segunda-feira, 11 de outubro de 2010

DIÁLOGOS: 
I. Raphael
ou: Da cura da ignorância pelo correto ato de raciocinar.


Tudo aconteceu por volta das vésperas (perto das 17h até o por do sol), quando voltava de uma visita a uma galeria de arte e onde encontro um companheiro de caminhada no caminho de volta para casa.
(Raphael: do Grego: Ραφαήλ, Raphael. Anjo (arcanjo) enviado por Deus para curar em seu Nome, Rafael significa "Deus cura" em hebraico (a palavra correspondente a médico é Rophe em hebraico).
Perifocus (Peri + focus) ou Eiko (eikonen) ou Isfós (Eis fáos) ou Eu.
- Voltava eu há pouco da galeria de arte do DMAE quando um conhecido atrás de mim avistou-me de longe e me chamou, exclamando em tom de brincadeira: Ei, artista, por que não me esperas? Parei e esperei.
Raphael
- Olá, que fazes por estas bandas, já que moras no Bom fim?
Perifocus
Estou voltando de um colóquio no DMAE com artistas que estão expondo seus trabalhos la; e voce, o que faz por aqui? Não me diz que vem do mesmo local?
Raphael
- Não venho de la, mas seria muito bom acompanhar-te, e assim poderemos conversar um pouco. Diga-me, sobre que versa esta exposição de arte, eu conheço algum artista que expõe na Galeria do DMAE?
Perifocus
- Bom, sobre o que me pergunta estou bem embasado para falar-te. Trata-se de uma exposição intitulada “Alteridades habituais”, e mostra trabalho de um coletivo de artistas aqui de Porto Alegre, do meu curso la na UFRGS. São obras que abrangem desde desenho ate vídeo e objetos. Diria que apresentam um viés conceitual e contemporâneo, todavia simples, uma vez que se trata de artistas em formação e neófitos, portanto (penso eu). Contudo não saberia se você os conhece, pois são jovens e pouco conhecidos.
Raphael
- Muito interessante. Mas o que, especificamente, quer dizer o título “alteridades habituais? Voce leu algo sobre, ou sabe de alguma coisa a esse respeito? Poderia me esclarecer, pois não saberia dizer o que seja alteridade e muito menos ligado ao vocábulo “habitual”, soa-me um tanto enigmático.
Perifocus
- Hum, deixe-me iniciar do principio então, definindo a palavra alteridade e daí seguiremos discutindo sobre a exposição. A palavra alteridade vem do latim: alter, nome masculino, portanto substantivo, e significa 1. outro ser ou outra pessoa em relação a determinado indivíduo; aquilo ou aquele que é percebido ou concebido como uma pessoa ou um ser distinto e separado do sujeito, daquele que pensa, sente e age. 2. é também para a antropologia, qualquer indivíduo considerado como objeto de um sistema de classificação de relações interpessoais, em particular de uma terminologia de parentesco. Qualidade do que é outro, segundo filósofos.
Poderíamos dizer também que “o outro”, representado pela idéia que eu tenho de uma pessoa em particular (indivíduo) é ampliado do singular para o geral e tornando-se conceito, a manifestação de uma ideia universal.
Claro que, como você já pode perceber, alter está em oposição a idio, que vem do grego, idiotés que significa homem privado em oposição a homem de Estado. Atualmente idiota significa alguém ignorante em algum ofício, ou pouco inteligente, ignorante um imbecil.
Raphael
- Entendi. E porque será que quem bolou o título da exposição escolheu alteridades habituais? Você tem algum comentário a fazer sobre isso?
Perifocus
- Não sei, mas poderia tentar lançar alguma luz sobre esse título com sua ajuda é claro. E então seguiremos esse caminho e ver onde vai dar. Já que vamos na mesma direção, literalmente.
Raphael
- Sim, sim podemos tentar. Todavia já vou dizendo que chegaremos juntos, pois estamos no mesmo caminho... (risos)
Podemos tentar seguir por alguma via lógica, sim, como bem sei que era a esse o significado do “caminho” a que você se referia...
Perifocus
- Então, acredito que o curador juntou os artistas não por uma afinidade eletiva, quanto a clareza do conceito que a obra de cada um apresentava, até onde sei, os artistas enumeraram palavras com as quais tinham afinidades, não que essas palavras fossem as quais eles buscavam esclarecer com seus trabalhos.
Raphael
- Sim, posso compreender esse argumento. Mas o curador pode muito bem ter visto a beleza delas juntos como a beleza do cosmo que não somente é belo devido a multiplicidade na variedade, bem como o é pela variedade na unidade. Contudo eu ainda não entendi uma parte. Sobre o que tratavam as obras?
Perifocus
