quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

HOMENS LIVRES


Homens-livros, homens livres.

     Difícil saber se somos livres por lermos ou se lemos por que somos livres. A liberdade esta indissociavelmente ligada, penso eu à leitura. Ser capaz de interpretar um número limitado de caracteres gráficos, as letras, agrupadas em um número infinito de palavras, ideias, conceitos me é particularmente maravilhoso. Me espanto com essa simples constatação.
   Devemos antes de tudo agradecer aos nossos professores que pacientemente nos ensinaram a escrever as primeiras letras, e nos ensinaram os significados daquelas simples palavras iniciais. Eu não os esqueci jamais, seu amor para comigo, sua preocupação para com o meu aprendizado. Eu reconheço eu era um mau aluno...
     Todos nós iniciamos da mesma maneira, aprendendo as mesmas coisas em uma cartilha. Iniciamos lendo expressões como “O dado é do Didi, Didi deu o dado para Dudu”. Como então passamos dessas singelas expressões primevas para todas as filosofias e matemáticas, postulados e teorias? Essa cartilha ampliou nossa liberdade por ensinar um modo novo de ler o mundo um novo modo de interpretar o universo, e todos os livros do mundo se tornaram fáceis, e todos os pensamentos de todos os pensadores do mundo se tornaram acessíveis à mente inquieta. De certa maneira essas primeiras letrinhas foram uma fagulha na lenha seca... que gerou uma fogueira a iluminar a noite. Elas também podem ser comparadas ao brilho tremeluzente de estrelas distantes, apenas perceptíveis, mas que portam em si, parte da história do universo.
     Mais uma vez, conduzido por hábeis mãos de um guia, vi o filme de Françoise Truffaut intitulado: Fahrenheit 451. O filme relata uma história que passa num futuro distópico, onde os livros e toda forma de escrita são proibidos por um regime totalitário. Esse regime alega que a leitura faz as pessoas infelizes e improdutivas, e assim a solução que encontraram foi a de queimar os livros pelo bem da humanidade. Gostaria aqui de analisar três dos personagens dessa história: Montag (o protagonista), o Capitão Beatty (o chefe dos bombeiros) e os Exilados (um grupo de rebeldes intelectuais que memorizam livros).
     Ao longo da história, Montag passa por uma metamorfose em sua vida que parece ser dolorosa, ao conhecer Clarisse, uma vizinha, que apresenta uma estranha semelhança física com sua mulher. Clarisse (o nome já diz tudo: tem o pensamento claro, da luz) que não pergunta como se fazem as coisas, mas porque as coisas são feitas, porque são assim e não de outra forma. Clarisse com seu livre-pensamento e espírito questionador, desequilibra Montag que começa a questionar sua vida, seus ideais e sua noção de felicidade em sociedade, a ponto de se tornar fora da lei, pegando os livros, escondendo-os, e lendo-os a noite, livros que a ele fora ensinado destruir. Por fim é aceito no grupo de intelectuais, que memorizam livros em uma comunidade marginal , exilada extramuros da sociedade. Montag é bombeiro e trabalha para a manutenção do status quo da sociedade onde se encontra, sem questionar nenhuma de suas regras ou leis. Nesse tempo e nessa estranha sociedade, em vez de apagar incêndios ele os provoca para queimar os livros e as casas onde são encontrados.
Um outro grupo de personagens são os exilados. São um grupo de pessoas que lêem, e por isso vivem fora-da-lei; são os intelectuais ou livres pensadores, exilados da sociedade, que tentam preservar os livros que leram, memorizando-os. Enquanto o Capitão Beatty (o chefe dos bombeiros) destrói livros, eles os preservam em suas memórias, para um futuro onde não haveria mais proibições; enquanto o capitão usa o fogo para destruir livros, os exilados usam o fogo como fonte de luz e calor para ler e memorizar os livros, tornando-os presentes em sua ausência física como objeto.
A função do capitão Beatty é de manter o status quo da sociedade, portanto uma sociedade do esquecimento, enquanto que a função dos exilados é a de zelar pela memorização de livros, para que um dia a sociedade mude e volte a ter liberdade de escolha. Sua função é como a das musas que tem a tarefa de preservar na memória, ao recitar as palavras contidas nos livros. São des-velações, pois elas retiram os seres e os fatos do reino noturno, do oblívio (i.e., do não-ser) do esquecimento e fundam-nos como manifestação e presença (Torrano, 1995). Esse dizer é tarefa das musas, que ditam palavras para os poetas. Estes as proferem tornandoas reais, vivas, memoráveis.
Já no livro O nome da rosa, de Umberto Eco, a história se passa em uma abadia situada nos Alpes da Europa medieval, onde o monge  franciscano William de Baskerville e seu pupilo, o noviço Adso de Melk se deparam com estranhos e terríveis acontecimentos onde alguns monges são assassinados.
Nesses episódios onde a maioria quer ver a ação do demônio William de Baskerville vê a assinatura de um assassino humano, portanto natural.
As causas dos crimes estavam ligadas a manutenção de uma biblioteca secreta que possui obras tidas como heréticas e que desafiam a interpretação oficial do cânone professado pela igreja romana. Nesse romance, Umberto Eco relembra a problemática suscitada pelo nominalismo entre o que é essencial, que parece ser o nome da rosa como nome, em si um conceito, portanto um universal e de sua contraparte a rosa particular, individual no mundo, que por acontecer como um fenômeno biológico, também é passageira, mortal e transitória.
No final da história o monge franciscano consegue salvar alguns preciosos livros de filósofos como Aristóteles, Mauro entre outros, bem como obras de sábios e copistas árabes sobre medicina, astronomia e poética da biblioteca que é tomada pelo fogo ateada por um frade dominicano, fundamentalista, radical e cego, o Venerável George, que segue piamente os dogmas da igreja, interpretando literalmente a Bíblia.
A pergunta que me faço é que livro eu salvaria da destruição? Sem dúvidas, tendo lido muitas obras, de inúmeros autores e de variados campos do conhecimento, é difícil escolher uma obra entre tantas, para salvar da destruição, pois agindo assim quer me parecer que estaria deixando todas as demais fadadas à destruição. Mas como tenho que escolher uma em particular, dou a essa minha escolha um caráter universal (nela eu salvo todas as obras).
A obra que escolho é uma obra de Roland Barthes intitulada: A câmara clara – nota sobre fotografia, onde ele faz uma reflexão sobre a fotografia expressa já como subtitulo do livro. Ao lado de argumentações lógico-filosóficas sobre a fotografia ele tece uma longa reflexão sobre a vida e a morte.
Para ele o que é captado, fotografado pelo operador (fotógrafo) é o spectrum, e nós todos que olhamos as fotos em álbuns ou em propagandas e comerciais, os Spectators (expectadores). Nessa obra eu salvo um grãozinho do conhecimento de Barthes, salvando assim parte da minha argumentação e do meu conhecimento sobre fotografia.



