quinta-feira, 26 de maio de 2011

CONVITE À ESTÉTICA - O CÔMICO


UNIVERSIDADE FEDERAL DO 
RIO GRANDE DO SUL
INSTITUTO DE ARTES VISUAIS
FILOSOFIA DA ARTE
ESTÉTICA

 CONVITE À ESTÉTICA
O CÔMICO 



1. O CÔMICO NA VIDA REAL

O cômico é facilmente identificado em nosso dia-a-dia seja na:  comicidade de um gesto, de um aceno, em uma situação ou uma confusão de idéias ou palavras.
É identificado pela situação prazerosa e pelo riso que provoca.

Segundo o autor, o efeito cômico surge de algo que se espera intensamente que se resume em um exagero, uma expectativa frustrada pela brusca irrupção do inesperado ou também uma contradição entre o grande esperado e o que por ser ínfimo não se espera. (Vázquez, 1999).
Assim, no fundo do cômico se mostra uma contradição um conflito entre o real (que da a si próprio um valor supremo) e o valor que esse real tem (que sempre é menor do que apregoa).

O cômico também desvaloriza algo a que se dá um grande valor: o miado forte e estridente de um gato em meio a uma cerimônia oficial desvaloriza a solenidade do ato. Ora, na base do cômico se acha essa contradição que expõe a verdadeira dimensão de algo, i.e., entre o que algo vale realmente e o que pretende valer. Desse modo, o que parecia profundo se mostra superficial; o nobre vulgar; o rico, pobre; o pleno, vazio; o elevado, mesquinho.
EM SUMA O QUE FUNDA A COMICIDADE É A PRETENSÃO DE VALOR, NÃO O VALOR REAL. DESTE MODO, NA BASE DO CÔMICO ESTA UM EMPENHO DE DESVALORIZAÇÃO. E essa desvalorização do real ou do pretensamente real é um fenômeno social.
“Chaplin disse certa vez que um pobre nunca ri dos apuros ou desgraças de outro; mas que em troca, não esconde o riso quando vê o rico em uma situação complicada. Uma pessoa mal vestida pode fazer rir em um meio social e não em outro; se estar mal vestido revela falta de gosto ou vaidade, isso pode ter resultado cômico; se o traje fora de moda ou espalhafatoso é conseqüência da miséria em que vive aquele que o exibe, já não suscita riso, mas sim compaixão e até mesmo protestos”. (Vázquez p.271).
Desta forma, o cômico se reveste de um papel crítico, ou seja, critica a sociedade vigente ou dominante (esta por sua vez baseada na seriedade e em seu pretenso valor).


2. O CÔMICO NA ARTE

1) O cômico na arte requer uma representação realista do real, representação que deforma a realidade para produzir o efeito cômico
Rococó - idealiza a realidade
Arte abstrata - desaparecimento da realidade

2) Comicidade imaginada, inventada ou criada - não suscita o riso

3) O efeito do cômico na arte vem sempre acompanhado do prazer estético que produz o objeto (que suscita esse efeito) ao ser contemplado. A Linha que separa o estético e o não estético (na vida real e na arte) passa pelo papel da contemplação do objeto ou acontecimento e da natureza que o efeito provoca.


3. VARIANTES DO CÔMICO

De acordo com a caracterização do cômico (como uma contradição um conflito) vemos que as diferenças substanciais entre suas manifestações diversas mantém certa unidade e ocasionalmente se entrelaçam.
Isto se deve à maior ou menor profundidade da contradição que está nas próprias entranhas do cômico;
À maior ou menor radicalidade de sua desvalorização do fenômeno em questão e, em consequência, à maior ou menor dureza da crítica que provoca ou da intensidade, mais alta ou mais baixa do riso que suscita. 
  


O HUMOR

Ex.: Cervantes - Don Quixote

Desvalorização do real (uma forma de crítica);
Chamada de atenção pela inconsistência interna do objeto;
Ao marcar assim sua distância em relação à realidade, o quixotismo é colocado em questão, mas isso não significa que nada dele vá restar de pé.
Ao mesmo tempo em que o objeto é apresentado desvalorizado, e sem consistência, isso não faz o objeto desaparecer; sua atração ou simpática não desaparece para nós.
O objeto é apresentado de tal modo que algo dele sobra, e esse algo é o que compartilhamos.
O humorista nos convida a nos desdobrarmos a desvalorizar e valorizar, a criticar e tolerar, ao distanciamento e ao compadecimento. Desta forma rimos como cúmplices não para destruir (porque mesmo sabendo que os ideais de fidalguia sejam incompatíveis com os tempos modernos somos cúmplices de sua generosidade e combatividade).
O humor, como o cômico em geral, é crítica compreensiva e compassiva. Uma crítica que ao mesmo tempo em que desvaloriza e afunda o que se apresenta tão elevado, abre os braços para que esse afundamento não seja total.


A SÁTIRA

Quando o objeto ou fenômeno revela sua inconsistência ou nulidade até o ponto de deixar que se perca toda a simpatia ou atração por ele, e o riso que provoca não esta tingido de ternura, porém bem mais por indignação ou ira, estamos no âmbito da sátira.
Desvalorização radical do objeto levando a conclusão de que não pode subsistir; nosso riso é um voto por sua aniquilação.
Objetos de sátira:
Despotismo
Corrupção moral, social ou política
Vícios públicos ou privados de todo tipo
A prepotência
A burocracia... etc.

Na sátira a crítica é demolidora (pois o objeto não só revela sua inconsistência, mas sua negatividade) por isso quer-se que seja destruído. Crítica que traz entranhada uma condenação promove a repulsa a antipatia e a desaprovação.


A IRONIA

Como todo cômico revela a inconsistência de um fenômeno e é uma forma de crítica.
A ironia é uma crítica oculta que é preciso ler nas entrelinhas, e quanto mais oculta mais sutil e talvez mais profunda.
O vício aparece como tal (como o vício que é) ao apresentar-se como virtude; a mediocridade se revela exatamente quando o medíocre pretende comportar-se como gênio. O elogio irônico, longe de enaltecer, rebaixa.
Na ironia a critica permanece oculta por trás da exaltação do elogia ou da felicitação. Diz mais do que diz ou diz menos do que pensa. Ou então faz um rodeio para afirmar o que no fundo nega.

 FONTE

VÁZQUEZ, A. S. (1997). UM CONVITE A ESTÉTICA. Civilização Brasileira





















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