segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A BELEZA DAS CICATRIZES

A beleza das cicatrizes


Certo dia ao chegar na universidade para aula, todos aparentavam preocupados. E logo soube que uma colega havia sofrido um acidente. Havia queimado parte de seu corpo trabalhando em suas esculturas.
Logo imaginei que ela tivesse grande parte do corpo queimado. E quando ela  chegou na sala de aula pareceu-me realmente toda queimada.
A professora pediu-lhe que lesse um longo texto de um livro-obra de Vera Chaves Barcellos.
Ela primeiramente sentou-se à junto a mesa, de frente para a turma e tomou o livro com muita dificuldade.
E sua leitura era dolorida.
E iniciou a leitura como uma súplica:
Eu
Eu estou
Eu estou aqui
Eu estou aqui presente
Eu estou aqui presente olhando...
 Eu estou aqui agora. ...
Ela agarrava aquelas folhas encadernadas em epiral, como se as páginas pesassem toneladas. E o folhar das páginas daquele livro de capa cinza, espiras grossas, negras era muito difícil.  Parecia que até sua voz estava queimada. Teria ela engolido metal derretido e o som de suas cordas vocais ficado graves e doidas?
Na mesa havia vários livros com capas de cores diferentes e chamativas. Mas ela lia um livro com uma capa pouco interessante de cor cinza e espiras pretas.
Sentada em uma cadeira em frente à mesa para não se cansar. Suas mãos totalmente enfaixadas se moviam lentamente como uma aranha na teia.
Pareceu-me que o tempo havia parado exatamente naquele momento; e uma fenda se abriu separando o presente do resto do tempo; como uma fenda ou falha geológica nos separando do tempo atual, lá fora.
Esse mesmo tempo impunha-lhe um castigo.
Conseguiria ela chegar ao fim daquela interminável leitura?
La fora havia sol. E a professora parecia feliz com seu vestido totalmente florido contrastando com a cor cinza da capa do livro, de espirais negras e largas e folhas difíceis de folhear e a monótona leitura que nunca terminava.
Como teria dito algum contador de historias inglês essa história parece triste mas a beleza também se esconde em palavras tristes. Pois esse fato mesmo sendo dolorido e deixando cicatrizes significa vida.