NOTAS E BIBLIOGRAFIA


1.http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=2145474919332446577&postID=8839283939941159984


Eco, Umberto. O nome da rosa. Rio de Janeiro, RJ. Ed. Nova Fronteira, 1983.

Barthes. R. A câmara clara – nota sobre fotografia. Rio de Janeiro,2000.


Torrano, Jaa. Teogonia, a origem dos deuses. São Paulo, S.P. Ed. Iluminuras,




Glossário

Distópico: o contrario de utópico. (do grego: ου = não + τόπος (topos)= lugar, o "não-lugar, lugar que não existe. Dis= mau + tópos lugar. Lugar mau, do grego δυσ + tópos = lugar mau, anormal, estranho.

Status quo (da expressão in statu quo res erant ante bellum) =
No estado das coisas como eram antes da guerra.
Expressão latina, hoje tomada com designando o estado atual das coisas.

2 comentários:

Crônica Mal.dita disse...

Olá.
Eu sigo o teu blog através da minha antiga página "Diario de Bordo do Fer". Gostaria que vc seguisse meu novo blog porque o que citei anteriormente vai ser desativado.
Meu novo blog está no endereço:
http://cronicamaldita.blogspot.com
Aguardo sua presença. Um abração.

DIÁRIO2010 disse...

Muito legal o seu texto, porém te instigo: você acha que a capacidade de leitura e interpretação é suficiente para dar liberdade a existência humana?