-Poderia eu descrever as obras como fez Filostrato o velho em seu tratado sobre as imagens (Eikones) ou sua descriptio (ekphrasis) dos 65 quadros que decoravam uma galeria em Nápoles; mas não o farei. Você mesmo deve ir até la e encará-las... “o que vemos só vale, só vive, em nossos olhos pelo que nos olha!”1 Para alcançar o teu pensamento deve o visível passar através dos teus olhos. Todavia posso dizer que eram mais sobre o processo de cada um, ou mais precisamente em que “lugar” cada um parou, pelo que pude perceber.
Há aqui uma via a seguir, vamos explorá-la um pouco mais.
Ora, para ver algo, como bem intuiu Didi-huberman, devemos fechar os olhos “quando o ato de ver nos remete, nos abre a um vazio e em certo sentido nos constitui”.1 Se nos constitui, nos torna outro, aos olhos do que nos vê. Dissolvemos nossa identidade quando percebemo-nos também olhados pelos misteriosos olhos do vazio. Assim, por um caminho lógico o curador juntou as alteridades (os outros) com os quais ele convivia conhecia bem.
Raphael
- Pelo menos para mim, parece que foi isso mesmo. Mas também podemos pensar que quando ele nomeia o outro ele diz mais sobre si mesmo do que sobre o outro. Você não concorda com essa afirmação?
Perifocus
- Concordo. Quando qualificamos o outro é sobre nós mesmos ou sobre um aspecto de nosso ser que estamos dirigindo o olhar. Nosso vazio que nos encara e nossos medos que se projetam e nos assaltam. Mas também ninguém constrói um mundo de significações e sentidos a partir do nada, pois ingressamos num mundo pré-fabricado em que certas coisas são importantes e outras não são; em que as conveniências estabelecidas trazem certas coisas pra a luz e deixam outras na sombra, como disse Bauman. O que fica na sombra é uma carga e às vezes é difícil nos livrarmos dessas coisas, pois elas nos definem. Mesmo que seja uma definição negativa.
Raphael
- Pelo que me falou ate agora e pelo que consegui apreender da tua explicação eram desenhos, vídeos e objetos. E que por serem diferentes mesmo no propósito de seus podemos dizer conceitos, eles buscam atingir o outro que olha isso é certo.
Perifocus
- Com certeza, sobretudo por perseguirem o estranhamento ou desejarem esse estranhamento (benéfico) que leva a pensar e questionar aquele objeto-abismo ali, na frente dos meus olhos.
Poderíamos dar um passo adiante e dizer que para não tornar o outro que era vizinho e amigo ou mesmo familiar e intimo, em um outro estranho e aterrorizante o curador criou uma categoria a qual denominou “alteridades habituais”. Incluindo-se ele mesmo nessa classe. E isso fica claro quando ele disse que ele via a arte de forma diferente dos filósofos, que usam a arte para ilustrar um conceito.
Raphael
- Posso dizer que concordo com o teu pensamento. E posso acrescentar que mesmo eles usando objetos cotidianos e reconhecíveis eles querem expressar um conceito novo. Estou certo?
Perifocus
- Sim mas parecem se perder um pouco quando pretendem que essas mesmas imagens expressem um conceito unânime, uma chave. Mas que porta abre essa chave? Que espaços, que recessos, revelam essas portas? Poderia ser uma única chave? A chave mestra? O santo graal da inteligibilidade? Como você bem sabe companheiro eu uso aqui o sentido latino do vocábulo inteligência, a saber: intus + légire, i.e., ler dentro. Com essa chave eu poderia ler tudo, e tudo se tornaria claro no momento exato em que os raios de luz que vem dos objetos tocam os meus olhos.
Raphael
- Mas você concorda que os trabalhos suscitam ou inquietam o pensamento.
Perifocus
- Sim, pois na medida em que “a palavra” (logogrifo), que esta velada em cada uma das obras (compostas por diferentes objetos), produz em mim a pura proximidade, ou seja, a distância. Pois o que é obscuro o é porque oculta em si mesmo a luz...
É como diz Heráclito*: como alguém poderia manter-se encoberto face ao que não declina? Para mim os conceitos se escondem, declinam atrás de uma nuvem ou no horizonte (entenda-se horizonte a aparência das coisas). É bem verdade, pode-se admitir, que eles estão escondidos em imagens cotidianas e familiares, mas essas imagens não os destroem, ou os aprisionam, apenas servem de recipiente e momentaneamente os contém. Por não destruir os conceitos e por conter parte da alma de quem os produziu; eles (objetos de arte e objetos em geral vinculados a alguma estética), mesmo mudos, falam no silêncio. Se eles falam, nossos olhos "ouvem" ou leem essa mensagem que é o próprio sentido do conceito.

Bibliografia e notas sobrescritas:
1. Didi-Huberman, G. O que vemos o que nos olha. Editora 34. São Paulo, S.P. 1998
2. Bauman, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Jorge Zahar Ed. Rio de Janeiro, 1998.
*. Ἡράκλειτος ὁ Ἐφέσιος. Heráclito de Éfeso.

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