quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O GESTO E A ESSÊNCIA




Certa vez lendo sobre borboletas tive a ideia de capturar com uma redinha uma grande amostra de borboletas em cada uma das estações do ano. A borboleta em questão chamava-se “fogo-no-ar” ou “labareda”.
Então, na primavera iniciei a captura das borboletinhas. Pegava cada uma delas e gentilmente escrevia o número respectivo em suas frágeis asinhas, media-as com muito cuidado e soltava-a. Elas saiam desesperadas sem saber o que havia acontecido. Mas logo paravam em alguma flor para se alimentar e para se acalmar do susto que haviam passado. Sim, imagina você, ser capturado por uma rede, manipulado e marcado (mesmo que gentilmente) com uma caneta nas asas, medido com um paquímetro e depois libertado... deve ser traumático do ponto de vista de um pequeno e indefeso inseto. Era uma grande ideia, e isso me permitiu saber como o tamanho de seu frágil corpinho era influenciado pelo clima... E isso foi extremamente importante para entender a alteridade de outro ser que não é da minha espécie, mas que passa por necessidades e privações da mesma forma que eu, e se duvidarmos deve ter os mesmos desejos e sonhos. Para mim as borboletas adquiriram um significado especial... elas representam em seus corpos a maca da   transformação. Minha ideia anterior mudou totalmente, de animais que pertencem a um grupo de organismos geralmente relacionados a sujeira (os insetos) passou a ser para mim um grupo que significava mudança e liberdade.
Outra vez caminhando pela calçada, ali na Cidade Baixa, encontrei na rua uma revista com uma figura de uma borboleta na capa. Agachei-me e peguei aquela revista. Ao abri-la me deparei com um monte de textos e fotos de pessoas seminuas em meio a natureza. A paisagem estava ali somente de pano de fundo... O que era importante era vender a ideia de um corpo lindo, magro, sarado, feliz e rico. Tive a feliz idéia de apagar todas as imagens daquela revista. Ao mesmo tempo em que as imagens desapareciam, pelo meu ato de apagamento de uma visão pré-estabelecida, fui construindo alternativas formas com a própria tinta da impressão da referida revista. Da desconstrução de uma ideia construí outra ideia, pelo gesto simples de apagar, que por sua vez podia ser desconstruída ou reconstruída conduzindo a uma nova reflexão sobre o mundo ao redor.
Ora, em ambas as ideias a forma era diferente, todavia o conteúdo era o mesmo, ou seja, a transformação. Essas ideias que me vieram à mente mudaram a minha maneira de ver o mundo. Passei a perceber como estamos cheios de pensamentos preconcebidos e não damos valor ao que é mais importante, pois estamos sempre tentando nos adaptar ao que nos é imposto seja pela mídia (meios de comunicação) e pela sociedade. Há um mundo muito interessante quando nos dispomos a ver e a pensar sobre o que vemos. Literalmente só temos de achar uma borboleta para retirar o véu que cobre os nossos olhos ou encontrar uma revista que nos abra os olhos, e para a qual estejamos de olhos abertos, para que possamos ver.

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