segunda-feira, 11 de outubro de 2010

COMEÇOS

PARA QUE ESCREVO


"Para que escrevo? E eu sei? Sei não. Sim, é verdade, também as vezes penso que eu não sou eu, pareço pertencer a uma galáxia longíqua de tão estranho que sou de mim. Sou eu? Espanto-me com o meu encontro."

LISPECTOR, Clarice. A HORA DA ESTRELA. Rocco, Rio de Janeiro, 1998.

***

Sim, por mais estranho que possa eu parecer para mim mesmos quando dou vazão ao fluxo de palavras que se encontra em minha memória, sou mesmo eu.
Eu sei mesmo que alijado do eu-corpo.
Ao mesmo tempo sou e não sou, estou e não estou em mim.
Subitamente encontro-me comigo mesmo, como quem encontra um conhecido ao dobrar uma esquina.
E nesse momento parece-me que eu havia chegado de algum lugar que de tão próximo fez-se infinitamente longe; a pura distância, ou seja, o eu mesmo.
Encontro-me a mim mesmo como se junto ao fogo da lareira...
Envolto em palavras... nomes, verbos, qualidades... tudo o que se pode falar dos fenômenos.
Encontro com uma descrição de mim
Encontro-me com a palavra Eu.
O espelho opaco da descrição
O fundo da caverna de Platão.

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