segunda-feira, 11 de outubro de 2010

ARTE DE FAZER P(ARTE)

ARTE DE FAZER ARTE


O artista ao refletir sobre o mundo e a realidade surpreende-os em seu momento mais ordinário. Nesse ato, o momento ordinário se transfigura em um momento áureo. Nesse momento, tanto para o artista quanto para o expectador-recebedor que da um significado ao que vê, abre-se uma clareira por onde jorra luz na escuridão da mixórdia de assuntos cotidianos e corriqueiros. A deusa Artemis, a deusa da luz (Άρτεμις φωσφορος), irmã de Apolo chega com tochas em suas mãos. A essência da luz é a claridade, sem a qual nada aparece, sem a qual nada pode sair do encobrimento para o desencobrimento*. A arte também chega com tochas. Sua essência é o pensamento, o conceito, sem o qual não pode haver lugar o sentenças nem juízos.
A partir dessa reflexão o artista constrói uma lógica e consegue surpreender a “realidade” tornando-a inteligível, clara e apreensível aos outros.
Dizer que a arte é pouco inteligível advêm do fato de que sendo a arte uma linguagem, esta deve ser aprendida antes. Ninguém tem a pretensão de que ao viajar para um pais distante, ao chegarmos conseguiremos entender tudo o que se fala, ou se pratica em tal cultura. Primeiro é necessário aprender o idioma, a lingua desse país para que consigamos entender sua cultura. Com a arte se da o mesmo.
A arte é um conhecimento (ἐπιστήμη) não verbal do mundo (um mundo ou uma realidade filtrados pelo olho-cérebro do artista), o qual ao apresentar sua reflexão o faz em uma forma processual, i.e., mostra o que ele alcançou (τέχνη) ao refletir, pensar sobre um determinado assunto.
A arte é então para mim a síntese dialética entre o conhecimento de fazer algo (techne: τέχνη) e o conhecimento filosófico a priori desse mesmo assunto (epistême: ἐπιστήμη).
Como conhecimento construído sobre uma determinada realidade em um determinado tempo e espaço, a arte cumpre uma função primordial e epistêmica: ela é libertadora na medida em que lança luz sobre o que estava obscuro no expectador.
É por isso uma linguagem que produz sentenças que ao serem compreendidas libertam a mente da servidão de idéias preconcebidas. Instruindo a mente através de uma não-sentença, promove a reflexão diminuindo a ignorância na sociedade.

Notas:
* Heidegger, Martin. Heráclito – a origem do pensamento ocidental. Rio de Janeiro, Relume Dumará. 2002.

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