tambem pode ser comparada a um aparecer no mundo mas no mundo da cultura. A obra de arte é o objeto estético que nos interroga que virá a ser para quem o contempla, fonte de interrogação de estranhamento e inquietação...
As obras são o produto de um pensamento, de um discurso que se espraia no texto. E o texto de um discurso se abre em inúmeras pétalas, quando, ao ser lido é enriquecido pelo leitor com seu entendimento.
É uma flor de maravilha. Assim como o discurso, o texto e uma obra, devem sempre questionar, deixar algo a ser pensado, deixar algo para o tempo.
Devem ambos nos fazer pensar e considerar o que é isto que me olha enquanto eu o admiro e me questiono? É a flor que desabrocha em inúmeras pétalas. É a obra que se revela em muitas camadas de significado, significantes.
Suas pétalas se abrem revelando suas cores, sua forma e seu mais precioso conteúdo... Elas chamam à atenção, refletem a luz visível e invisível...
As flores até podem ser chamadas de objetos estéticos clássicos, mas são um fenômeno da natureza e não um objeto artificial, pregnante de ideias, de significados, não são obras de arte.
As obras de arte são obras da mente humana e florescem na bienal o seu “jardim das delicias” (de Bosh).
Eram botões na mente do artista agora são flores e botões para nós que esperamos desabrochem em sentido, que mostrem um mundo, como as pétalas que ao se desdobrar mostram o significado e o sentido da flor.
Essas flores devem ser consideradas com ênfase... “pois uma flor nasceu na rua!” (Carlos Drumond de Andrade)...
As obras brotam em todo lugar, mas é preciso uma mente de artista para apanhá-las e mostrá-las...  
Pergunte a qualquer pessoa o nome de uma flor e provavelmente a flor que virá à lembrança será a rosa. 

 É a rainha das flores e uma das primeiras flores cultivadas pelo homem, há registros dessas flores há pelo menos cinco mil anos na mesopotâmia.
Mas a rosa não é somente forma, é conteúdo. Ela exala sua essência no ar. Não se necessita avistá-la para inferir sua presença desabrochada.
E até mesmo suas pétalas podem servir de alimento, um banquete de cores, aromas e sabores. O néctar destilado de suas pétalas, produzido no recesso de um claustro para o deleite das afáveis borboletas... almas que vagam nas linhas dos poemas...
As flores produzem o néctar de onde as ocupadas abelhas o retiram para fazer o mel. E o mel, que por suas atividades bacteriostáticas, pode durar milhares de anos, foi encontrado na tumba de Tutankamon ainda fresco.
O melikraton dos deuses gregos, o hidromel dos romanos, celtas e saxões... o mel constitui-se basicamente de glicose, do grego: o doce das flores, o gosto das flores.
Pode-se por analogia também comparar esse sagrado alimento ao prato principal, a essência do nosso fazer enquanto artistas, a um banquete onde a arte é servida em porções generosas... Come-se as obras com os olhos...
A salada de pétalas, as obras que falam da sociedade, da periferia, dos medos e do humano. Não são as pétalas periféricas e, no entanto centrais para a proteção do que esta dentro no interior da flor? Assim são as obras, elas falam da periferia e são centrais para o entendimento do mundo e do homem. São geniais como genial é sua luz com a qual se ilumina o entendimento ao contemplá-las.
Pois como diz o poeta: tudo depende da hora, tudo depende de embora... pois o que importa não é a viajem mas o começo da...
E o discurso delas é uma viajem, onde a viajem esteja no texto... o ser do texto é uma obra que é uma viajem....
Uma viajem onde se interroga a arte (a própria viajem) e interrogar a arte é interrogar-se a si mesmo...
O que sou eu que vivo contemporaneamente?
Que significado tem tudo isso? Qual a função do que chamamos vida ou arte?
Arte e vida, o mesmo em si mesmo.
É a flor que ao permitir que o grão de pólen chegue ao estigma e deste ao ovário fecundando o óvulo possibilita a formação do fruto e no interior deste a semente.
Agora a flor não é mais. A experiência estética é irrepetível, possui uma duração, espera-se outra num próximo momento.
E ao cair da última pétala, ficou a esperança de muitas outras flores no interior do embrião da semente que desabrocharão nas primaveras futuras. Pois mesmo na Arcádia existe a morte. Mas sobra sempre a esperança dentro da caixa...
E termina aqui a saga de uma flor que foi botão, desabrochou, tornou-se fruto e produziu sementes. Ut rosa flos florum, sic est domus ista domorum: assim como a rosa é a flor das flores, esta é a casa das casas... ou melhor dizendo assim como a rosa é a flor das flores, a arte contemporânea é  a Arte das artes.

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