quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O HOMEM QUE VIROU UM LIVRO

O homem que virou um livro

Todos sabem o quanto vale uma boa leitura, mas para aquele homem a leitura era tudo na vida. Lia para viver e vivia para ler.
Tinha tudo. Era amado por todas as mulheres, desde a mais estonteantemente linda até aquela na qual não se podia identificar qualquer traço de beleza ou se tal traço existisse seria interior ou não existia de forma alguma. Fazia sexo com quem quisesse. Todos o desejavam e se entregavam a ele como que mesmerizados pelo seu profundo e penetrante olhar. Possuía dinheiro em vários paraísos fiscais pelo mundo, um castelo na região dos vinhedos na França e uma vila na região do golfo de Catânia no sul da Sicília; e a mais pura felicidade como aquela de olhar uma flor do campo banhada pelo sol da manhã em sua inefável existência.
Sim, possuía tudo lendo em seu livros as mais repugnantes histórias fictícias e reais casos obscuros de estupros de jovens indefesas à passeios inocentes de idosas vovós em tardes ensolaradas no parque.
Sua leitura abrangia de física nuclear a charge de jornais de romance policial a plantão de polícia.
Certa noite acordou suando. Um pesadelo ele teve. Sonhou que era um livro canibal, comia seres humanos, defecava flores e perfume do mais puro olíbano, e sussurrava gemidos de orgasmos. Em outro pesadelo ele fora de um livro de encantamentos e maldições, transformava humanos em idiotas, rebanhos de ovelhinhas para o sacrifício nas mãos de um bibliotecário cruel, desprezível e prepotente. Numa outra ocasião sonhara que era um livro que ensinava a fazer bombas. Um verdadeiro livro-bomba, que se auto-destruia ao destruir pessoas desavisadas em lanchonetes e templos pelo mundo.
Teve um calafrio. Os pesadelos tornaram-se rotina em suas noites. Sentia-se um livro de verdade, mesmo estando acordado.
Numa certa manhã ao acordar de mais um de seus obscuros pesadelos, já terrivelmente preocupado, procurou um psicanalista, na esperança que existisse algum tratamento para seus repetidos pesadelos. Percorreu diversos terapeutas e nenhum apresentava solução ao seu terrível problema. No entanto um dos melhores psicanalistas lacanianos prescreveu-lhe uma parada eterna de leitura. O homem negou tal coisa. Não iria aguentar. Sua vida era feita de palavras das paginas dos livros, dos tomos e volumes de tratados e ensaios...
No fim ele transformou-se em um livro de adivinhações quando leu "O porque das almas". Sua esposa jogou-lhe no lixo com o pensamento voltado para as notas baixas do boletim de seu filho mais velho. Moral da história: nunca confie demais em um livro, ele pode ser simplesmente uma má pessoa transformada. (ACP&CCSA)

Um comentário:

CLICKER disse...

Oieee!

Li esse relato e não pude me conter. Adorei a comparação no final da história e até fiquei meio assustado, pois eu leio muito,hehehe.
Realmente muito bom o texto. Se tiver mais desses escondidinhos por ae, por favor hein, coloque para nós leitores.
Abraços